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Anafilaxia intraoperatória — reconhecimento e conduta
Durante a cirurgia, o paciente desenvolve hipotensão súbita e/ou broncoespasmo sem explicação clara — como reconheço anafilaxia intraoperatória, já que os sinais clássicos de pele podem estar mascarados pelos campos cirúrgicos, e trato rapidamente?
Red flags — sinais de gravidade
Erro que mata: atrasar adrenalina esperando confirmação de sinais cutâneos clássicos — em ambiente cirúrgico, esses sinais frequentemente estão mascarados pelos campos e a hipotensão/broncoespasmo isolados já justificam tratamento imediato
Reexposição ao mesmo agente suspeito antes de identificar e documentar o gatilho — risco de reação ainda mais grave
Reposição volêmica insuficiente diante do extravasamento capilar maciço da anafilaxia — subestimar o volume necessário
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Suspeitar de anafilaxia diante de hipotensão ou taquicardia inexplicada refratária a vasopressor, especialmente se associada a broncoespasmo — sinais cutâneos podem estar ausentes/mascarados sob os campos
Identificar o momento da exposição ao agente suspeito: pela epidemiologia do NAP6 (o maior registro do tema), antibiótico é o gatilho mais comum, seguido de bloqueador neuromuscular e clorexidina — látex hoje é causa rara, não mais um dos principais
Lembrar que até parte relevante do volume circulante pode extravasar em minutos por vasodilatação/aumento de permeabilidade capilar — a hipotensão pode ser profunda e rápida
Não confundir com outras causas comuns de hipotensão intraoperatória (profundidade anestésica excessiva, hemorragia, embolia) — mas manter anafilaxia na lista diante de refratariedade a vasopressor
Conduta inicial
1Interromper a exposição ao agente suspeito (bloqueador neuromuscular, antibiótico, látex) assim que a suspeita surgir.
2Administrar adrenalina IV titulada (bolus inicial de 50 mcg, ajustando para menos em pacientes mais sensíveis) prontamente diante de hipotensão significativa e/ou broncoespasmo sem explicação melhor, sem esperar confirmação de sinais cutâneos — que podem estar mascarados pelos campos cirúrgicos. Com acesso venoso já estabelecido (contexto intraoperatório), a via é IV titulada, não IM — a via IM fica reservada a cenários sem acesso venoso.
3Reposição volêmica agressiva com cristaloide, antecipando extravasamento capilar importante e rápido.
4Suporte de via aérea/ventilação para broncoespasmo associado (broncodilatador inalatório, considerar aumento de FiO2).
5Após estabilização, colher triptase sérica seriada (no momento agudo e 1-2h depois) para apoiar investigação alergológica futura, e documentar claramente o agente suspeito no prontuário para encaminhamento a alergologia.
Exames
Triptase sérica seriada em 3 coletas (aguda, 1-4h após o evento, e ≥24h como amostra basal) para apoiar diagnóstico retrospectivo
Encaminhamento para investigação alergológica ambulatorial (testes cutâneos) após estabilização, para identificar o agente causador
Prescrição-modelo
Modelo de rascunho para o residente adaptar e confirmar conforme protocolo institucional de anafilaxia perioperatória. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Soro
Cristaloide IV em bolus repetido, antecipando extravasamento capilar importante ___
Medicamentos
Adrenalina IV titulada (bolus inicial de 50 mcg) prontamente diante de hipotensão significativa e/ou broncoespasmo, sem aguardar sinais cutâneos ___
Broncodilatador inalatório para broncoespasmo associado ___
Corticoide reservado para reação refratária/choque persistente, nunca substituindo a adrenalina — o algoritmo 2024 não recomenda anti-histamínico de rotina nessa fase aguda ___
Recomendações
Documentar claramente o agente suspeito e evitar reexposição
Colher triptase sérica seriada e encaminhar para investigação alergológica ambulatorial
Exames
Triptase sérica seriada em 3 coletas (aguda, 1-4h, ≥24h)
Referências
[1]Perioperative anaphylaxis: pathophysiology, clinical presentation and management, BJA Education, 2019
[2]Emergency treatment of peri-operative anaphylaxis: Resuscitation Council UK algorithm for anaesthetists, Anaesthesia, 2024
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.