Paciente com neoplasia de alta carga tumoral inicia quimioterapia. Como identifico risco de síndrome de lise tumoral e conduzo a prevenção e o tratamento?
Red flags — sinais de gravidade
Hipercalemia com alteração de ECG (onda T apiculada, alargamento de QRS): risco de arritmia fatal, tratar como emergência
Lesão renal aguda oligúrica em vigência de lise tumoral: risco de sobrecarga volêmica e hipercalemia refratária
Hipocalcemia sintomática (tetania, prolongamento de QT): corrigir com cautela, pode precipitar mais precipitação de fosfato de cálcio
Hiperfosfatemia grave associada a hipocalcemia: risco de nefrocalcinose e piora renal
Necessidade de diálise de urgência: hipercalemia refratária, sobrecarga volêmica, acidose grave ou anúria
Erro que mata: repor cálcio de rotina em hiperfosfatemia sem hipocalcemia sintomática — precipita fosfato de cálcio e piora função renal
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Identificar tumores de alto risco: linfomas de alto grau (Burkitt), leucemias agudas com leucocitose importante, tumores volumosos e quimiossensíveis
Diferenciar lise tumoral laboratorial de clínica (com disfunção de órgão: arritmia, convulsão, lesão renal aguda)
Avaliar função renal basal antes de iniciar quimioterapia — é o principal determinante de gravidade
Estratificar risco (baixo/intermediário/alto) para definir intensidade da profilaxia
Monitorar eletrólitos e função renal a cada 6-8h nas primeiras 24-48h de quimioterapia em paciente de alto risco
ECG basal e monitorização cardíaca se hipercalemia significativa
Conduta inicial
1Hidratação vigorosa EV antes e durante a quimioterapia em paciente de risco intermediário/alto — é a medida mais importante de prevenção.
2Alopurinol profilático em risco intermediário; rasburicase em risco alto ou hiperuricemia estabelecida (contraindicada em deficiência de G6PD).
3Monitorar eletrólitos (potássio, fósforo, cálcio, ácido úrico) e função renal a cada 6-8h nas primeiras 24-48h de tratamento em alto risco.
4Hipercalemia significativa: tratamento de emergência (estabilização de membrana, deslocamento intracelular, remoção) conforme protocolo — não esperar sintomas.
5Hiperfosfatemia: hidratação e quelante de fósforo; evitar reposição de cálcio a menos que hipocalcemia sintomática.
6Considerar diálise precoce se hipercalemia refratária, sobrecarga volêmica, oligúria/anúria ou acidose metabólica grave.
7Evitar sobrecarga de potássio e fósforo na dieta e em soluções EV durante o período de risco.
Exames
Eletrólitos (potássio, fósforo, cálcio), ácido úrico e função renal seriados
ECG basal e conforme alteração de potássio/cálcio
Hemograma com contagem de blastos/leucometria
Gasometria venosa se suspeita de acidose associada
LDH como marcador de turnover celular
Prescrição-modelo
Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.
Dieta
Restringir potássio e fósforo na dieta durante período de risco
Soro
Hidratação EV vigorosa com cristaloide sem potássio, ajustada à função renal e diurese
Medicamentos
Alopurinol VO em risco intermediário, iniciado antes da quimioterapia
Rasburicase em risco alto ou hiperuricemia estabelecida (checar G6PD antes)
Tratamento de hipercalemia conforme protocolo de emergência se necessário
Quelante de fósforo se hiperfosfatemia; evitar cálcio EV de rotina
Recomendações
Monitorização de diurese horária
Eletrólitos e função renal seriados a cada 6-8h nas primeiras 48h de alto risco
Avaliação precoce de necessidade de diálise se refratariedade
Exames
Eletrólitos e função renal seriados
ECG se alteração significativa de potássio ou cálcio
Referências
[1]Cairo MS, Bishop M. Tumour lysis syndrome: new therapeutic strategies and classification, British Journal of Haematology, 2004
[2]Guidelines for the management of tumour lysis syndrome in adults and children with haematological malignancies, British Committee for Standards in Haematology, 2015
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.