Paciente etilista internado começa a tremer, ficar agitado e taquicárdico. Como reconheço abstinência alcoólica precocemente e evito evolução para delirium tremens?
Red flags — sinais de gravidade
Delirium tremens estabelecido (confusão + alucinações + agitação intensa + instabilidade autonômica): alta mortalidade sem tratamento agressivo
Crise convulsiva na abstinência: geralmente tônico-clônica generalizada, pode preceder delirium tremens
Hipertermia, taquicardia e hipertensão importantes: sinais de instabilidade autonômica grave, risco de colapso cardiovascular
Glicose EV administrada antes da tiamina em paciente desnutrido/etilista: risco de precipitar encefalopatia de Wernicke
Doses insuficientes ou espaçadas demais de benzodiazepínico: subtratamento é a principal causa de evolução para delirium tremens
Erro que mata: não tratar abstinência ativamente por achar que é 'só ansiedade' — escalar rápido para quadro grave
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Investigar ativamente histórico de etilismo em toda internação — pergunta de rotina, não assumir ausência
Cronologia típica: sintomas leves em 6-24h, crise convulsiva possível em 12-48h, delirium tremens em 48-96h após última dose
Usar escala validada (CIWA-Ar ou equivalente) para graduar gravidade e guiar tratamento, não tratar por impressão isolada
Rastrear e corrigir distúrbios associados comuns no etilista: hipoglicemia, hipomagnesemia, hipocalemia, desnutrição
Sempre administrar tiamina antes ou junto de qualquer solução glicosada — prevenir encefalopatia de Wernicke
Avaliar risco de convulsão e ter plano de contenção do ambiente (proteção, evitar restrição física excessiva sem sedação adequada)
Conduta inicial
1Tiamina EV/IM antes ou junto de qualquer solução glicosada, sempre, em todo paciente etilista ou desnutrido.
2Benzodiazepínico titulado por sintomas usando escala validada (CIWA-Ar ou protocolo institucional) — doses adequadas e repetidas conforme necessário, subtratamento é o erro mais comum.
Rastreio de foco infeccioso ou outra causa orgânica de agitação (excluir diagnóstico diferencial)
TC de crânio se trauma associado ou dúvida diagnóstica com outras causas de rebaixamento/confusão
Prescrição-modelo
Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.
Dieta
Dieta oral conforme tolerância; suplementação nutricional se desnutrição associada
Soro
Solução glicosada apenas após tiamina administrada; reposição de magnésio e potássio conforme dosagem
Medicamentos
Tiamina EV/IM antes de qualquer glicose, em todo paciente etilista
Benzodiazepínico titulado por escala de sintomas (ex: diazepam ou lorazepam conforme função hepática), doses repetidas conforme protocolo local
Reposição de magnésio e potássio se hipomagnesemia/hipocalemia confirmada
Considerar antipsicótico apenas como adjuvante em agitação refratária, nunca substituindo o benzodiazepínico
Recomendações
Reavaliação por escala de sintomas a cada poucas horas até estabilização
Ambiente seguro e reorientação frequente
Encaminhamento para suporte de cessação de consumo após estabilização
Exames
Eletrólitos seriados durante o tratamento
Reavaliação clínica por escala validada a cada turno
Referências
[1]The ASAM Clinical Practice Guideline on Alcohol Withdrawal Management, American Society of Addiction Medicine, 2020
[2]Sullivan JT et al. - Assessment of Alcohol Withdrawal: the revised Clinical Institute Withdrawal Assessment for Alcohol scale (CIWA-Ar), British Journal of Addiction, 1989
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.