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Vasculites e LES em atividade — quando é emergência reumatológica

Paciente com LES ou vasculite ANCA-associada conhecida chega com piora clínica. Como diferencio uma reagudização que pode esperar avaliação ambulatorial de uma emergência reumatológica que precisa de internação e pulsoterapia agora?

Red flags — sinais de gravidade

  • Glomerulonefrite rapidamente progressiva: creatinina em ascensão em dias, hematúria dismórfica, cilindros hemáticos
  • Hemorragia alveolar difusa: hemoptise, dispneia, queda de hemoglobina, infiltrado alveolar bilateral novo
  • Manifestação neuropsiquiátrica grave do LES: convulsão, psicose aguda, mielite transversa ou déficit focal em paciente jovem com LES
  • Trombocitopenia grave ou anemia hemolítica com sangramento ativo ou hemólise franca
  • Derrame pericárdico com repercussão hemodinâmica (tamponamento)
  • Trombose em três ou mais órgãos em menos de uma semana — suspeitar de síndrome antifosfolípide catastrófica
  • Erro que mata: aguardar confirmação por biópsia renal antes de iniciar pulsoterapia em paciente com glomerulonefrite rapidamente progressiva e perda franca de função renal
  • Erro que mata: atribuir citopenia grave só à atividade da doença de base sem investigar síndrome de ativação macrofágica
  • Erro que mata: intensificar imunossupressão em paciente com foco infeccioso não tratado, confundindo sepse com atividade de doença
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Confirmar diagnóstico prévio de LES ou vasculite ANCA-associada (granulomatose com poliangiite, poliangiite microscópica, granulomatose eosinofílica com poliangiite) e revisar sorologias de base
  • Avaliar sistematicamente os órgãos que definem gravidade: renal (glomerulonefrite rapidamente progressiva), pulmonar (hemorragia alveolar difusa), neurológico, hematológico e cardiovascular
  • Diferenciar atividade de doença de infecção sobreposta — paciente imunossuprimido pode cursar com febre e PCR elevado por ambas as causas
  • Solicitar sedimento urinário e relação proteína/creatinina em toda reagudização — glomerulonefrite pode ser oligossintomática até estágio avançado
  • Pesquisar hemoptise ou dispneia associada a queda de hemoglobina, sugerindo hemorragia alveolar difusa
  • Considerar síndrome antifosfolípide catastrófica se trombose acometendo três ou mais órgãos em menos de uma semana em paciente com LES ou SAF conhecido
  • Considerar síndrome de ativação macrofágica (linfo-histiocitose hemofagocítica secundária) se citopenias associadas a ferritina muito elevada em LES grave

Conduta inicial

  1. 1Estabilizar conforme gravidade (ABCDE); nas formas órgão-ameaçadoras (hemorragia alveolar com hipoxemia, glomerulonefrite rapidamente progressiva), tratar como emergência sem aguardar confirmação histológica para iniciar terapia.
  2. 2Iniciar pulsoterapia com metilprednisolona intravenosa (250–1000 mg/dia por 1 a 3 dias) nas formas graves de LES ou vasculite ANCA-associada, seguida de prednisona oral em desmame.
  3. 3Associar imunossupressor de indução (ciclofosfamida ou rituximab) conforme órgão acometido, gravidade e decisão compartilhada com reumatologia — eficácia semelhante entre as duas opções na indução de granulomatose com poliangiite/poliangiite microscópica.
  4. 4Considerar plasmaférese se creatinina acima de 3,4 mg/dL, necessidade de diálise, piora rápida da função renal, ou hemorragia alveolar difusa com hipoxemia.
  5. 5Se suspeita de síndrome antifosfolípide catastrófica: associar anticoagulação plena, pulsoterapia com corticoide e plasmaférese ou imunoglobulina intravenosa — tríade terapêutica, iniciar precocemente.
  6. 6Rastrear e tratar infecção concomitante antes ou durante a intensificação da imunossupressão.
  7. 7Acionar reumatologia e nefrologia precocemente para definir intensidade de imunossupressão e indicação de biópsia renal, mesmo com terapia empírica já iniciada.

Exames

  • Hemograma completo com plaquetas, reticulócitos, LDH, haptoglobina e Coombs direto se suspeita de hemólise
  • Função renal, eletrólitos, sedimento urinário e relação proteína/creatinina urinária
  • Complemento C3/C4 e anti-dsDNA (atividade de LES); ANCA MPO/PR3 (vasculite)
  • Ferritina, triglicerídeos e fibrinogênio se suspeita de síndrome de ativação macrofágica
  • Gasometria arterial e radiografia ou TC de tórax se suspeita de hemorragia alveolar
  • Anticorpos antifosfolípides (anticoagulante lúpico, anticardiolipina, anti-beta2-glicoproteína I) se suspeita de síndrome antifosfolípide catastrófica
  • Biópsia renal quando exequível, para confirmar padrão histológico e guiar imunossupressão de manutenção

Prescrição-modelo

Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever. Definir com reumatologia/nefrologia a intensidade e duração da imunossupressão.

Dieta

  • Dieta conforme quadro clínico; considerar restrição de sódio e potássio se lesão renal aguda

Soro

  • Cristaloide conforme volemia e função renal; evitar sobrecarga hídrica se oligúria

Medicamentos

  • Metilprednisolona IV em pulso (250–1000 mg/dia por 1 a 3 dias) nas formas órgão-ameaçadoras, seguida de prednisona oral em desmame
  • Ciclofosfamida IV ou rituximab IV para indução, conforme órgão acometido e decisão compartilhada com reumatologia
  • Heparina em dose plena se suspeita de síndrome antifosfolípide catastrófica
  • Profilaxia para Pneumocystis jirovecii durante imunossupressão intensa, conforme protocolo local

Recomendações

  • Internação em unidade com suporte para monitorização hemodinâmica/respiratória se hemorragia alveolar ou instabilidade
  • Discutir plasmaférese com nefrologia/hemoterapia se critérios preenchidos
  • Rastrear e tratar foco infeccioso antes de intensificar a imunossupressão

Exames

  • Repetir função renal e sedimento urinário seriados para acompanhar resposta
  • Biópsia renal quando exequível para guiar terapia de manutenção

Referências

  1. [1]EULAR recommendations for the management of systemic lupus erythematosus: 2023 update, EULAR, Annals of the Rheumatic Diseases, 2024
  2. [2]EULAR recommendations for the management of ANCA-associated vasculitis: 2022 update, EULAR, Annals of the Rheumatic Diseases, 2023
  3. [3]KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Management of ANCA-Associated Vasculitis, Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO), 2024
  4. [4]Diagnosis and Management of Catastrophic Antiphospholipid Syndrome and the Potential Impact of the 2023 ACR/EULAR Antiphospholipid Syndrome Classification Criteria, revisão indexada no PubMed Central, 2024

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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