Intoxicações agudas no adulto — abordagem inicial e antídotos
Chega um adulto com suspeita de intoxicação (medicamento, droga ou agente desconhecido). Como estabilizo, decido se descontamino e qual antídoto considerar?
Red flags — sinais de gravidade
Rebaixamento com bradipneia e miose puntiforme — toxíndrome opioide, considerar naloxona e suporte ventilatório
QRS alargado (> 100–120 ms) em intoxicação por tricíclicos/bloqueadores de canal de sódio — risco de arritmia, considerar bicarbonato de sódio
Sialorreia, broncorreia, miose, bradicardia e fasciculações — toxíndrome colinérgica (organofosforado/carbamato), atropina em altas doses guiada pela secreção
Acidose metabólica com ânion gap elevado e/ou gap osmolar — suspeitar de metanol/etilenoglicol; não esperar dosagem para tratar se alta suspeita
Hipertermia grave, agitação e rigidez (síndrome serotoninérgica/simpaticomimética) — risco de rabdomiólise e colapso
Erro que mata: focar no antídoto e negligenciar via aérea/ventilação, ou dar carvão ativado em paciente com consciência rebaixada e via aérea desprotegida (risco de aspiração)
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Prioridade é ABC e suporte, não o antídoto: via aérea, ventilação, circulação e nível de consciência antes de qualquer medida específica
Checar glicemia capilar em todo rebaixamento de consciência — hipoglicemia imita e acompanha intoxicações
Levantar o agente, dose estimada, tempo desde a exposição, via e coingestões (álcool, múltiplos fármacos) com paciente/acompanhantes
Reconhecer toxíndromes para orientar hipótese: colinérgica, anticolinérgica, simpaticomimética, opioide, sedativo-hipnótica
Contatar o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox / Disque-Intoxicação 0800 722 6001) para conduta específica do agente
Descontaminação gastrointestinal NÃO é rotina: carvão ativado só se benefício provável (ingestão recente de dose tóxica, agente adsorvível, via aérea protegida)
Reavaliar sinais vitais, ECG (QRS/QT) e estado neurológico de forma seriada — muitos agentes têm deterioração tardia
Conduta inicial
1Estabilizar ABC: proteger via aérea se rebaixamento, oxigênio/ventilação conforme necessidade, acesso venoso e monitorização contínua com ECG.
2Glicemia capilar imediata; corrigir hipoglicemia. Considerar tiamina antes de glicose no etilista/desnutrido.
3Identificar toxíndrome e acionar o CIATox para conduta específica do agente e dose de antídoto.
4Carvão ativado (1 g/kg) apenas em ingestão recente de dose tóxica de agente adsorvível com via aérea protegida — não usar de rotina, não usar em cáusticos/hidrocarbonetos.
5Antídoto direcionado quando indicado: naloxona (opioides), flumazenil com cautela (benzodiazepínicos, evitar se coingestão de convulsivante/dependência), N-acetilcisteína (paracetamol), atropina ± pralidoxima (organofosforados), bicarbonato de sódio (tricíclicos com QRS largo), etanol ou fomepizol (metanol/etilenoglicol).
6Tratar complicações: convulsão com benzodiazepínico, hipertermia com resfriamento, arritmia conforme causa; considerar hemodiálise em agentes dialisáveis (metanol, etilenoglicol, lítio, salicilatos, valproato).
7Manter observação prolongada nos agentes de toxicidade tardia (paracetamol, liberação prolongada, hipoglicemiantes) mesmo se paciente inicialmente bem.
Exames
Glicemia capilar e eletrólitos, função renal e hepática
Gasometria arterial com cálculo de ânion gap; gap osmolar se suspeita de álcoois tóxicos
ECG de 12 derivações (QRS e QT) e monitorização
Nível sérico quando muda conduta: paracetamol, salicilato, lítio, digoxina, carbamazepina, valproato
Creatinofosfoquinase (CPK) se agitação/rigidez/imobilização (rabdomiólise); beta-hCG em mulher em idade fértil
Screening toxicológico urinário só se alterar conduta — não substitui avaliação clínica
Prescrição-modelo
Doses de antídoto variam por agente, peso e gravidade — confirme sempre com o CIATox e referência toxicológica antes de prescrever; ajuste por função renal/hepática e alergias.
Dieta
Jejum até definição de via aérea e conduta; dieta conforme estabilidade
Soro
Cristaloide para reposição volêmica e manutenção; hidratação generosa e alcalinização urinária conforme agente (ex.: salicilatos)
Glicose hipertônica se hipoglicemia; tiamina antes da glicose no etilista/desnutrido
Medicamentos
Naloxona EV/IM/IN titulada em toxíndrome opioide com depressão respiratória
N-acetilcisteína conforme protocolo (esquema EV ou VO) na intoxicação por paracetamol
Atropina EV titulada pela secreção brônquica ± pralidoxima em organofosforado/carbamato
Bicarbonato de sódio EV em intoxicação por tricíclicos com QRS alargado ou arritmia
Etanol ou fomepizol e considerar hemodiálise em metanol/etilenoglicol
Benzodiazepínico para convulsão/agitação; evitar flumazenil de rotina pelo risco de convulsão
Recomendações
Contatar o CIATox (0800 722 6001) para conduta e dose específica do agente
Descontaminação seletiva (carvão ativado) só com indicação e via aérea protegida
Observação prolongada e reavaliação seriada nos agentes de toxicidade tardia
Exames
Gasometria com ânion/gap osmolar
ECG seriado
Níveis séricos que mudam conduta
Função renal/hepática e CPK
Referências
[1]Diretrizes Brasileiras para Diagnóstico e Tratamento das Intoxicações, Ministério da Saúde / ANVISA
[2]Position Paper Update: Single-Dose Activated Charcoal e documentos de descontaminação gastrointestinal, American Academy of Clinical Toxicology (AACT) e European Association of Poison Centres and Clinical Toxicologists (EAPCCT)
[3]Intoxicações e envenenamentos — abordagem geral, Manuais MSD para Profissionais, edição 2024
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.