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Celulite e erisipela: diagnóstico, critérios de internação e antibiótico empírico
Chegou uma perna vermelha, quente e dolorida no plantão — como separo celulite de erisipela, quem interno e qual antibiótico começo?
Red flags — sinais de gravidade
Erro que mata: rotular como 'celulite grave' uma fasciíte necrosante e só observar — dor desproporcional ao exame, bolhas hemorrágicas, crepitação, necrose cutânea ou toxemia pedem avaliação cirúrgica de urgência (ver verbete cg-031), não mais antibiótico oral.
Hipotensão, rebaixamento ou sinais de disfunção orgânica — sepse de partes moles, conduzir como emergência.
Progressão rápida do eritema mesmo após início do antibiótico, apesar da marcação da borda.
Bolhas, descolamento de pele ou áreas de anestesia sobre o eritema.
Imunossuprimido, neutropênico ou diabético descompensado com infecção de partes moles.
Celulite de face/órbita — periorbitária vs orbitária muda a urgência e o encaminhamento.
Falha em 48–72h de tratamento adequado — reavaliar diagnóstico, cobertura (MRSA?), coleção não drenada ou complicação.
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Caracterizar a lesão: erisipela tende a borda nítida e elevada, mais superficial; celulite tem limites mal definidos e acomete tecido subcutâneo mais profundo.
Marcar a borda do eritema com caneta e horário — serve para acompanhar progressão ou resposta nas próximas horas.
Procurar a porta de entrada: micose interdigital, fissura, úlcera, ferida, picada, dermatite.
Medir sinais vitais e temperatura — febre, taquicardia (FC >90), taquipneia (FR >24) e alteração de leucócitos indicam quadro sistêmico.
Levantar fatores de risco: diabetes, linfedema, insuficiência venosa, imunossupressão, episódios prévios no mesmo membro.
Checar sinais de purulência (abscesso, drenagem) — muda a cobertura para incluir S. aureus/MRSA.
Avaliar dor desproporcional, bolhas, crepitação ou área com anestesia — levanta suspeita de infecção necrosante (ver verbete cg-031).
Definir se há critério para via IV/internação antes de escolher a droga.
Conduta inicial
1Estratificar gravidade: sem sinais sistêmicos → considerar via oral ambulatorial; com sinais sistêmicos, comorbidade descompensada ou falha de VO → via IV/internação.
2Sinalizar suspeita de infecção necrosante como prioridade — acionar cirurgia antes de investir tempo em ajuste de antibiótico (ver verbete cg-031).
3Elevar o membro acometido e tratar a porta de entrada (ex.: antifúngico tópico para micose interdigital) para reduzir recorrência.
4Erisipela e celulite não purulenta: cobertura empírica dirigida a estreptococo (± MSSA quando houver dúvida clínica).
5Se houver purulência/abscesso: drenagem é o passo central; associar cobertura para S. aureus, incluindo MRSA em pacientes de risco.
6Marcar a borda e reavaliar em 24–72h — resposta clínica costuma aparecer nesse intervalo.
7Analgesia, hidratação e ajuste de comorbidades (glicemia) conforme o caso.
8Registrar critérios usados para definir via oral vs IV e o plano de reavaliação.
Exames
Nenhum exame laboratorial é obrigatório na celulite não complicada típica — o diagnóstico é clínico.
Hemograma, PCR e função renal quando houver sinais sistêmicos, comorbidade ou dúvida de gravidade.
Hemoculturas em imunossuprimido, toxemia ou suspeita de infecção mais profunda (baixo rendimento na celulite simples).
Glicemia/HbA1c em diabéticos — descompensação piora e mascara a evolução.
Cultura de secreção/abscesso quando houver material drenável, para guiar ajuste de antibiótico.
Imagem (USG/TC) se suspeita de abscesso profundo, coleção ou infecção necrosante — não atrasar cirurgia se a suspeita for forte.
Prescrição-modelo
Modelo de rascunho para o residente ajustar ao peso, função renal, alergias e protocolo da instituição — as doses precisam ser confirmadas antes de assinar. Doses de referência para adulto; não é prescrição finalizada.
Dieta
Conforme comorbidades; jejum apenas se houver previsão de drenagem/procedimento cirúrgico.
Soro
Hidratação IV conforme estado clínico; em quadro sistêmico/sepse, reposição volêmica guiada por metas.
Medicamentos
Celulite/erisipela não purulenta, via oral (paciente estável): Cefalexina 500 mg VO 6/6h (referência IDSA). Alternativa em erisipela: Amoxicilina VO. Duração usual 5 dias, estendendo se não houver melhora.
Alérgico a betalactâmico: Clindamicina 300–450 mg VO 6/6h a 8/8h — conferir posologia no protocolo local.
Necessidade de via IV (sinais sistêmicos, falha de VO): Cefazolina 1 g IV 8/8h, ou Oxacilina 1–2 g IV 4/4h para cobertura de MSSA.
Purulência/abscesso ou risco de MRSA: drenar + associar cobertura para MRSA (ex.: Clindamicina, conforme perfil local de sensibilidade) — confirmar no protocolo institucional.
Analgésico/antitérmico conforme necessidade.
Recomendações
Elevar o membro acometido.
Tratar a porta de entrada (micose interdigital, fissura, ferida).
Retornar antes se piora, febre alta, dor desproporcional, bolhas ou área que 'escurece'.
Reavaliação em 48–72h para confirmar resposta ao tratamento.
Exames
Hemograma, PCR e função renal se sinais sistêmicos ou comorbidade.
Cultura de secreção/abscesso quando houver material drenável.
Glicemia em diabéticos.
Referências
[1]Practice Guidelines for the Diagnosis and Management of Skin and Soft Tissue Infections: 2014 Update, Infectious Diseases Society of America (IDSA), Clinical Infectious Diseases, 2014
[2]2018 WSES/SIS-E consensus conference: recommendations for the management of skin and soft-tissue infections, World Society of Emergency Surgery (WSES) / Surgical Infection Society Europe (SIS-E), World Journal of Emergency Surgery, 2018