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Gastroenterite aguda no adulto — hidratação, quando investigar e quando dar antibiótico

Chegou um adulto com diarreia aguda e vômitos no PS — hidrato como, investigo quando e antibiótico entra em quem?

Red flags — sinais de gravidade

  • Diarreia sanguinolenta + dor abdominal, com pouca ou nenhuma febre — pensar em STEC (E. coli O157) e risco de síndrome hemolítico-urêmica.
  • Sinais de sepse ou desidratação grave: hipotensão, taquicardia sustentada, rebaixamento, anúria.
  • Distensão abdominal importante com parada de eliminação — risco de megacólon tóxico; suspender antidiarreicos.
  • Diarreia após antibiótico recente ou internação — investigar C. difficile antes de tratar como gastroenterite comum.
  • Idoso, imunossuprimido ou gestante com febre — limiar mais baixo para coprocultura e internação (Listeria em gestante).
  • Diarreia >7 dias ou perda de peso — sai do roteiro de diarreia aguda autolimitada.
  • Erro que mata: dar antibiótico ou loperamida na suspeita de STEC/disenteria não esclarecida — antibiótico aumenta risco de SHU e loperamida é contraindicada em diarreia com sangue ou febre alta.
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Duração e frequência das evacuações — aguda é até 14 dias; >7 dias já muda a investigação.
  • Sangue ou muco nas fezes (disenteria)? Febre? Dor abdominal intensa?
  • Grau de desidratação: mucosas, turgor, diurese, FC, PA (incluir hipotensão postural), nível de consciência.
  • Epidemiologia: viagem recente, surto alimentar, uso recente de antibiótico (pensar C. difficile), contato com casos.
  • Comorbidades e risco: idoso, imunossuprimido, gestante, DII, uso de IBP.
  • Medicações em uso que confundem ou pioram: laxantes, metformina, colchicina, quimioterapia.
  • Tolerância à via oral — vomitou tudo ou aceita líquidos?
  • Última diurese e peso habitual, se disponível — ajuda a estimar déficit.

Conduta inicial

  1. 1Maioria dos casos é viral e autolimitada: hidratação e sintomáticos, sem antibiótico e sem coprocultura de rotina (ACG 2016).
  2. 2Desidratação leve a moderada: soro de reidratação oral de osmolaridade reduzida é primeira linha, em pequenos volumes frequentes (IDSA 2017).
  3. 3Desidratação grave, choque, vômitos incoercíveis ou falha da via oral: cristaloide IV (ex. Ringer lactato), reavaliando volemia e eletrólitos.
  4. 4Vômito limitando a reidratação oral: antiemético (ondansetrona VO/EV conforme protocolo institucional) para viabilizar a via oral.
  5. 5Coprocultura/pesquisa de patógenos: reservar para disenteria, doença moderada-grave, febre, sepse, sintomas >7 dias, imunossuprimidos ou contexto de surto (ACG 2016; IDSA 2017).
  6. 6Antibiótico empírico: NÃO para diarreia aquosa comunitária comum. Considerar em diarreia do viajante moderada-grave/febril e em paciente séptico após coleta de culturas — azitromicina 1 g VO dose única (ou 500 mg/dia por 3 dias) ou ciprofloxacino 750 mg VO dose única (ou 500 mg 12/12h por 3 dias), conforme resistência local e história de viagem (CDC Yellow Book; IDSA 2017).
  7. 7NÃO dar antibiótico na suspeita ou confirmação de STEC O157 — risco de SHU. Aguardar esclarecimento etiológico em diarreia sanguinolenta afebril antes de tratar (IDSA 2017).
  8. 8Loperamida: só em diarreia aquosa sem febre alta e sem sangue; pode ser adjuvante ao antibiótico na diarreia do viajante. Contraindicada em disenteria e quando houver risco de megacólon tóxico.

Exames

  • Casos leves autolimitados: nenhum exame de rotina.
  • Doença moderada-grave/desidratação: hemograma, eletrólitos (Na, K), ureia/creatinina, gasometria se grave.
  • Coprocultura + pesquisa de STEC/toxina Shiga se diarreia sanguinolenta, febre, sepse ou surto.
  • Toxina/PCR para C. difficile se antibiótico recente ou hospitalização.
  • Pesquisa de protozoários (Giardia, Entamoeba) se diarreia >7 dias ou epidemiologia sugestiva.
  • Se suspeita de SHU: hemograma com esquizócitos, plaquetas, função renal, DHL.

Prescrição-modelo

Modelo de prescrição em rascunho, com campos em aberto. Confira doses, alergias, função renal e protocolo institucional antes de assinar — quem fecha a conduta é você.

Dieta

  • Dieta conforme aceitação, fracionada; retomar alimentação habitual precocemente assim que tolerar — não manter jejum prolongado nem 'dieta zero' de rotina.

Soro

  • Soro de reidratação oral (SRO/OMS): ___ mL após cada evacuação líquida, em pequenos goles frequentes.
  • Se via IV: Ringer lactato ___ mL EV em ___ (ajustar ao grau de desidratação, peso e comorbidades), reavaliar em ___ h.

Medicamentos

  • Ondansetrona ___ mg EV/VO se vômitos (dose e intervalo conforme protocolo institucional).
  • Dipirona ou paracetamol ___ se febre/dor, conforme padrão do serviço.
  • SE indicado antibiótico (viajante moderado-grave/séptico, sem suspeita de STEC): azitromicina 1 g VO dose única OU ciprofloxacino 750 mg VO dose única — confirmar indicação, alergias e resistência local.
  • Loperamida SOMENTE se diarreia aquosa sem sangue e sem febre alta: ___ (contraindicada em disenteria).

Recomendações

  • Retornar se sangue nas fezes, febre persistente, diminuição da urina, sonolência ou incapacidade de ingerir líquidos.
  • Higiene das mãos e afastamento de manipulação de alimentos enquanto sintomático.

Exames

  • Eletrólitos + função renal se moderado-grave: ___
  • Coprocultura/pesquisa de toxina Shiga se disenteria/surto: ___

Referências

  1. [1]ACG Clinical Guideline: Diagnosis, Treatment, and Prevention of Acute Diarrheal Infections in Adults — Riddle MS, DuPont HL, Connor BA. American College of Gastroenterology, Am J Gastroenterol. 2016;111(5):602-22.
  2. [2]2017 Infectious Diseases Society of America Clinical Practice Guidelines for the Diagnosis and Management of Infectious Diarrhea — Shane AL et al. IDSA, Clin Infect Dis. 2017;65(12):e45-e80.
  3. [3]Travelers' Diarrhea — CDC Yellow Book (Health Information for International Travel), CDC, edição vigente (doses de azitromicina e ciprofloxacino).
  4. [4]Bacterial Gastroenteritis — Medscape Reference (emedicine.medscape.com/article/176400), atualização contínua.

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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