Constipação e fecaloma no idoso — desimpactação, laxativos e quando suspeitar de obstrução
Idoso constipado há dias no plantão, com desconforto abdominal — como diferencio constipação simples de fecaloma, como desimpacto e quando isso vira suspeita de obstrução?
Red flags — sinais de gravidade
Distensão abdominal progressiva + vômitos + parada de eliminação de gases e fezes — quadro de obstrução intestinal, não de constipação simples; ver verbete cg-005 (obstrução intestinal).
Erro que mata: prescrever laxante estimulante ou enema em obstrução mecânica não reconhecida — risco de perfuração. Na dúvida de obstrução, imagem antes de laxar.
Dor abdominal intensa, sinais de irritação peritoneal ou instabilidade em paciente com fecaloma — pensar em úlcera/perfuração estercoral, que tem alta mortalidade no idoso; cirurgia de urgência (ver cg-005).
Sangramento retal, perda de peso ou anemia em idoso com mudança de hábito intestinal — investigar câncer colorretal antes de rotular como constipação funcional.
Diarreia líquida com escape fecal em idoso acamado tratada como gastroenterite — pode ser transbordamento por fecaloma; antidiarreico aqui agrava a impactação.
Enema de fosfato de sódio em idoso, nefropata ou cardiopata — risco de distúrbio hidroeletrolítico grave (hiperfosfatemia, hipocalcemia); preferir enema glicerinado ou de água morna.
Óleo mineral por via oral em idoso com disfagia, rebaixamento ou risco de broncoaspiração — pneumonia lipoídica; evitar nesse perfil.
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Toque retal obrigatório em todo idoso com constipação aguda ou suspeita de fecaloma — ampola cheia de fezes endurecidas fecha o diagnóstico de impactação distal; ampola vazia não exclui fecaloma proximal.
Revisar a prescrição atrás de drogas constipantes: opioide, anticolinérgico (antidepressivo tricíclico, antipsicótico, antiespasmódico), verapamil/bloqueador de canal de cálcio, ferro oral, ondansetrona.
Perguntar ativamente por red flags de câncer colorretal: sangramento nas fezes, perda de peso não intencional, mudança recente de hábito intestinal, anemia ferropriva — se presentes, encaminhar investigação (colonoscopia), não só tratar sintoma.
Diarreia paradoxal (evacuações líquidas em pequena quantidade, com escape) em idoso acamado ou institucionalizado é pista clássica de fecaloma com transbordamento — não trate como diarreia nem prescreva antidiarreico.
Checar hidratação, mobilidade, ingesta de fibra e acesso ao banheiro — no idoso hospitalizado, imobilidade e restrição hídrica são causas frequentes e corrigíveis.
Investigar causas metabólicas quando o quadro é novo ou refratário: hipotireoidismo, hipercalcemia, hipocalemia, diabetes descompensado.
Palpar abdome (massa fecal em fossa ilíaca esquerda é comum) e checar sinais de alarme abdominal: distensão importante, dor desproporcional, vômitos, parada de eliminação de gases.
Em uso crônico de opioide, considerar constipação induzida por opioide como diagnóstico específico — laxante profilático deveria estar prescrito desde o início.
Conduta inicial
1Fecaloma distal palpável ao toque: desimpactação digital com luva e lubrificante (gel de lidocaína ajuda), fragmentando a massa com paciência — é desconfortável, avise o paciente e considere analgesia.
2Após (ou junto com) a desimpactação digital, enema para limpar o reto: glicerinado ou água morna; pode repetir nos dias seguintes se necessário. Evitar fosfato de sódio no idoso.
3Fecaloma proximal (ampola vazia, massa fecal alta na imagem): lavagem oral com PEG/macrogol em volume alto, desde que obstrução esteja descartada e o paciente proteja via aérea; suspender se dor ou distensão progressiva.
4Manutenção depois de desimpactar — senão o fecaloma volta: laxante osmótico de base (PEG/macrogol ou lactulose, ambos disponíveis no SUS), com estimulante (bisacodil) de resgate se necessário.
5Ajustar as drogas constipantes: reduzir/trocar opioide se possível, revisar anticolinérgicos e verapamil, e deixar laxante profilático para quem mantém opioide.
6Corrigir o básico: hidratação, fibra na dieta conforme tolerância, mobilização e rotina de acesso ao banheiro (idoso internado evacua mal no leito).
7Imagem (radiografia de abdome; TC se disponível e dúvida) quando: toque não explica o quadro, suspeita de fecaloma proximal, distensão importante ou qualquer suspeita de obstrução — antes de laxar agressivamente.
8Suspeita de obstrução mecânica, peritonite ou perfuração estercoral: dieta zero, acesso, avaliação cirúrgica precoce — conduzir pelo verbete cg-005 (obstrução intestinal).
Exames
Toque retal — é o exame; sem ele não se fecha nem se afasta fecaloma distal.
Radiografia simples de abdome — carga fecal, distribuição de gás, sinais de obstrução (níveis hidroaéreos, distensão de alças).
TC de abdome se suspeita de obstrução, perfuração estercoral ou dor desproporcional (ver cg-005).
Eletrólitos (K, Ca, Mg), função renal, TSH e glicemia quando constipação nova/refratária — causas metabólicas.
Hemograma + pesquisa de anemia se red flags de câncer colorretal; encaminhar colonoscopia ambulatorial.
Prescrição-modelo
Modelo de rascunho para o residente adaptar e confirmar — doses, vias e escolhas dependem do paciente, da função renal, das interações e do protocolo institucional. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Dieta
Dieta ___ (conforme aceitação) com aumento de fibras se tolerado e SEM suspeita de obstrução
Se suspeita de obstrução ou abdome agudo: dieta zero e reavaliar (ver cg-005)
Soro
Hidratação oral assistida ___ mL/dia se aceitação boa
SF 0,9% ___ mL EV em ___ h se desidratação ou ingesta insuficiente (ajustar por cardiopatia/nefropatia)
Medicamentos
Desimpactação digital com gel de lidocaína 2%, seguida de enema glicerinado ___ mL via retal, ___ x/dia por até ___ dias
PEG/macrogol ___ g diluído em ___ mL, VO, ___ x/dia (manutenção) — ou esquema de lavagem oral em volume alto se fecaloma proximal SEM obstrução
Lactulose ___ mL VO ___ x/dia como alternativa osmótica (atenção a distensão/flatulência)
Bisacodil ___ mg VO à noite como resgate, por curto período — NÃO usar se suspeita de obstrução
Óleo mineral: evitar VO se risco de broncoaspiração (disfagia, rebaixamento); se usar, documentar a avaliação
Registrar evacuações (frequência e consistência) na enfermagem
Mobilização fora do leito ___ x/dia se possível; acesso ao banheiro/comadre em horário regular
Reavaliar abdome e repetir toque retal em ___ h se não evacuar
Alerta imediato se dor abdominal intensa, distensão progressiva, vômitos ou parada de gases
Exames
Radiografia simples de abdome ___
Eletrólitos, função renal, TSH, glicemia ___
TC de abdome se sinais de obstrução ou dor desproporcional ___
Programar colonoscopia ambulatorial se red flags de câncer colorretal ___
Referências
[1]AGA-ACG Clinical Practice Guideline: Pharmacological Management of Chronic Idiopathic Constipation — American Gastroenterological Association / American College of Gastroenterology, Gastroenterology, 2023
[2]Fecal Impaction (Setya A, Mathew G, Cagir B) — StatPearls, NCBI Bookshelf, atualizado em 2023
[3]Management of Constipation in Older Adults (Mounsey A et al.) — American Family Physician, 2015
[4]Constipation — Medscape Reference (emedicine.medscape.com), acesso em 2026
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.