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Queilite actínica — o lábio do trabalhador de sol é desordem potencialmente maligna, não ressecamento

Trabalhador rural com o lábio inferior ressecado, descamando e com o limite do vermelhão apagado há anos: isso é só sol ou já é lesão que precisa de biópsia?

Red flags — sinais de gravidade

  • Crostas, ulcerações e áreas eritematosas associaram-se estatisticamente a carcinoma de lábio, enquanto a descamação associou-se à queilite actínica — a mudança para crosta, úlcera ou eritema é o gatilho de biópsia
  • O exame clínico isolado não estratifica: cerca de 42% das lesões já abrigam displasia moderada (27,5%) ou severa (14,9%), e isso só se detecta por biópsia
  • O termo queilite actínica é clínico e abriga um espectro que vai de hiperceratose a carcinoma espinocelular já invasivo
  • Tratar não encerra o risco: numa metanálise, 2,5% dos casos tratados cirurgicamente evoluíram para carcinoma (Carvalho 2019), enquanto outra revisão não achou transformação após o tratamento (Bakirtzi 2021) — os dados divergem, e o seguimento continua
  • Lesão de lábio que não cicatriza, endurece ou sangra não é para acompanhar mais um pouco: é para biopsiar ou encaminhar
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • A queilite actínica é desordem potencialmente maligna relacionada ao sol, e até hoje não há tratamento ótimo estabelecido
  • Sinais mais prevalentes na metanálise de 728 pacientes: ressecamento 99%, apagamento do limite entre vermelhão e pele 82%, descamação 69% e atrofia 69%
  • Displasia epitelial encontrada no exame histopatológico: leve em 34,2%, moderada em 27,5% e severa em 14,9%
  • As estimativas de transformação maligna divergem por uma ordem de grandeza — 14% na metanálise clinicopatológica e 3,07% na revisão de estudos observacionais, esta última apoiada num único artigo elegível entre 1.126 triados
  • Tratamento cirúrgico teve remissão de 92,8% contra 65,9% do não cirúrgico, e recidiva de 8,4% contra 19,2%
  • Mesmo tratados cirurgicamente, 2,5% dos casos ainda evoluíram para malignidade
  • Ablação a laser e vermelhectomia deram os melhores desfechos clínicos e estéticos; a terapia fotodinâmica associou-se a mais recidivas
  • Em pescadores, uma revisão sistemática com 13 estudos transversais de qualidade metodológica moderada (4.546 pescadores no total) relata prevalência agrupada de queilite actínica de 35% — o resumo não diz quantos desses estudos entraram nesse número nem traz intervalo de confiança para ele. Em trabalhadores rurais brasileiros, a prevalência variou entre estudos transversais de 12,0% (300 trabalhadores) a 34,6% (240 trabalhadores)
  • Fotoproteção labial é pouco usada por quem já tem a doença: em série de 408 pacientes com queilite actínica, mais de 90% nunca haviam usado protetor labial, e o único fator associado ao uso foi fototipo I–II — o estudo não mediu efeito protetor

Conduta inicial

  1. 1Examinar o vermelhão do lábio inferior com boa iluminação em todo paciente com história de exposição solar ocupacional, mesmo quando a queixa é outra.
  2. 2Registrar cada achado separadamente: ressecamento, descamação, atrofia, apagamento do limite vermelhão-pele, crosta, úlcera e área eritematosa.
  3. 3Documentar com fotografia para comparação ao longo do tempo.
  4. 4Diante de crosta, ulceração ou área eritematosa, indicar biópsia ou encaminhar para quem a fará, sem período de observação prolongado.
  5. 5Orientar fotoproteção labial de forma concreta, com produto e frequência, e não como conselho genérico de evitar sol.
  6. 6Investigar e registrar a exposição ocupacional — é o dado que sustenta o acompanhamento e a orientação.
  7. 7Manter o paciente em seguimento mesmo depois de tratada a lesão, porque a transformação maligna pode ocorrer após o tratamento.

Exames

  • Exame clínico completo do vermelhão do lábio inferior, com registro de cada tipo de alteração encontrada
  • Documentação fotográfica para comparação ao longo do seguimento
  • Biópsia incisional das áreas com crosta, ulceração ou eritema, ou de área representativa em lesão heterogênea
  • Exame de toda a mucosa oral, já que a exposição de risco costuma vir acompanhada de outros fatores

Prescrição-modelo

Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — a indicação de biópsia e a escolha do tratamento dependem do achado clínico e do serviço disponível. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Medicamentos

  • Protetor labial com filtro solar, aplicação repetida ao longo da jornada de exposição ___

Recomendações

  • Uso de chapéu de aba larga e organização da jornada para reduzir exposição no horário de pico ___
  • Orientação sobre cessação do tabagismo, quando presente ___
  • Retorno para reavaliação da lesão em ___ meses, com comparação fotográfica

Exames

  • Biópsia da lesão de lábio ___
  • Encaminhamento para serviço de estomatologia ou cirurgia, conforme a estrutura disponível ___

Referências

  1. [1]Clinicopathological Analysis of Actinic Cheilitis: A Systematic Review with Meta-analyses, Carneiro MC et al., Head Neck Pathol 2023;17(3):708-721
  2. [2]Malignant transformation of actinic cheilitis: A systematic review of observational studies, Dancyger A et al., J Investig Clin Dent 2018;9(4):e12343
  3. [3]Surgical versus non-surgical treatment of actinic cheilitis: A systematic review and meta-analysis, Carvalho MV et al., Oral Dis 2019;25(4):972-981
  4. [4]Treatment Options and Post-Treatment Malignant Transformation Rate of Actinic Cheilitis: A Systematic Review, Bakirtzi K, Papadimitriou I, Andreadis D, Sotiriou E, Cancers (Basel) 2021;13(13):3354
  5. [5]Actinic cheilitis in rural workers: prevalence and associated factors, Faria MHD et al., Einstein (Sao Paulo) 2022;20:eAO6862
  6. [6]Social and behavioural associated factors of actinic cheilitis in rural workers, Moreira P, Assaf AV, Cortellazzi KL, Takahama Junior A, Azevedo RS, Oral Dis 2021;27:911-918, PMID 32790925
  7. [7]Use of lip photoprotection in patients suffering from actinic cheilitis, Rodriguez-Blanco I et al., Eur J Dermatol 2019;29(4):383-386, PMID 31475909
  8. [8]Oral and perioral disease prevalence among fishermen - systematic review and meta-analysis, Machado MM et al., Int Marit Health 2026;77, PMID 41914194

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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