infeccao odontogenicaangina de ludwigespacos fasciaiscelulite facialtrismodisfagiavia aereamediastinitedrenagemencaminhamento hospitalarbucomaxilofacialurgenciaodontologiaestudar

Infecção odontogênica em espaços fasciais — quando deixa de ser consultório e vira hospital

Paciente com infecção de molar inferior, edema submandibular dos dois lados, trismo e babando: isso ainda é consultório?

Red flags — sinais de gravidade

  • Estridor, sialorreia, incapacidade de deglutir a própria saliva, elevação da língua e dispneia são via aérea em risco — encaminhamento hospitalar imediato, não reavaliação amanhã
  • Trismo com disfagia e edema submandibular bilateral em infecção de molar inferior é suspeita de angina de Ludwig até prova em contrário, e o trismo está entre os sinais que podem dificultar o manejo da via aérea
  • Mediastinite descendente tem sinais clássicos (dor torácica, febre alta, crepitação à palpação cervical) que são raros; os mais comuns e muitas vezes mais precoces são inespecíficos, como dor de garganta, dor cervical e disfagia — infecção cervical que progride pede suspeita ativa e encaminhamento urgente
  • Antibiótico sem controle da fonte dentária foi o tratamento prévio mais comum de quem chegou ao hospital; nos casos avançados, a drenagem cirúrgica é o padrão
  • Paciente que mora longe de serviço de referência chega mais grave — antecipar o encaminhamento em vez de tentar mais um dia de conduta ambulatorial
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • A angina de Ludwig é celulite difusa grave, de início agudo e disseminação rápida, que acomete bilateralmente os espaços submandibular, sublingual e submentual; a maioria dos casos é odontogênica, sobretudo de segundo e terceiro molares
  • Entre os sinais e sintomas descritos estão edema cervical bilateral, disfagia, sialorreia, dor à palpação cervical, elevação e projeção posterior da língua, restrição do movimento do pescoço, trismo, dispneia e estridor, e eles podem tornar difícil o manejo da via aérea
  • Incapacidade de deglutir a saliva e estridor indicam comprometimento iminente da via aérea; a complicação mais temida é a obstrução pela elevação e projeção posterior da língua
  • Em série de 111 infecções cervicais profundas internadas, a causa odontogênica foi a principal etiologia e 38,7% tiveram complicações, com obstrução de via aérea em 25,2% e mediastinite em 10,8%
  • Escore de gravidade de infecção odontogênica igual ou maior que 5 associou-se a chance cerca de quatro vezes maior de intubação difícil (OR 3,70; IC95% 1,19–11,45), com valor preditivo negativo de 93%
  • Em 137 intubações por infecção odontogênica, o preditor mais forte de maior tempo até a anestesia estar pronta foi a escolha da intubação com fibroscópio flexível; envolvimento sublingual, faríngeo lateral ou retrofaríngeo, número de espaços acometidos e desvio grave de via aérea se associaram ao desfecho na análise inicial, mas perderam significância após correção para comparações múltiplas
  • Entre 227 pacientes que chegaram ao hospital com infecção odontogênica, 70,3% tinham recebido tratamento antes, e antibiótico sem controle da fonte foi o tratamento prévio mais frequente; maior distância até o serviço de referência associou-se a infecção mais grave
  • Mediastinite necrosante descendente em UTI teve mortalidade intra-hospitalar de 33,3%, com todos os casos de origem odontogênica na série recuperada

Conduta inicial

  1. 1Avaliar primeiro a via aérea e o estado geral, antes de olhar o dente: sialorreia, dificuldade de engolir, mudança de voz, dispneia e estridor mudam a conduta imediatamente.
  2. 2Medir e registrar a abertura bucal, e examinar assoalho de boca, elevação da língua e extensão do edema, incluindo se é bilateral.
  3. 3Aferir sinais vitais e procurar sinais sistêmicos de gravidade.
  4. 4Identificar o dente causador e avaliar o que é possível fazer com segurança no consultório para controle da fonte.
  5. 5Diante de qualquer sinal de comprometimento de via aérea, disseminação para espaços profundos ou repercussão sistêmica, encaminhar imediatamente a serviço hospitalar, sem tentar resolver localmente.
  6. 6Acionar o encaminhamento com transporte adequado e comunicação direta ao serviço, e não apenas entregando um papel ao paciente.
  7. 7Nos casos que permanecem ambulatoriais, garantir controle da fonte e reavaliação em intervalo curto, orientando o retorno imediato se surgirem sinais de alarme.

Exames

  • Avaliação de via aérea e sinais vitais antes de qualquer procedimento
  • Medida da abertura bucal e exame do assoalho de boca e da extensão do edema
  • Radiografia para identificar o dente causador quando isso não atrasar o encaminhamento
  • Exames de imagem e laboratoriais de gravidade ficam a cargo do serviço hospitalar que receber o paciente

Prescrição-modelo

Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — em quadro com sinal de gravidade, o encaminhamento vem antes de qualquer prescrição, e a escolha do antibiótico segue a avaliação e o protocolo do serviço. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Medicamentos

  • Antibioticoterapia conforme avaliação e protocolo do serviço, sempre associada ao controle da fonte ___
  • Analgesia conforme a necessidade e o perfil do paciente ___

Recomendações

  • Orientar retorno imediato se surgir dificuldade para engolir, falar, respirar ou abrir a boca ___
  • Reavaliação em intervalo curto nos casos que permanecerem ambulatoriais ___
  • Comunicação direta com o serviço de referência no momento do encaminhamento ___

Exames

  • Encaminhamento a serviço hospitalar quando houver sinal de gravidade ___

Referências

  1. [1]Ludwig's Angina: Anesthetic Management, Dowdy RAE, Emam HA, Cornelius BW, Anesth Prog 2019;66(2):103-110 (PMC6560692, PMID 31184944)
  2. [2]Ludwig's Angina - An emergency: A case report with literature review, Candamourty R, Venkatachalam S, Babu MR, Kumar GS, J Nat Sci Biol Med 2012;3(2):206-208 (PMC3510922, PMID 23225990)
  3. [3]Etiology, diagnosis, and management of descending necrotizing mediastinitis: a narrative review, Chaulk RC, Sahai D, Raj L, Nayak R, Mediastinum 2025;9:9 (PMC11982982, PMID 40224336)
  4. [4]Deep Neck Infections. Review of 111 cases, Isankova O, Safronovs J, Berke K, Taurmane L, Otolaryngol Pol 2025;79(1):1-5
  5. [5]Are higher odontogenic infection severity scores associated with difficult intubations?, Neal TW, Carr BR, Schlieve T, Oral Maxillofac Surg 2024;28(1):435-440
  6. [6]Retrospective Analysis of Factors Associated With Increased Anesthesia Ready Time in Patients With Odontogenic Infections, Govind A et al., Anesth Analg 2026;142(4):751-759
  7. [7]The association of travel distance and severity of odontogenic infections, Sklavos A, Lee K, Masood M, Oral Maxillofac Surg 2024;28(1):245-252
  8. [8]Descending necrotizing mediastinitis complicating deep neck abscesses: clinical features and prognostic assessment in 45 ICU patients, Ramos-Hinojosa ZI et al., Eur Arch Otorhinolaryngol 2025;282(5):2617-2625

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

Criar conta

Quer receber os próximos verbetes por e-mail? Sem spam, cancela quando quiser.

Ver todos os verbetes