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Tratamento restaurador atraumático e ionômero de alta viscosidade — onde a evidência sustenta substituir a broca
Dá para restaurar com ionômero de alta viscosidade e escavação manual em vez de broca? Em qual cavidade isso segura, e em qual eu estaria enganando o paciente?
Red flags — sinais de gravidade
Cavidade proximal de dente decíduo sob carga mastigatória é onde o ART mais falha — indicar ali sem combinar acompanhamento próximo é transferir o problema para o retorno
ART não é sinônimo de tratamento de segunda linha aceitável para qualquer situação: sinal de comprometimento pulpar (dor espontânea, dor que persiste depois do estímulo, mobilidade, fístula) muda o diagnóstico e o plano, não o material
Lesão que já expôs a polpa não é caso de restauração adesiva simples — a decisão passa a ser de terapia pulpar ou exodontia
Usar o ART como argumento para não encaminhar a criança que precisa de tratamento sob outra abordagem (sedação, atendimento hospitalar) atrasa o cuidado
Em restauração de múltiplas faces em posterior permanente a metanálise não encontrou diferença significativa entre ART/ionômero de alta viscosidade e tratamento tradicional — 'sem diferença demonstrada' não é o mesmo que 'boa durabilidade demonstrada', e prometer a segunda coisa não se sustenta
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Metanálise de 14 ensaios randomizados não encontrou diferença estatisticamente significativa entre a sobrevida do ART com ionômero de alta viscosidade e a das restaurações tradicionais (amálgama e resina) em cavidades de uma e de múltiplas faces em molares decíduos, e em cavidades de uma face em posteriores permanentes, nos anos 1, 2, 3 e 5
Nessa mesma metanálise, aos 4,3 e aos 6,3 anos a diferença foi estatisticamente significativa favorecendo o ART/ionômero de alta viscosidade
A ressalva metodológica é explícita: dos 14 ensaios, só dois foram julgados de baixo risco de viés
Revisão sistemática independente, com 67 artigos e taxas anuais de falha, chegou a leitura menos favorável — a técnica convencional teve melhor sobrevida que o ART, tanto em cavidade oclusal de uma face quanto em restauração de múltiplas faces, nas duas dentições
As duas revisões concordam num ponto: cavidade proximal e de múltiplas faces falha mais que cavidade oclusal de uma face, com qualquer técnica e nas duas dentições
A conclusão da metanálise é que o método ART com ionômero de alta viscosidade pode ser considerado substituto do tratamento tradicional em cavidades de uma e de múltiplas faces em molares decíduos, e em cavidades de uma face em posteriores permanentes, sobretudo em relação ao amálgama
A conclusão prática dessa segunda revisão é que o ART é opção alternativa para restauração oclusal de uma face em permanente e decíduo, e que a indicação em cavidade proximal sob carga precisa ser pesada com cuidado, especialmente em dente decíduo
A diretriz de tratamentos restauradores da ADA de 2023 recomenda condicionalmente as abordagens conservadoras de remoção de tecido cariado, sobretudo em lesão avançada, e recomenda condicionalmente todos os materiais restauradores diretos incluídos — ranqueando materiais preferenciais conforme a situação clínica, o dente e a superfície envolvida
Ou seja: a escolha do material não é o que separa sucesso de fracasso — a seleção da cavidade e a qualidade da execução pesam mais
Conduta inicial
1Definir primeiro o diagnóstico pulpar e a extensão da lesão — a escolha entre ART e restauração convencional só faz sentido depois disso.
2Selecionar a cavidade: lesão de uma face, com acesso e possibilidade de isolamento relativo adequado, é onde a evidência é mais confortável.
3Remover tecido cariado de forma seletiva, preservando dentina afetada próxima à polpa, em linha com a recomendação condicional da ADA para abordagens conservadoras.
4Usar ionômero de alta viscosidade quando a indicação for ART — a evidência de sobrevida citada é desse material, não de ionômero convencional de baixa viscosidade.
5Controlar umidade da melhor forma possível no cenário disponível, e registrar no prontuário a limitação quando ela existir.
6Combinar retorno para reavaliar a restauração, com intervalo mais curto nas cavidades proximais e de múltiplas faces.
7Registrar com o paciente ou responsável qual foi a escolha, por quê, e o que se espera em termos de durabilidade — a conversa honesta evita a leitura de que a restauração 'não deu certo'.
Exames
Exame clínico com secagem e boa iluminação para estadiar a lesão e avaliar atividade
Testes de sensibilidade pulpar e percussão, para não restaurar um dente cujo diagnóstico é outro
Radiografia interproximal quando a lesão proximal não é acessível ao exame clínico direto
Reavaliação clínica da restauração no retorno programado, com registro do que mudou
Prescrição-modelo
Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — a indicação depende do diagnóstico pulpar, do tipo de cavidade e do contexto de atendimento. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Dieta
Orientação de dieta com foco em frequência de açúcar, registrada por escrito ___
Recomendações
Escovação com dentifrício fluoretado 2x ao dia, com supervisão quando indicado ___
Evitar mastigação forte no lado tratado nas primeiras ___ horas
Retorno para reavaliação da restauração em ___ meses
Exames
Reavaliação clínica da restauração em ___ meses
Radiografia interproximal de controle em ___ meses, se indicado
Referências
[1]Survival estimates of atraumatic restorative treatment versus traditional restorative treatment: a systematic review with meta-analyses, Frencken JE, Liang S, Zhang Q, Br Dent J 2021 (doi:10.1038/s41415-021-2701-0)
[2]Comparison of ART and conventional techniques on clinical performance of glass-ionomer cement restorations in load bearing areas of permanent and primary dentitions: A systematic review, Ruengrungsom C, Palamara JEA, Burrow MF, J Dent 2018;78:1-21
[3]Evidence-based clinical practice guideline on restorative treatments for caries lesions: A report from the American Dental Association, Dhar V et al., J Am Dent Assoc 2023;154(7):551-566.e51
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.