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Resina composta ou amálgama em posterior — o que a evidência compara e o que a Convenção de Minamata decidiu

Resina em molar dura menos que amálgama? E o que responder ao paciente que pergunta se a restauração de amálgama antiga dele faz mal?

Red flags — sinais de gravidade

  • Indicar remoção de restaurações de amálgama íntegras por alegação de toxicidade não encontra respaldo na evidência revisada — e a remoção troca uma restauração que está funcionando por um procedimento com riscos próprios
  • A conversa sobre material não pode substituir a conversa sobre controle da doença: cárie secundária é reincidência da doença, não só falha de material
  • Prometer durabilidade equivalente à do amálgama em cavidade extensa de molar, com base nos dados atuais, é ir além do que a revisão sustenta
  • Resíduo de amálgama tem destinação própria como resíduo de serviço de saúde com mercúrio, e isso é obrigação normativa, não organização do consultório — a exigência específica de separador de amálgama varia conforme a norma local e precisa ser conferida
  • Restauração que falha repetidamente no mesmo dente pede reavaliação de oclusão, de risco de cárie e do próprio diagnóstico — trocar de material sozinho não resolve
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • A revisão Cochrane de 2021 comparando resina composta direta e amálgama em posteriores permanentes incluiu oito ensaios randomizados, todos julgados de alto risco de viés por falta de cegamento e por problemas de unidade de análise
  • A metanálise principal reuniu os dois ensaios de grupos paralelos: 1.645 restaurações de resina e 1.365 de amálgama em 921 crianças
  • Nesse conjunto, a resina teve quase o dobro do risco de falha em relação ao amálgama (RR 1,89; IC 95% 1,52 a 2,35) — evidência de baixa certeza
  • O risco de cárie secundária foi bem maior com resina (RR 2,14; IC 95% 1,67 a 2,74), enquanto o risco de fratura da restauração não diferiu (RR 0,87; IC 95% 0,46 a 1,64)
  • Quanto a danos: dois ensaios encontraram mercúrio urinário mais alto nas crianças com amálgama, mas em níveis abaixo do que se conhece como tóxico, e a revisão não encontrou dano consistente ou clinicamente importante — com certeza muito baixa
  • Os autores registram explicitamente que os materiais resinosos evoluíram desde os ensaios que sustentam a análise principal, o que limita a transposição direta para o produto de hoje
  • A Convenção de Minamata sobre Mercúrio entrou em vigor em agosto de 2017 e, conforme relatado na revisão, havia sido ratificada por 127 governos até fevereiro de 2021, comprometendo os signatários a adotar medidas de redução progressiva do amálgama
  • Esse quadro mudou depois da revisão: na COP-6, em Genebra, em novembro de 2025, a decisão MC-6/3 emendou o Anexo A e passou o amálgama de redução progressiva para eliminação, com prazo global em 2034 — preservada a possibilidade de uso quando o cirurgião-dentista o considerar necessário pelas necessidades do paciente, e com crianças menores de 15 anos, gestantes e lactantes como grupos em que o uso deve ser excluído ou desaconselhado, salvo essa mesma necessidade clínica. A emenda obriga cada parte a partir da entrada em vigor para ela
  • O Brasil é signatário da Convenção, e a regra sanitária nacional sobre amálgama mudou desde então — a norma vigente da Anvisa e as orientações do CFO precisam ser conferidas na fonte antes de comprar material ou de definir protocolo do serviço, porque esse é um campo em movimento

Conduta inicial

  1. 1Separar as duas decisões: controlar a doença cárie e escolher o material da restauração.
  2. 2Levar em conta que a evidência de maior falha e de mais cárie secundária com resina vem, sobretudo, de estudos em crianças, com materiais de gerações anteriores.
  3. 3Conferir o contexto regulatório vigente antes de definir o protocolo do serviço: desde a COP-6 (2025) a Convenção de Minamata prevê a eliminação do amálgama até 2034, com exceção por necessidade clínica do paciente, e a regra nacional aplicável é a que estiver em vigor na consulta à Anvisa e ao CFO.
  4. 4Diante de restauração de amálgama íntegra e assintomática, acompanhar em vez de substituir por motivo estético ou por alegação de toxicidade.
  5. 5Quando a substituição for indicada por falha real, planejar a remoção com isolamento, sucção alta e refrigeração, e destinar o resíduo corretamente.
  6. 6Registrar no prontuário o material escolhido, a razão da escolha e o que foi conversado com o paciente.
  7. 7Reforçar as medidas de controle de risco de cárie, que é o que muda o desfecho a longo prazo, independentemente do material.

Exames

  • Exame clínico das restaurações existentes, avaliando integridade marginal, fratura e lesão adjacente
  • Radiografia interproximal para avaliar cárie secundária e adaptação, quando o exame clínico não conclui
  • Avaliação de risco de cárie individual, que orienta o intervalo de retorno
  • Reavaliação programada das restaurações, com registro comparativo

Prescrição-modelo

Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — a escolha do material depende da cavidade, do risco de cárie e do contexto regulatório local. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Dieta

  • Orientação sobre frequência de ingestão de açúcar, registrada por escrito ___

Recomendações

  • Escovação com dentifrício fluoretado 2x ao dia ___
  • Higiene interdental diária na região restaurada ___
  • Retorno para reavaliação em ___ meses, conforme risco de cárie

Exames

  • Radiografia interproximal de controle em ___ meses, conforme risco

Referências

  1. [1]Direct composite resin fillings versus amalgam fillings for permanent posterior teeth, Worthington HV et al., Cochrane Database Syst Rev 2021;8(8):CD005620 (doi:10.1002/14651858.CD005620.pub3)
  2. [2]Evidence-based clinical practice guideline on restorative treatments for caries lesions: A report from the American Dental Association, Dhar V et al., J Am Dent Assoc 2023;154(7):551-566.e51
  3. [3]Awareness, Knowledge, and Attitudes of Dentists in Türkiye Regarding the 2034 Phase-Out of Dental Amalgam Under the Minamata Convention: A Cross-Sectional Study, Yıldırım AA & Ayyıldız S, Oral Health Prev Dent 2026;24:849-858, PMID 42714322 (descreve a decisão MC-6/3 da COP-6; documento primário: UNEP/MC/COP.6/25/Add.1)

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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