Mordida cruzada anterior e Classe III na criança — o que a máscara facial corrige e por quanto tempo se sabe
Criança de 8 anos com os dentes de baixo à frente dos de cima. Encaminho agora ou espero crescer? A máscara facial resolve mesmo?
Red flags — sinais de gravidade
Mordida cruzada anterior com desvio funcional ao fechar não é o mesmo que Classe III esquelética — separar as duas coisas muda o encaminhamento e o prognóstico
Trauma oclusal em incisivo cruzado pode gerar recessão gengival e desgaste, e isso corre enquanto se espera
Prometer que a interceptação evita cirurgia ortognática no futuro extrapola a evidência disponível, que não cobre o longo prazo
Histórico familiar forte de prognatismo mandibular muda a expectativa de crescimento e precisa entrar na conversa com a família desde o início
Iniciar protração em criança sem avaliação de crescimento e sem plano de acompanhamento deixa o caso sem parâmetro para decidir os próximos passos
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
A revisão sistemática com metanálise de 2017 sobre tratamento precoce da Classe III abre registrando prevalência da má oclusão entre 5% e 15% da população — número da própria publicação, que precisa ser lido com a ressalva de que a prevalência de Classe III varia muito conforme a origem populacional
Os dois grandes dilemas apontados pelos autores são o momento do tratamento e o tipo de aparelho
Foram incluídos 15 estudos — 9 ensaios randomizados e 6 ensaios clínicos controlados — em crianças de 7 a 12 anos
Dos 9 ensaios randomizados, só 3 foram julgados de baixo risco de viés; todos os 6 ensaios controlados não randomizados foram classificados como de alto risco de viés
Três ensaios randomizados, com 141 participantes, compararam máscara facial de protração com controle sem tratamento
O resultado foi estatisticamente significativo a favor da máscara facial tanto para a sobressaliência invertida (diferença média 2,5 mm; IC 95% 1,21 a 3,79) quanto para o ângulo ANB (diferença média 3,90°; IC 95% 3,54 a 4,25)
A conclusão dos autores é que há quantidade moderada de evidência de melhora esquelética e dentária no curto prazo com a máscara facial, e falta de evidência sobre benefício a longo prazo
Para mentoneira, aparelho de tração com arco em tandem e retrator mandibular removível há alguma evidência, mas vinda de estudos com alto risco de viés
Ou seja: o que está documentado é a correção no curto prazo — a estabilidade ao longo do crescimento continua sem resposta de boa qualidade
Conduta inicial
1Diferenciar, no exame, a mordida cruzada anterior com componente funcional daquela com componente esquelético.
2Avaliar e registrar o padrão facial, a sobressaliência invertida e a presença de desgaste ou recessão nos incisivos envolvidos.
3Explicar à família o que a evidência mostra no curto prazo e o que ela ainda não mostra sobre o longo prazo.
4Encaminhar ao ortodontista para decisão sobre momento e tipo de aparelho, que é onde a controvérsia está.
5Acompanhar os efeitos do trauma oclusal nos dentes cruzados enquanto o plano ortodôntico é definido.
6Registrar documentação inicial para permitir comparação ao longo do crescimento.
7Manter o controle de cárie e de saúde gengival durante todo o tratamento, que é onde o clínico geral segue responsável.
Exames
Exame clínico com medida da sobressaliência invertida e teste de guia em relação cêntrica para identificar desvio funcional
Registro do padrão facial e do perfil
Documentação ortodôntica (fotos, modelos) para comparação evolutiva
Radiografia panorâmica e telerradiografia com análise cefalométrica, conforme indicação do ortodontista
Avaliação periodontal dos incisivos inferiores em cruzamento
Prescrição-modelo
Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — a indicação e o momento do tratamento interceptativo são decisão do plano ortodôntico. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Recomendações
Higiene reforçada nos incisivos inferiores em cruzamento, com escova macia ___
Retorno para reavaliação do crescimento e da oclusão em ___ meses
Encaminhamento ao ortodontista com a documentação inicial ___
Exames
Reavaliação clínica e fotográfica em ___ meses
Documentação ortodôntica conforme solicitação do especialista
Referências
[1]Early orthodontic treatment for Class III malocclusion: A systematic review and meta-analysis, Woon SC, Thiruvenkatachari B, Am J Orthod Dentofacial Orthop 2017;151(1):28-52 (doi:10.1016/j.ajodo.2016.07.017)
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.