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Gengivite descamativa — o achado que quase nunca é gengivite por biofilme

Gengiva vermelha, descamando e dolorida, que não melhora com raspagem e higiene. O que investigar antes de insistir no tratamento periodontal?

Red flags — sinais de gravidade

  • Insistir em raspagem e instrução de higiene diante de gengiva que descama e não responde atrasa o diagnóstico de doença imunomediada
  • Sinal de Nikolsky positivo e formação de bolha em mucosa aparentemente sã apontam para doença vesicobolhosa e exigem investigação, não observação
  • Penfigoide das membranas mucosas pode acometer olhos, e comprometimento ocular não tratado pode evoluir para sequela cicatricial grave — a pergunta sobre olho vermelho, ardência e sensação de areia precisa ser feita
  • Pênfigo vulgar é doença com repercussão sistêmica: lesão oral costuma ser a primeira manifestação, e o encaminhamento é prioritário
  • Corticoide sistêmico ou qualquer imunossupressor no pênfigo e no penfigoide é condução médica, antes e depois do laudo — e iniciá-lo antes da confirmação histológica ainda prejudica a investigação. Ao cirurgião-dentista cabem o diagnóstico da lesão oral, o encaminhamento, a terapia tópica e o controle local
  • Lesão que muda de aspecto, endurece ou ulcera de forma persistente exige afastar malignidade
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Gengivite descamativa é um achado clínico com várias etiologias possíveis, não um diagnóstico em si — e é isso que muda a conduta
  • As três condições mais citadas por trás do quadro são líquen plano oral, penfigoide das membranas mucosas e pênfigo vulgar
  • A revisão de 2018 no Journal of the American Academy of Dermatology afirma que o exame histológico deve ser feito para confirmar o diagnóstico antes de iniciar terapia sistêmica
  • Essa mesma revisão discute os melhores métodos de obtenção do espécime de biópsia de mucosa e as indicações de exames adicionais, como os estudos de imunofluorescência
  • A revisão registra que a gengivite descamativa é incomum e que não existem diretrizes sistemáticas de tratamento, o que produz uma lacuna de prática no manejo
  • Por isso o tratamento é descrito por condição individual, com ênfase nos níveis de evidência de cada uma
  • A mesma publicação destaca o papel do cuidado odontológico no controle da doença e os melhores métodos para obter boa higiene bucal — o controle de placa continua sendo parte do tratamento, mesmo não sendo a causa
  • Estudo observacional recrutou 43 pacientes com suspeita de gengivite descamativa imunomediada e relatou 22 casos de líquen plano oral (51% dos 43; 11 deles, ou 26% dos 43, da variante bolhosa), 6 de penfigoide das membranas mucosas (14%) e 4 de pênfigo vulgar (9%) — os diagnósticos coincidiram entre a avaliação por tomografia de coerência óptica e a histologia; esses três grupos somam 32 dos 43 pacientes, e o destino dos 11 restantes não está descrito no resumo do estudo, então esses percentuais não devem ser lidos como a distribuição etiológica da gengivite descamativa no consultório, ainda mais numa amostra já pré-selecionada por suspeita clínica em serviço de referência

Conduta inicial

  1. 1Reconhecer o padrão: eritema, descamação e dor em gengiva inserida, com resposta pobre ao tratamento periodontal convencional.
  2. 2Fazer anamnese dirigida a lesões em outras mucosas, pele, olhos e genitália, e a medicações em uso.
  3. 3Registrar a extensão e fotografar, porque a evolução é parte do diagnóstico.
  4. 4Encaminhar para biópsia com exame histopatológico, e para estudo de imunofluorescência quando indicado, antes de qualquer terapia sistêmica.
  5. 5Manter o controle de placa com técnica suave, porque a inflamação por biofilme soma-se ao quadro e piora o sintoma.
  6. 6Encaminhar para avaliação oftalmológica quando houver suspeita de penfigoide, sem esperar o resultado da biópsia.
  7. 7Conduzir o tratamento em conjunto com estomatologia e dermatologia, conforme o diagnóstico definido.

Exames

  • Exame clínico completo de mucosas, pele e semimucosas, com pesquisa do sinal de Nikolsky
  • Biópsia de mucosa com exame histopatológico
  • Imunofluorescência direta em espécime de mucosa perilesional, conforme indicação
  • Exames sorológicos e imunofluorescência indireta, quando indicados pelo serviço de referência
  • Avaliação oftalmológica diante de suspeita de penfigoide das membranas mucosas

Prescrição-modelo

Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — terapia sistêmica não se inicia antes da confirmação histológica, e a condução é conjunta com o serviço de referência. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Dieta

  • Evitar alimentos ácidos, condimentados e muito quentes enquanto houver lesão ativa ___

Medicamentos

  • Higiene com escova extramacia e dentifrício sem agente irritante ___
  • Terapia tópica conforme diagnóstico definido e orientação do serviço de referência ___

Recomendações

  • Encaminhamento para biópsia com histopatológico e imunofluorescência ___
  • Avaliação oftalmológica se houver sintoma ocular ___
  • Controle de placa com técnica suave, mantido durante toda a investigação ___
  • Retorno para reavaliação e leitura do laudo em ___ dias

Exames

  • Biópsia com exame histopatológico
  • Imunofluorescência direta, conforme indicação

Referências

  1. [1]Desquamative gingivitis: Diagnosis and treatment, Maderal AD, Lee Salisbury P, Jorizzo JL, J Am Acad Dermatol 2018;78(5):851-861 (doi:10.1016/j.jaad.2017.04.1140)
  2. [2]Diagnostic Concordance between Optical Coherence Tomography and Histological Investigations for Immune-Mediated Desquamative Gingivitis: Observational Study, Panzarella V, Bartolone A, Coniglio R, Rodolico V, Maniscalco L, Capocasale G, Iurato Carbone M, Campisi G, Int J Environ Res Public Health 2021;18(17):9095 (doi:10.3390/ijerph18179095)

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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