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Tabagismo em periodontia — o que a cessação devolve, e o que ela não devolve

Vale insistir na conversa sobre parar de fumar antes da terapia periodontal? Quanto isso muda o resultado, em número?

Red flags — sinais de gravidade

  • Prometer o mesmo resultado de recobrimento radicular a fumante e a não fumante contraria o que a evidência mostra, e é fonte previsível de frustração e de questionamento
  • Tabagismo mascara sangramento à sondagem, e isso faz o quadro parecer melhor do que é — a leitura dos índices precisa considerar esse efeito
  • Deixar o aconselhamento de cessação de fora do plano periodontal é omitir a intervenção com maior efeito documentado sobre o risco
  • Cessação não reverte a perda de inserção já ocorrida — o que os dados mostram é redução de risco futuro e melhora de desfecho do tratamento
  • Transformar o aconselhamento em julgamento moral afasta o paciente e derruba a adesão ao tratamento inteiro
  • Lesão de mucosa em fumante exige exame completo com atenção a desordens potencialmente malignas, e não apenas o foco periodontal
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Revisão sistemática com metanálise de estudos longitudinais prospectivos observacionais e de intervenção reuniu 2.743 artigos identificados, dos quais seis entraram na metanálise
  • O risco de incidência ou progressão de periodontite entre quem parou de fumar não foi significativamente diferente do risco de quem nunca fumou (RR 0,97; IC 95% 0,87 a 1,08)
  • Fumantes tiveram cerca de 80% mais risco de periodontite que ex-fumantes (RR 1,79; IC 95% 1,36 a 2,35) e que quem nunca fumou (RR 1,82; IC 95% 1,43 a 2,31)
  • Na terapia periodontal, ex-fumantes tiveram até 0,2 mm a mais de ganho de inserção (o intervalo de confiança publicado no resumo para essa estimativa tem sinal oposto ao do ganho descrito e não é reproduzido aqui) e 0,32 mm a mais de redução de profundidade de sondagem (IC 95% 0,07 a 0,52) que os que não pararam, em seguimento curto de 12 a 24 meses
  • A conclusão dos autores é que a cessação reduziu o risco de início e de progressão da periodontite e melhorou os desfechos da terapia periodontal não cirúrgica
  • Os próprios autores registram que poucos estudos sobre o tema foram identificados — o efeito é consistente, a base é pequena
  • Na cirurgia plástica periodontal o efeito também aparece: revisão sistemática atualizada de 2024, com 12 estudos, 181 fumantes e 162 não fumantes, encontrou recobrimento radicular médio maior em não fumantes
  • As diferenças foram de 10,85% (IC 95% 1,92 a 19,77) para retalho posicionado coronariamente isolado e de 22,04 (IC 95% 14,25 a 29,83) para enxerto de tecido conjuntivo subepitelial associado ao retalho, favorecendo não fumantes
  • Ainda nessa revisão, não fumantes tratados com enxerto associado ao retalho tiveram mais sítios com recobrimento radicular completo que fumantes (razão de risco 4,12; IC 95% 1,73 a 9,80)
  • Nessa revisão, fumante foi definido como quem fumava 10 ou mais cigarros por dia no início do estudo

Conduta inicial

  1. 1Registrar o status tabágico com quantidade e tempo, porque ele entra na graduação do caso e no prognóstico.
  2. 2Incluir o aconselhamento de cessação no plano periodontal desde a primeira consulta, como parte do tratamento e não como recomendação avulsa.
  3. 3Usar números concretos na conversa: risco de periodontite comparável ao de quem nunca fumou depois da cessação é um argumento forte e verdadeiro.
  4. 4Encaminhar para programa estruturado de cessação, incluindo a rede pública, quando disponível.
  5. 5Ajustar a expectativa dos procedimentos de recobrimento radicular em fumante, com registro por escrito do que foi conversado.
  6. 6Levar em conta que o sangramento à sondagem pode estar reduzido pelo tabagismo ao interpretar a reavaliação.
  7. 7Examinar toda a mucosa em cada retorno, pelo risco associado de desordens potencialmente malignas.

Exames

  • Periograma completo, com sondagem, sangramento, recessão e nível de inserção
  • Registro do status tabágico quantificado (cigarros por dia e tempo)
  • Radiografias periapicais completas para avaliar perda óssea
  • Exame completo de mucosa oral em cada retorno
  • Reavaliação após a terapia, com comparação objetiva dos índices

Prescrição-modelo

Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — o manejo farmacológico da cessação é conduzido em serviço próprio. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Recomendações

  • Aconselhamento breve de cessação registrado em prontuário, repetido a cada retorno ___
  • Encaminhamento a programa estruturado de cessação do tabagismo ___
  • Instrução de higiene individualizada, com dispositivo interdental adequado ___
  • Reavaliação periodontal em ___ semanas após a terapia

Exames

  • Reavaliação periodontal com periograma em ___ semanas

Referências

  1. [1]Impact of Smoking Cessation on Periodontitis: A Systematic Review and Meta-analysis of Prospective Longitudinal Observational and Interventional Studies, Leite FRM, Nascimento GG, Baake S, Pedersen LD, Scheutz F, López R, Nicotine Tob Res 2019;21(12):1600-1608 (doi:10.1093/ntr/nty147)
  2. [2]The influence of tobacco smoking on the outcomes achieved by root coverage procedures: An updated systematic review, Chambrone L, Coccaro M, Montaño AJ, Lafaurie GI, J Esthet Restor Dent 2025;37(1):187-200 (doi:10.1111/jerd.13296)

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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