dente trincadosindrome do dente trincadotrinca no dentedor ao mastigardor ao soltar a mordidateste de mordidacracked toothcobertura de cuspidedentisticaodontologiaestudar
Síndrome do dente trincado — a dor que só aparece ao soltar a mordida
Paciente com dor aguda só quando morde algo duro, exame e radiografia sem nada. Como confirmar que é trinca e o que fazer antes de indicar canal?
Red flags — sinais de gravidade
Dor espontânea, noturna ou prolongada ao frio já não é o quadro de trinca com polpa saudável — é diagnóstico pulpar próprio, e a decisão muda
Trinca que chega ao assoalho da câmara ou que separa os fragmentos à sondagem tem prognóstico ruim, e insistir custa tempo e dinheiro do paciente
Bolsa periodontal isolada e profunda em um único ponto do dente, sem doença periodontal ao redor, sugere fratura radicular vertical, não trinca de esmalte
Fístula localizada em dente com trinca aponta para envolvimento pulpar ou fratura já estabelecida
Prometer sobrevida com base em número de coorte, sem dizer que a certeza da evidência é muito baixa, é o erro de comunicação mais comum aqui
Trinca em dente já tratado endodonticamente e sem cobertura de cúspide é situação de risco de fratura completa a cada mastigação
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
O relato típico é dor breve e aguda à mastigação, muitas vezes mais forte ao SOLTAR a mordida do que ao apertar — é esse detalhe que separa a trinca da pulpite comum
O teste de mordida seletiva cúspide a cúspide (com bastão ou dispositivo próprio) reproduz o sintoma e localiza o segmento envolvido
Radiografia periapical não mostra trinca no sentido mesiodistal: ausência de achado radiográfico não afasta o diagnóstico
Transiluminação e corante ajudam a visualizar o traço; remover a restauração antiga costuma ser o que revela a extensão real
O diagnóstico pulpar precisa ser feito junto: normal, reversível ou irreversível muda completamente a conduta (ver o verbete de diagnóstico pulpar e periapical)
Metanálise de 10 estudos com 711 dentes trincados com polpa normal ou pulpite reversível: sobrevida pulpar de 85% (IC95% 79–91) em 12 meses após contenção externa (splinting), com heterogeneidade alta (I²=82,6%)
Na mesma metanálise, a sobrevida foi numericamente maior sem bandagem ortodôntica intermediária (89%; IC95% 83–95) do que com ela (79%; IC95% 67–90), e maior na abordagem direta que na abordagem em etapas (89% vs 81%) — mas os intervalos se sobrepõem e são análises de subgrupo: geram hipótese, não estabelecem superioridade
Os próprios autores classificam a certeza da evidência como MUITO BAIXA e o risco de viés como moderado — o número de 85% orienta a conversa com o paciente, não fecha protocolo
Uma revisão guarda-chuva registrada no PROSPERO (CRD420250648720) foi aberta justamente porque as revisões existentes chegam a conclusões inconsistentes sobre o tratamento
Traduzindo para a cadeira: estabilizar a cúspide e reavaliar é conduta defensável; prometer que o dente está resolvido, não
Conduta inicial
1Reproduzir o sintoma com teste de mordida seletiva antes de qualquer procedimento — é o exame que localiza.
2Registrar o diagnóstico pulpar e periapical do dente por escrito, porque é ele que separa contenção de tratamento endodôntico.
3Remover a restauração suspeita para inspecionar o traço quando o teste apontar aquele dente, avisando o paciente de que a extensão só se conhece por dentro.
4Estabilizar a cúspide envolvida (contenção provisória ou restauração com cobertura de cúspide) e retirar o contato prematuro em excursão.
5Combinar reavaliação com prazo definido e critério claro do que é piora.
6Explicar em voz alta a incerteza: o dente pode estabilizar, pode precisar de canal depois, e pode fraturar.
7Registrar tudo no prontuário — inclusive o que foi dito ao paciente sobre prognóstico.
Exames
Teste de mordida seletiva cúspide a cúspide
Testes de sensibilidade pulpar (frio) e percussão, com dente contralateral como referência
Transiluminação e/ou corante evidenciador do traço
Radiografia periapical (para afastar outras causas, não para ver a trinca)
Inspeção direta após remoção da restauração antiga
Prescrição-modelo
Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — a conduta depende do diagnóstico pulpar e da extensão real da trinca. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Dieta
Evitar mastigar alimentos duros do lado afetado até a reavaliação ___
Medicamentos
Analgesia conforme avaliação individual, fármaco, dose e intervalo a definir ___ (conferir alergia, gestação, comorbidade e interações)
Recomendações
Orientação de que a extensão da trinca só se conhece após remover a restauração ___
Prognóstico conversado e registrado, incluindo a possibilidade de tratamento endodôntico ou perda do dente ___
Ajuste oclusal e alívio do contato em excursão ___
Retorno para reavaliação em ___ dias/semanas
Exames
Reavaliação clínica com teste de mordida em ___ semanas
Reteste de sensibilidade pulpar na reavaliação ___
Referências
[1]Pulp Survival of Cracked Teeth with Normal Pulp or Reversible Pulpitis After External Splinting: A Systematic Review and Meta Analysis, Fiyaz Ghan AS, Krishnan A, Sharma S, Tewari N, Kumar V, Chawla A, Pandey S, Logani A, J Endod 2025;51(11):1526-1535.e11 (doi:10.1016/j.joen.2025.07.005)
[2]Saving the split: protocol for an umbrella review on therapeutic approaches for cracked tooth syndrome, Kaur S, Puzhankara L, Shenoy N, Kini KS, Singhal DK, Syst Rev 2026;15(1):41 (doi:10.1186/s13643-025-03048-y)
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.