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Coroa de aço e técnica de Hall no molar decíduo — menos falha e menos desconforto que a restauração

Molar decíduo com cárie extensa em criança pequena: restauro em resina ou coloco coroa de aço? A técnica de Hall, sem anestesia e sem broca, é aceitável?

Red flags — sinais de gravidade

  • Sinal ou sintoma de comprometimento pulpar irreversível ou lesão periapical não é caso de Hall — a técnica sela a lesão, não trata polpa
  • Ausência de espaço para a coroa assentar, mobilidade próxima da esfoliação ou destruição que não permita retenção mudam a indicação
  • A criança e o responsável precisam saber que a coroa fica visível e metálica — combinar isso antes evita conflito depois
  • Selar lesão sem diagnóstico pulpar registrado é o erro que transforma facilidade em retrabalho
  • Colocar coroa e não organizar o controle de risco de cárie deixa a doença ativa nos outros dentes
  • Criança com dor espontânea ou abscesso precisa de conduta de urgência, não de coroa no mesmo momento
  • Provar a coroa com a criança deitada e sem barreira de gaze é o descuido que transforma um procedimento sem broca em emergência de corpo estranho — a coroa é provada solta
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Revisão Cochrane com 5 ensaios randomizados: coroas em molares decíduos reduziram o risco de falha maior a longo prazo comparadas a restaurações (RR 0,18; IC95% 0,06–0,56; 346 dentes em três estudos, um com técnica convencional e dois com técnica de Hall; evidência de qualidade moderada)
  • Na mesma revisão, o risco de dor a longo prazo também foi menor com coroa (RR 0,15; IC95% 0,04–0,67; 312 dentes; qualidade moderada)
  • O desconforto DURANTE o procedimento foi menor com coroa pela técnica de Hall do que com restauração (RR 0,56; IC95% 0,36–0,87; 381 dentes; qualidade moderada) — a criança sofre menos na cadeira
  • A técnica de Hall assenta a coroa metálica pré-fabricada sobre o dente sem anestesia, sem remoção de tecido cariado e sem preparo
  • A revisão não encontrou nenhum ensaio randomizado comparando a técnica de Hall com a técnica convencional de coroa — ou seja, não há evidência randomizada de que uma seja melhor que a outra
  • Sangramento gengival: a diferença entre coroa e restauração ficou incerta, tanto a curto quanto a longo prazo (evidência de baixa qualidade)
  • Ensaio clínico randomizado multicêntrico brasileiro (17 cidades, 364 dentes, 4 a 9 anos) em lesões cavitadas com mais de duas superfícies: sobrevida em 12 meses de 87,8% com Hall contra 75,7% com resina composta (p=0,004)
  • Esse ensaio responde justamente ao caso mais difícil do consultório — cavidade multissuperfície em criança pequena, onde a resina falha mais
  • Comparação com tratamento não restaurador da cárie e comparação entre coroa metálica e coroa estética tiveram evidência de qualidade muito baixa — não dá para concluir
  • Contrapeso que precisa entrar na conversa: o ensaio randomizado FiCTION, em consultórios de atenção primária na Inglaterra, Escócia e País de Gales, randomizou 1.144 crianças com cárie em dentina em molar decíduo para três estratégias — convencional com prevenção, biológica com prevenção, ou prevenção isolada
  • Na análise de custo-efetividade desse ensaio (1.058 crianças, até 36 meses), a estratégia convencional com prevenção foi mais cara e MENOS efetiva que a biológica com prevenção; entre biológica e prevenção isolada, as diferenças de incidência e de episódios de dor/infecção tiveram intervalos que cruzam o zero
  • Ou seja: coroa/Hall tem vantagem medida sobre a restauração convencional em falha e desconforto, mas o benefício de restaurar (de qualquer forma) sobre prevenir bem não é um dado fechado — vale dizer isso ao responsável

Conduta inicial

  1. 1Fazer diagnóstico pulpar e conferir a radiografia interproximal antes de escolher a técnica.
  2. 2Proteger a via aérea ANTES de provar a coroa: criança sentada ereta na cadeira, sem reclinar mais que 45°, com gaze para reter objeto solto (ou aplicador adesivo preso à coroa) mantida durante todo o procedimento, da prova até a cimentação satisfatória — a coroa é provada solta, e ingestão ou aspiração é o evento adverso da técnica.
  3. 3Selecionar o tamanho da coroa e conferir o assentamento e a oclusão.
  4. 4Explicar ao responsável, em linguagem simples, o que a evidência mostra sobre falha, dor e desconforto — e o aspecto metálico.
  5. 5Registrar o consentimento e a técnica escolhida no prontuário.
  6. 6Combinar o controle de risco de cárie da criança junto com o procedimento, não depois.
  7. 7Programar reavaliação clínica com prazo definido.
  8. 8Encaminhar quando houver sinal de comprometimento pulpar ou impossibilidade de manejo comportamental.

Exames

  • Exame clínico com diagnóstico pulpar do dente
  • Radiografia interproximal e/ou periapical conforme o caso e a colaboração da criança
  • Avaliação de risco de cárie individual
  • Conferência de oclusão após assentamento
  • Reavaliação clínica programada

Prescrição-modelo

Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — indicação, técnica e material dependem do caso e da idade da criança. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Dieta

  • Orientação alimentar de controle de cárie com o responsável ___

Medicamentos

  • Analgesia se necessária, conforme peso e idade, dose e intervalo a definir ___

Recomendações

  • Explicação ao responsável sobre aspecto metálico e sobre a evidência de falha e desconforto ___
  • Registro do diagnóstico pulpar antes do selamento ___
  • Escovação supervisionada com dentifrício fluoretado conforme idade ___
  • Retorno para reavaliação em ___ meses

Exames

  • Reavaliação clínica da coroa e da oclusão em ___ meses
  • Radiografia de controle conforme risco e colaboração ___

Referências

  1. [1]Preformed crowns for decayed primary molar teeth, Innes NPT, Ricketts D, Chong LY, Keightley AJ, Lamont T, Santamaria RM, Cochrane Database Syst Rev 2015;2015(12):CD005512 (doi:10.1002/14651858.CD005512.pub3)
  2. [2]Survival rate of the Hall technique compared with resin composite restoration in multi-surface cavities in primary teeth: a 1-year randomized clinical trial, Pascareli-Carlos AM, Tedesco TK, Calvo AFB, Floriano I, Gimenez T, Gonçalves MS, Calumby D, Imparato JCP, J Appl Oral Sci 2023;31:e20230048 (doi:10.1590/1678-7757-2023-0048)
  3. [3]Cost-effectiveness of child caries management: a randomised controlled trial (FiCTION trial), Homer T, Maguire A, Douglas GVA, Innes NP, Clarkson JE, Wilson N, Ryan V, McColl E, Robertson M, Vale L, BMC Oral Health 2020;20(1):45 (doi:10.1186/s12903-020-1020-1)
  4. [4]Safety first! An audit to improve airway protection during student placement of preformed metal crowns, Stevenson D, Waterhouse P, Rogers HJ, Br Dent J 2025;239(3):204-208 (doi:10.1038/s41415-025-8493-x), PMID 40781430 — reproduz as precauções do manual da técnica de Hall (Innes N & Evans D, The Hall Technique: A Users Manual, 4ª ed., Universidade de Dundee, 2015)

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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