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Reabilitar o desgaste dentário severo — resina direta contra cerâmica infiltrada (PICN), e o teste de DVO com placa que não mudou o desfecho

Paciente adulto com dentes muito desgastados quer reabilitar. Resina direta ou restauração indireta em PICN? Preciso testar a nova dimensão vertical com placa antes?

Red flags — sinais de gravidade

  • Causa do desgaste não identificada (refluxo, dieta ácida, distúrbio alimentar, bruxismo) — reabilitar sem isso é tratar o efeito
  • Suspeita de transtorno alimentar ou de refluxo não investigado exige encaminhamento médico, não só reabilitação
  • Sintomas de dor ou disfunção temporomandibular antes de aumentar a DVO precisam de avaliação própria
  • Reabilitar sem resolver higiene é investir contra o próprio resultado — a higiene aparece como fator associado a falha no ensaio piloto, mas a recomendação não depende dele: controle de biofilme é pré-requisito de qualquer reabilitação extensa
  • Prometer longevidade com base num estudo piloto de 15 pacientes é ultrapassar a evidência
  • Desgaste severo com necessidade de tratamento endodôntico ou com dentes irrecuperáveis muda o plano inteiro, e isso se decide antes de começar
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Antes de reabilitar, o desgaste precisa estar diagnosticado e a causa controlada — reabilitar sobre causa ativa é refazer trabalho (ver o verbete de desgaste erosivo e índice BEWE)
  • Ensaio randomizado piloto com 15 pacientes (mediana de 54 anos) e 173 restaurações em desgaste severo comparou resina composta direta com restauração indireta em rede cerâmica infiltrada por polímero (PICN)
  • As indiretas em PICN tiveram sobrevida INFERIOR: taxa média anual de falha de 8,7% contra 2,3% das diretas (p=0,008) em até 4 anos
  • Restaurações em região posterior falharam mais (p=0,016); a falha se associou a idade ≥50 anos, sexo masculino, escovação ≤1x/dia e ausência de higiene interdental
  • A qualidade de vida relacionada à saúde bucal melhorou após o tratamento nos dois grupos — o desfecho que o paciente sente foi favorável
  • É um estudo PILOTO com 15 pacientes: o achado é sugestivo e não fecha a escolha de material para todos os casos — e o comparador foi PICN especificamente, não 'indireta' em geral: dissilicato e zircônia têm dados próprios que este ensaio não avaliou
  • O ensaio relata p-valores sem intervalo de confiança para a diferença de taxa de falha; com 15 pacientes, a imprecisão em torno de 8,7% vs 2,3% é grande, e o número não deve ser lido como estimativa firme
  • Sobre testar a nova dimensão vertical: ensaio randomizado com 42 pacientes com desgaste moderado a severo comparou fase de teste com aparelho removível contra nenhuma fase de teste, antes de restaurar tudo em resina com DVO aumentada
  • Não houve efeito significativo do teste sobre a qualidade de vida (OHIP; p=0,14) nem sobre intervenções precoces nas restaurações (p=0,94); a redução do espaço funcional livre foi menor no grupo com aparelho aos 12 meses (p=0,01)
  • A conclusão dos autores é direta: o aparelho removível não está indicado para testar funcionalmente o aumento de DVO antes do tratamento restaurador nesses pacientes
  • Traduzindo: a etapa de teste com placa, que consome tempo e dinheiro do paciente, não mostrou o benefício que a prática assume que ela tem

Conduta inicial

  1. 1Diagnosticar e registrar a causa do desgaste e o grau, com índice e fotografias.
  2. 2Controlar a causa antes de reabilitar, envolvendo o médico quando houver suspeita de refluxo ou transtorno alimentar.
  3. 3Definir com o paciente o objetivo do tratamento: função, sensibilidade, estética — e o que cada um custa.
  4. 4Planejar a reabilitação sabendo que, nesse ensaio, as restaurações diretas em resina tiveram menor taxa de falha que as indiretas em PICN.
  5. 5Discutir criticamente a necessidade de fase de teste com aparelho removível, à luz do ensaio que não encontrou benefício.
  6. 6Organizar higiene e controle antes e durante — a falha se associou a escovação e higiene interdental insuficientes.
  7. 7Programar manutenção com prazo definido, porque reparo faz parte do tratamento, não é fracasso dele.

Exames

  • Registro fotográfico e índice de desgaste (BEWE ou equivalente) na avaliação inicial
  • Modelos de estudo e registro oclusal
  • Avaliação de sinais e sintomas de disfunção temporomandibular antes de alterar a DVO
  • Investigação da causa: anamnese dietética, sintomas de refluxo, hábitos parafuncionais
  • Reavaliação periódica com registro de reparo e substituição

Prescrição-modelo

Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — material, técnica e necessidade de aumento de DVO dependem do caso e do planejamento. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Dieta

  • Orientação de redução de exposição ácida conforme a causa identificada ___

Medicamentos

  • Manejo da sensibilidade conforme avaliação individual, produto e frequência a definir ___

Recomendações

  • Causa do desgaste identificada e registrada ___
  • Tratamento de refluxo, quando indicado, encaminhado ao médico assistente ___
  • Higiene bucal e interdental orientada e verificada antes de reabilitar ___
  • Plano de manutenção com previsão de reparo combinado com o paciente ___
  • Retorno para controle em ___ meses

Exames

  • Reavaliação clínica e fotográfica em ___ meses
  • Reavaliação do controle da causa junto ao médico assistente, quando aplicável ___

Referências

  1. [1]Randomized clinical trial on the performance of direct and indirect restorations in adults with severe tooth wear: a pilot study, Kanaan M, Brabant A, Eckert GJ, Hara AT, Carvalho JC, J Dent 2026;165:106268 (doi:10.1016/j.jdent.2025.106268, epub 2025)
  2. [2]Randomised controlled trial on testing an increased vertical dimension of occlusion prior to restorative treatment of tooth wear, Crins LAMJ, Opdam NJM, Kreulen CM, Bronkhorst EM, Huysmans MDNJM, Loomans BAC, J Oral Rehabil 2023;50(4):267-275 (doi:10.1111/joor.13408)

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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