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Herpes-zóster do trigêmeo — a dor de dente que aparece dias antes das lesões

Paciente com dor forte em hemiface e queixa de 'dor de dente', sem achado dentário que explique. Quando pensar em herpes-zóster e o que fazer?

Red flags — sinais de gravidade

  • Realizar tratamento endodôntico ou exodontia em dente hígido por dor prodrômica de zóster é um dano evitável frequentemente relatado nessa condição
  • Envolvimento do ramo oftálmico (V1), com lesão na ponta do nariz ou queixa ocular, é emergência oftalmológica
  • Paralisia facial com vesículas no conduto auditivo (síndrome de Ramsay Hunt) exige avaliação médica imediata
  • Paciente imunossuprimido, oncológico ou com HIV tem risco de doença disseminada — avaliação médica com prioridade
  • O antiviral precoce encurta o curso da infecção e reduz a GRAVIDADE da neuralgia pós-herpética; o que ele não faz, segundo revisão Cochrane, é reduzir a INCIDÊNCIA dela — prometer prevenção de neuralgia ao paciente é impreciso
  • Dor persistente após a resolução das lesões é neuralgia pós-herpética, não falha odontológica: encaminhar em vez de reintervir na boca
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Herpes-zóster é infecção neurocutânea aguda e dolorosa causada pela reativação do vírus varicela-zóster latente em gânglio de raiz dorsal ou de nervo craniano
  • A evolução se dá em três fases: pródromo, fase aguda e fase crônica
  • Na fase PRODRÔMICA, a reativação no ramo maxilar do trigêmeo imita de perto a odontalgia — e é por isso que o zóster precisa entrar no diagnóstico diferencial da dor de dente
  • As lesões dolorosas seguem o dermátomo acometido, o que dá o padrão unilateral que não cruza a linha média
  • O diagnóstico é CLÍNICO na maioria dos casos, pelo padrão de lesões no dermátomo; a confirmação laboratorial (PCR para DNA de VZV em raspado de vesícula) fica para o caso atípico ou duvidoso e NÃO deve atrasar o antiviral, que tem janela de até 72 horas do exantema
  • Detecção e tratamento precoces encurtam o curso da infecção e diminuem a gravidade da neuralgia pós-herpética associada
  • O que a evidência NÃO sustenta é prevenção da neuralgia: revisão Cochrane de 6 ensaios randomizados (1.211 participantes no total, cinco de aciclovir e um de famciclovir), com antiviral iniciado em até 72 horas do início do exantema, encontrou evidência de ALTA qualidade de que o aciclovir oral não reduz significativamente a incidência de neuralgia pós-herpética (RR 0,75; IC95% 0,51–1,11 aos quatro meses, 3 ensaios/609 participantes; RR 1,05; IC95% 0,87–1,27 aos seis meses, 2 ensaios/476 participantes)
  • A janela de até 72 horas do início do exantema é a que os ensaios dessa revisão usaram para iniciar o antiviral — é o que dá urgência ao encaminhamento feito no consultório odontológico
  • A neuralgia pós-herpética trigeminal é descrita como uma das localizações mais comuns e mais complexas de neuralgia pós-herpética, com características clínicas e fisiopatológicas próprias
  • As terapias descritas para a neuralgia pós-herpética trigeminal incluem vacinas, medicações orais e tópicas e abordagens intervencionistas como bloqueio de nervo e neuroestimulação — todas de manejo médico
  • O papel do cirurgião-dentista é reconhecer cedo, não tratar o antiviral por conta própria nem, pior, tratar endodonticamente um dente saudável

Conduta inicial

  1. 1Diante de dor em hemiface sem achado dentário que a explique, incluir zóster no diferencial antes de intervir em qualquer dente.
  2. 2Examinar pele e mucosa procurando distribuição unilateral por dermátomo, inclusive intraoral.
  3. 3Registrar o diagnóstico pulpar e periapical dos dentes da região, com testes — é o que sustenta a decisão de não intervir.
  4. 4Encaminhar ao médico com prioridade para confirmação e início de antiviral.
  5. 5Orientar controle de dor conforme avaliação, sem substituir a conduta médica.
  6. 6Manter higiene bucal possível e conforto com medidas locais quando houver lesão intraoral.
  7. 7Acompanhar e reencaminhar se a dor persistir após as lesões cicatrizarem.

Exames

  • Testes de sensibilidade pulpar e percussão dos dentes da região, com registro
  • Radiografia periapical da região dolorosa para afastar causa dentária
  • Inspeção de pele e mucosa em busca de distribuição unilateral por dermátomo
  • Confirmação laboratorial, quando indicada e solicitada pelo médico
  • Reavaliação após o quadro agudo, atenta a dor persistente

Prescrição-modelo

Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — antiviral e manejo da neuralgia pós-herpética são conduta médica. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Dieta

  • Alimentos em temperatura amena e consistência confortável enquanto houver lesão intraoral ___

Medicamentos

  • Terapia antiviral sistêmica — prescrição e escolha pelo médico assistente ___
  • Analgesia conforme avaliação individual, dose e intervalo a definir ___
  • Medidas locais de conforto em lesão intraoral, conforme avaliação ___

Recomendações

  • Encaminhamento médico com prioridade registrado em ___
  • Registro no prontuário do diagnóstico pulpar dos dentes da região e da decisão de não intervir ___
  • Orientação de retorno se a dor persistir após a cicatrização das lesões ___

Exames

  • Reavaliação clínica em ___ dias
  • Exames complementares conforme solicitação médica ___

Referências

  1. [1]A Patient with Herpes Zoster of the Maxillary Division of Trigeminal Nerve Presents for Oral Evaluation and Toothache, Kim IH, Mupparapu A, Yablonski JN, Mupparapu M, Dent Clin North Am 2023;67(4):687-690 (doi:10.1016/j.cden.2023.05.022)
  2. [2]Trigeminal Postherpetic Neuralgia: From Pathophysiology to Treatment, Niemeyer CS, Harlander-Locke M, Bubak AN, Rzasa-Lynn R, Birlea M, Curr Pain Headache Rep 2024;28(4):295-306 (doi:10.1007/s11916-023-01209-z)
  3. [3]Antiviral treatment for preventing postherpetic neuralgia, Chen N, Li Q, Yang J, Zhou M, Zhou D, He L, Cochrane Database Syst Rev 2014;2014(2):CD006866 (doi:10.1002/14651858.CD006866.pub3)

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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