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Sífilis com manifestação oral — a grande imitadora voltou, e a boca costuma ser onde ela aparece

Úlcera ou placa esbranquiçada na boca que não fecha, em paciente jovem. Quando pensar em sífilis e o que solicitar?

Red flags — sinais de gravidade

  • Lesão oral que não cicatriza no prazo esperado é sempre indicação de investigação — a regra vale para sífilis, para câncer de boca e para o que mais estiver no diferencial
  • Descartar sífilis pela aparência é o erro que a própria literatura chama de 'grande imitadora' — o diagnóstico é laboratorial e histopatológico, não visual
  • Paciente com sífilis diagnosticada precisa de investigação de outras IST e de manejo de parcerias sexuais, o que é conduta médica
  • Sífilis em gestante é situação de risco fetal e exige encaminhamento e tratamento sem atraso
  • Repetir o esquema de penicilina de uma série estrangeira em vez de seguir o PCDT brasileiro é errar a dose no cenário mais provável — manifestação oral costuma ser fase secundária, e o esquema da sífilis recente não é o mesmo da tardia
  • Diagnóstico de sífilis em adolescente sem considerar violência sexual deixa passar o que mais importa proteger
  • Adiar biópsia porque 'parece afta' em lesão persistente é o caminho conhecido para diagnóstico tardio
  • Lesão oral com suspeita de malignidade não se resolve com curso de antibiótico empírico à espera de melhora
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Sífilis é infecção sexualmente transmissível causada pelo Treponema pallidum, e casos de sífilis primária e secundária vêm aumentando: nos Estados Unidos, alta de 14,4% de 2017 para 2018 e de 71% entre 2014 e 2018
  • Fazendo jus ao apelido de 'a grande imitadora', as manifestações orais da sífilis imitam processos infecciosos, neoplásicos e imunomediados, tanto clínica quanto histopatologicamente
  • Esse espectro amplo de apresentações cria dificuldade diagnóstica real e leva a atraso no diagnóstico ou a diagnóstico errado
  • Série de 19 casos novos de sífilis oral (17 homens, 1 mulher, 1 sem sexo informado) reunidos em cinco centros; todos mostraram inflamação linfoplasmocitária densa, frequentemente com exocitose inflamatória ou ulceração na superfície e inflamação perivascular
  • Apresentações orais descritas em série de quatro casos diagnosticados por profissionais de saúde bucal: ulcerações múltiplas e placas em palato duro, úvula e região retromolar; nódulos papilares em língua; lesão exofítica solitária em língua anterior; massas exofíticas sésseis por toda a cavidade oral; lesão verrucosa em papila incisiva com placas coalescentes em palato mole, úvula e região tonsilar
  • Nessa série, todos os pacientes foram manejados com biópsia e investigação sorológica
  • O tratamento nessa série sul-africana foi conduzido em serviços de infectologia com penicilina G benzatina intramuscular, 2,4 milhões de unidades, semanal — NÃO transportar esse esquema para o Brasil: quem define o esquema aqui é o PCDT de IST do Ministério da Saúde, e ele difere conforme a sífilis seja recente ou tardia/de duração ignorada
  • Um detalhe extraoral que o dentista pode procurar no mesmo exame: um dos casos dessa série tinha máculas pigmentadas em palmas das mãos e plantas dos pés — o acometimento palmoplantar é achado clássico da fase secundária
  • Dos quatro pacientes dessa série, dois eram adolescentes (17 e 14 anos) e um tinha 18: sífilis em adolescente levanta a hipótese de violência sexual e aciona os deveres de proteção previstos no ECA, que alcança quem tem entre doze e dezoito anos — além do encaminhamento clínico em qualquer idade
  • Sífilis adquirida é de notificação compulsória no Brasil, e o cirurgião-dentista que diagnostica é sujeito desse dever — o PCDT de IST traz o resumo da notificação de casos
  • Os autores são explícitos: profissionais de saúde bucal precisam conhecer as manifestações orais da sífilis para que os pacientes sejam identificados corretamente e tratados de forma adequada
  • Reconhecimento precoce das características clínicas e histopatológicas é apontado como imperativo para diagnóstico rápido, melhor desfecho e prevenção da doença, que os autores descrevem como potencialmente fatal
  • Para o cirurgião-dentista, a conduta é: suspeitar, biopsiar quando indicado, solicitar/encaminhar para sorologia e encaminhar o tratamento — não iniciar antibioticoterapia de IST por conta própria

Conduta inicial

  1. 1Registrar a lesão com descrição objetiva, tempo de evolução e fotografia.
  2. 2Incluir sífilis no diferencial de úlcera, placa, lesão papilar ou massa que não cicatriza, sobretudo em adulto jovem.
  3. 3Fazer anamnese com sensibilidade e sem julgamento, explicando por que a pergunta é clínica.
  4. 4Indicar biópsia quando a lesão persistir ou a suspeita exigir, conforme o caso.
  5. 5Encaminhar para investigação sorológica e para o serviço que conduz o tratamento das IST.
  6. 6Manter sigilo e registrar a conduta, inclusive o encaminhamento.
  7. 7Cumprir a notificação compulsória, conforme o fluxo do serviço.
  8. 8Diante de adolescente, acionar também os deveres de proteção e a rede de cuidado, sem transformar isso em confronto com o paciente.
  9. 9Reavaliar a lesão após o tratamento médico instituído.

Exames

  • Descrição e documentação fotográfica da lesão
  • Biópsia incisional com exame histopatológico quando indicada
  • Sorologia para sífilis (testes treponêmicos e não treponêmicos), conforme protocolo do serviço
  • Investigação de outras IST, conduzida pelo serviço médico
  • Reavaliação clínica da lesão após tratamento

Prescrição-modelo

Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — o tratamento da sífilis é conduzido em serviço médico, conforme protocolo vigente. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Medicamentos

  • Tratamento específico da sífilis conforme protocolo do serviço médico — prescrição médica ___
  • Analgesia e medidas locais de conforto conforme avaliação individual ___

Recomendações

  • Encaminhamento para investigação sorológica e manejo médico registrado em ___
  • Documentação da lesão (descrição e foto) anexada ao prontuário ___
  • Orientação ao paciente sobre a importância de concluir o tratamento e avaliar parcerias, feita pelo serviço médico ___
  • Retorno para reavaliação da lesão em ___ semanas

Exames

  • Resultado do histopatológico em ___
  • Resultado das sorologias em ___
  • Reavaliação clínica da lesão em ___ semanas

Referências

  1. [1]Oral Manifestations of Syphilis: a Review of the Clinical and Histopathologic Characteristics of a Reemerging Entity with Report of 19 New Cases, Smith MH, Vargo RJ, Bilodeau EA, Anderson KM, Trzcinska A, Canterbury CR, Fantasia JE, Rawal YB, Head Neck Pathol 2021;15(3):787-795 (doi:10.1007/s12105-020-01283-4)
  2. [2]Oral Manifestations of Syphilis: Report of Four Cases, Mulder van Staden S, de Villiers C, Alwan J, Moloi M, Mahlangu S, Pathogens 2022;11(6):612 (doi:10.3390/pathogens11060612)
  3. [3]Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis, Brasília: Ministério da Saúde, 2022, 211 p. (ISBN 978-65-5993-276-4; https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/pcdts/2022/ist/pcdt-ist-2022_isbn-1.pdf) — tratamento da sífilis recente e tardia na seção 5.6.2 e notificação no capítulo 18, Vigilância Epidemiológica

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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