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Paracoccidioidomicose — a micose endêmica brasileira que costuma ser vista primeiro pelo dentista

Lesão ulcerada de fundo granular na mucosa oral de homem que trabalha na roça, com rouquidão e emagrecimento. O que investigar?

Red flags — sinais de gravidade

  • Lesão oral ulcerada crônica em paciente com história rural, tabagismo, emagrecimento e rouquidão exige investigação — o diferencial inclui carcinoma de células escamosas
  • Tratar como afta ou como lesão traumática e reavaliar 'daqui a uns meses' atrasa diagnóstico de doença com sequela conhecida
  • Comprometimento pulmonar, adenomegalia cervical volumosa e disfagia indicam doença sistêmica ativa e avaliação médica com prioridade
  • Paciente imunossuprimido pode ter apresentação mais grave e evolução mais rápida
  • Suspender o tratamento antifúngico ao primeiro sinal de melhora é caminho conhecido para recidiva — o seguimento é longo e é médico
  • Sequela fibrótica (pulmonar, laríngea ou de mucosa) é consequência documentada do diagnóstico tardio
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Paracoccidioidomicose é doença fúngica sistêmica que ocorre na América Latina, associada a ambiente rural e a atividades agrícolas
  • As diretrizes brasileiras de 2017 registram que incidência e prevalência são subestimadas justamente por não haver notificação compulsória — e o quadro nacional não mudou de forma clara: a Portaria GM/MS nº 264/2020 anunciou no Art. 1º a inclusão da paracoccidioidomicose na lista nacional, mas a doença não consta do anexo dessa portaria nem da lista na redação dada pela Portaria GM/MS nº 10.175/2026, e a página do Ministério da Saúde informa que as micoses sistêmicas não integram a lista nacional, salvo nos estados que instituíram a notificação por conta própria — conferir a regra vigente no seu estado
  • Se não for diagnosticada e tratada precoce e adequadamente, a infecção fúngica endêmica pode deixar sequelas graves — esse é o argumento clínico para pensar nela cedo
  • Além do complexo Paracoccidioides brasiliensis, a espécie Paracoccidioides lutzii foi descrita em Rondônia, onde a doença atingiu níveis epidêmicos, e também no Centro-Oeste e no Pará
  • As diretrizes brasileiras apontam como desafios persistentes a acurácia do diagnóstico e a disponibilidade de antígenos reativos com o soro dos pacientes
  • O documento cobre diagnóstico clínico, microbiológico e sorológico e o manejo das formas clínicas e das sequelas, inclusive em pacientes com comorbidades e imunossupressão
  • O consenso trata também de tratamento ambulatorial, formas graves, populações especiais e cenários com poucos recursos, além de prevenção e controle
  • Para o cirurgião-dentista, o ponto prático é o encaminhamento: a lesão oral pode ser a primeira manifestação percebida, e o tratamento é sistêmico e médico
  • História ocupacional e procedência entram no raciocínio diagnóstico com o mesmo peso do aspecto da lesão

Conduta inicial

  1. 1Fazer anamnese com procedência, história ocupacional (especialmente atividade rural atual ou passada) e tabagismo.
  2. 2Descrever e documentar a lesão, com tempo de evolução e sintomas associados — o aspecto classicamente descrito é o de estomatite moriforme, úlcera de fundo granular com pontilhado hemorrágico.
  3. 3Indicar biópsia com pesquisa micológica conforme o caso e o protocolo do serviço.
  4. 4Encaminhar ao serviço médico para diagnóstico completo e tratamento sistêmico.
  5. 5Investigar e registrar sinais sistêmicos: tosse, dispneia, rouquidão, emagrecimento, adenomegalia.
  6. 6Manter adequação bucal e conforto durante o tratamento médico.
  7. 7Acompanhar a lesão e comunicar ao serviço médico se não houver resposta.

Exames

  • Documentação clínica e fotográfica da lesão
  • Biópsia com exame histopatológico e pesquisa micológica, conforme protocolo
  • Exames micológicos e sorológicos solicitados pelo serviço médico
  • Avaliação de acometimento pulmonar e de outros sítios, conduzida pelo médico
  • Reavaliação clínica da lesão durante e após o tratamento

Prescrição-modelo

Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — o tratamento antifúngico sistêmico e seu seguimento são conduta médica. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Dieta

  • Adequação de consistência e temperatura enquanto houver lesão dolorosa ___

Medicamentos

  • Tratamento antifúngico sistêmico conforme prescrição e seguimento médicos ___
  • Analgesia e medidas locais de conforto conforme avaliação individual ___

Recomendações

  • História ocupacional e procedência registradas no prontuário ___
  • Encaminhamento médico realizado em ___
  • Adequação bucal e controle de biofilme durante o tratamento ___
  • Retorno para reavaliação da lesão em ___ semanas

Exames

  • Resultado do histopatológico e da pesquisa micológica em ___
  • Reavaliação clínica da lesão em ___ semanas

Referências

  1. [1]Brazilian guidelines for the clinical management of paracoccidioidomycosis, Shikanai-Yasuda MA, Mendes RP, Colombo AL, Queiroz-Telles F, Kono ASG, Paniago AMM, Nathan A, Valle ACFD, Bagagli E, Benard G, Ferreira MS, Teixeira MM, Silva-Vergara ML, Pereira RM, Cavalcante RS, Hahn R, Durlacher RR, Khoury Z, Camargo ZP, Moretti ML, Martinez R, Rev Soc Bras Med Trop 2017;50(5):715-740 (doi:10.1590/0037-8682-0230-2017) — há DUAS erratas publicadas, em Rev Soc Bras Med Trop 2017;50(5):744 (doi:10.1590/0037-8682-0383-2017) e 2017;50(6):879-880 (doi:10.1590/0037-8682-0470-2017), conferir as duas antes de citar valores
  2. [2]Portaria nº 264, de 17 de fevereiro de 2020, Ministério da Saúde/Gabinete do Ministro — altera a Portaria de Consolidação nº 4/GM/MS/2017 (Art. 1º: inclusão da doença de Chagas crônica, criptococose, esporotricose humana e paracoccidioidomicose na Lista Nacional de Notificação Compulsória) (https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2020/prt0264_19_02_2020.html)
  3. [3]Portaria GM/MS nº 10.175, de 23 de janeiro de 2026, Ministério da Saúde — dá nova redação ao Anexo 1 do Anexo V da Portaria de Consolidação GM/MS nº 4/2017, Lista Nacional de Notificação Compulsória (https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2026/prt10175_26_01_2026.html)
  4. [4]Paracoccidioidomicose (PCM) — Situação epidemiológica, Ministério da Saúde, gov.br (https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/p/pcm/situacao-epidemiologica), acesso em 2026-10-10

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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