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Doença mão-pé-boca e herpangina — a estomatite viral da criança que não é herpes
Criança pequena com febre e várias feridinhas na boca, algumas bolhas nas mãos e nos pés. É herpes ou é outra coisa? O que muda na conduta?
Red flags — sinais de gravidade
Sinal neurológico (sonolência, irritabilidade importante, tremor, ataxia, convulsão) é indicação de avaliação médica de urgência
Sinal cardiopulmonar (taquipneia, dificuldade respiratória, palidez, sudorese) é emergência
Recusa completa de líquidos, diurese reduzida, boca seca e olhos fundos indicam desidratação e avaliação médica
Febre alta persistente por mais dias que o esperado ou piora após melhora inicial pede reavaliação médica
Prescrever antiviral para quadro viral por enterovírus é tratamento sem indicação — o manejo é de suporte
Confundir com gengivoestomatite herpética primária e vice-versa muda a conversa com a família e as orientações de contágio — e a forma atípica por coxsackievírus A6, em adulto, é a que mais se parece com herpes disseminado ou eritema multiforme
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
A doença mão-pé-boca associada a enterovírus é descrita como problema significativo de saúde pública mundial, ocorrendo comumente em crianças de cinco anos ou menos
A causa da maioria dos casos são enterovírus, membros da família Picornaviridae
As manifestações clínicas típicas são quadro febril com herpangina em mucosa, ulcerações orais e exantema em mãos e pés
A maioria dos casos se resolve sem consequência; um subgrupo, porém, progride para complicações neurológicas e cardiopulmonares graves, que podem ser fatais
Entre os enterovírus envolvidos, a revisão cita EV-D68, EV-A71, coxsackievírus e echovírus, com infecções emergentes em aumento
O desenvolvimento de vacinas eficazes é apontado como prioridade, porque não há tratamento adequado disponível — o manejo é de suporte
A distinção prática com a gengivoestomatite herpética primária importa: a herpética costuma cursar com gengiva intensamente inflamada e sangrante e lesões que também acometem gengiva inserida e pele perioral, enquanto a herpangina concentra as lesões em palato mole, pilares e orofaringe posterior
Para o dentista, o valor está em reconhecer, orientar hidratação e conforto, evitar tratamento antiviral desnecessário e saber quando encaminhar
Manter a criança hidratada é o ponto de maior consequência prática: recusa alimentar por dor leva a desidratação rápida nessa faixa etária
Cuidado com a forma ATÍPICA por coxsackievírus A6, descrita em ADULTOS: estudo clínico-patológico de três casos relata quadro que preocupava por parecer eritema multiforme ou infecção herpética disseminada, com espectro cutâneo mais amplo e maior gravidade, e todos resolveram espontaneamente
Isso limita a heurística deste verbete: 'perioral e pele = herpético' falha na forma atípica por A6, e o reconhecimento importa justamente para evitar terapia desnecessária e acertar o prognóstico dado à família
Conduta inicial
1Examinar a distribuição das lesões: orofaringe posterior e palato mole apontam para herpangina; gengiva inserida e pele perioral apontam para o quadro herpético.
2Perguntar por lesões em mãos, pés e região glútea, e pelo contato com outras crianças doentes.
3Orientar a família sobre hidratação, alimentação fria/pastosa e controle de febre e dor conforme avaliação.
4Explicar que o quadro é autolimitado na maioria dos casos e quais são os sinais que exigem procurar atendimento médico.
5Adiar procedimento odontológico eletivo enquanto durar a fase aguda.
6Orientar medidas de higiene e contenção do contágio em casa e na creche/escola.
7Encaminhar ao médico quando houver sinal de gravidade, desidratação ou dúvida diagnóstica.
Exames
Exame clínico intraoral com descrição da distribuição das lesões
Inspeção de mãos, pés e região glútea
Avaliação de estado de hidratação e de febre
Reavaliação clínica em prazo curto na fase aguda
Investigação laboratorial apenas quando solicitada pelo médico
Prescrição-modelo
Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — o manejo é de suporte e a avaliação de gravidade é médica. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Dieta
Líquidos frios e alimentos de consistência pastosa, em pequenas porções e com frequência ___
Evitar alimentos ácidos, salgados e muito quentes durante a fase aguda ___
Soro
Hidratação oral reforçada; reidratação supervisionada é conduta médica se houver sinal de desidratação ___
Medicamentos
Analgesia e antitérmico conforme peso e idade, dose e intervalo a definir ___
Medidas tópicas de conforto conforme avaliação individual ___
Recomendações
Família orientada sobre sinais de alarme neurológicos, respiratórios e de desidratação ___
Orientação de higiene e contenção de contágio ___
Procedimentos eletivos adiados até a resolução do quadro ___
Reavaliação em ___ dias
Exames
Reavaliação clínica em ___ dias
Referências
[1]A review of enterovirus-associated hand-foot and mouth disease: preventive strategies and the need for a global enterovirus surveillance network, Huang CY, Su SB, Chen KT, Pathog Glob Health 2024;118(7-8):538-548 (doi:10.1080/20477724.2024.2400424)
[2]Atypical hand, foot and mouth disease in adults associated with coxsackievirus A6: a clinico-pathologic study, Laga AC, Shroba SM, Hanna J, J Cutan Pathol 2016;43(11):940-945 (doi:10.1111/cup.12775)
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.