Invasão do espaço supracrestal — alongamento cirúrgico ou extrusão ortodôntica antes de restaurar
Fratura ou cárie que vai abaixo da gengiva: alongo a coroa cirurgicamente, extruo o dente ou desço a margem da restauração?
Red flags — sinais de gravidade
Inflamação gengival ativa contraindica a extrusão e compromete qualquer alongamento — controlar antes
Anquilose, hipercementose ou fratura radicular vertical inviabilizam a extrusão e mudam o plano, às vezes para exodontia
Alongamento cirúrgico agressivo em região estética compromete papila e produz o 'triângulo preto' que o paciente vai reclamar depois
Relação coroa-raiz desfavorável após o alongamento fragiliza o dente como pilar — medir antes, não depois
Proximidade radicular limita tanto a ostectomia quanto o movimento extrusivo
Invadir o espaço supracrestal com a margem da restauração produz inflamação persistente que não responde a raspagem — e a causa é a margem
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
A terminologia atual é 'espaço supracrestal' (supracrestal tissue attachment), que substituiu 'distância biológica'/'biologic width' na classificação de 2017 — usar o termo novo evita ambiguidade no prontuário
Para restaurações que envolvem invasão desse espaço, e nos casos de ausência de férula, o alongamento de coroa é descrito como necessário para saúde periodontal a longo prazo e sucesso da restauração
Estudo clínico com 60 primeiros molares inferiores comparou duas técnicas de alongamento: gengivectomia (n=30) e retalho posicionado apicalmente com ostectomia (n=30), com medidas em três meses e seis meses
Não houve diferença estatística entre as técnicas em posição da margem gengival livre, profundidade de sondagem e nível de inserção relativo (p>0,05) nos dois momentos
Nesse estudo houve diferença no restabelecimento do espaço supracrestal, com o retalho posicionado apicalmente com ostectomia superando a gengivectomia em três e em seis meses (p<0,05) — mas é fonte ÚNICA, unicêntrica e de 60 dentes: não sustenta hierarquia entre técnicas, e a revisão sistemática abaixo não a confirma
Revisão sistemática com metanálise de 4 ensaios controlados (182 procedimentos de alongamento em 111 participantes) não encontrou diferença estatística em espaço supracrestal, nível ósseo ou profundidade de sondagem entre sítio tratado e sítio adjacente aos 3 e aos 6 meses; a mudança de nível de inserção foi significativa favorecendo os dentes adjacentes aos 6 meses
A leitura conjunta é 'os tecidos estabilizam', e não 'a técnica X ganha da técnica Y'
A alternativa não cirúrgica é a extrusão ortodôntica (erupção forçada), que aumenta o comprimento de coroa clínica, corrige defeito periodontal e desenvolve sítio para implante
As vantagens descritas da extrusão sobre o alongamento cirúrgico ressectivo são preservar osso de suporte, melhorar estética, limitar o envolvimento dos dentes vizinhos e reduzir o impacto negativo sobre a relação coroa-raiz
As contraindicações principais para a extrusão são inflamação, anquilose, hipercementose, fratura radicular vertical e proximidade radicular
Aparelhos fixos e removíveis podem ser usados para a extrusão, sendo a colaboração do paciente o fator limitante principal dos removíveis
A revisão registra que faltam estudos de longo prazo sobre a estabilidade dos dentes extruídos e do osso e tecido mole que os acompanharam
Sobre quanto tempo esperar, há número: estudo clínico de 12 meses em alongamento estético (20 indivíduos) mediu comprimento de coroa clínica de 7,42 ± 0,70 mm no início, 9,48 ± 0,49 mm imediatamente após e 8,93 ± 0,65 mm aos 12 meses — ou seja, parte do ganho volta
Nesse mesmo estudo a profundidade de sondagem caiu 0,60 mm até os 6 meses e voltou a subir 0,39 mm entre 6 e 12 meses; os autores consideram o rebote não clinicamente importante, mas quem restaura aos 3 meses em região estética precisa saber que ele existe
O que não é opção: simplesmente descer a margem da restauração para dentro do espaço supracrestal e esperar que a gengiva se acostume
Conduta inicial
1Avaliar onde termina o remanescente dentário em relação à crista óssea, com sondagem e imagem.
2Registrar se há férula e quanto de estrutura sadia existe acima da crista.
3Escolher entre alongamento cirúrgico e extrusão ortodôntica considerando estética, suporte ósseo, relação coroa-raiz e contraindicações.
4Controlar a inflamação antes de qualquer das duas abordagens.
5Aguardar o tempo de cicatrização e de reposicionamento tecidual antes de confeccionar a restauração definitiva — em região estética, contar com rebote depois dos 6 meses, não só antes.
6Registrar a decisão e o critério no prontuário, com as medidas usadas.
7Programar controle periodontal da região restaurada.
Exames
Sondagem periodontal e sondagem óssea sob anestesia, quando indicada
Radiografia periapical para avaliar crista óssea, relação coroa-raiz e proximidade radicular
Avaliação da linha do sorriso e da posição da margem gengival em região estética
Reavaliação após a cicatrização, antes da restauração definitiva
Controle periodontal periódico da região
Prescrição-modelo
Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — a escolha entre alongamento cirúrgico e extrusão depende do caso e do planejamento interdisciplinar. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Dieta
Dieta de consistência adequada no pós-operatório imediato ___
Medicamentos
Analgesia pós-operatória conforme avaliação individual, dose e intervalo a definir ___
Adjuvante químico de controle de biofilme no pós-operatório, por tempo definido, conforme indicação ___
Recomendações
Medidas de remanescente, crista óssea e férula registradas ___
Técnica escolhida e critério anotados ___
Tempo de espera até a restauração definitiva combinado: ___
Retorno para reavaliação em ___ semanas
Exames
Reavaliação clínica pós-operatória em ___ dias
Reavaliação periodontal da região em ___ meses
Referências
[1]Biologic Width Following Different Crown Lengthening Procedures: A Six-Month Follow-Up Study, Katariya C, Rajasekar A, Cureus 2024;16(4):e59325 (doi:10.7759/cureus.59325)
[2]Clinical Considerations in Orthodontically Forced Eruption for Restorative Purposes, Huang G, Yang M, Qali M, Wang TJ, Li C, Chang YC, J Clin Med 2021;10(24):5950 (doi:10.3390/jcm10245950)
[3]Periodontal tissue changes after crown lengthening surgery: A systematic review and meta-analysis, Smith SC, Goh R, Ma S, Nogueira GR, Atieh M, Tawse-Smith A, Saudi Dent J 2023;35(4):294-304 (doi:10.1016/j.sdentj.2023.03.004)
[4]Dental and periodontal dimensions stability after esthetic clinical crown lengthening surgery: a 12-month clinical study, Carneiro VMA, Gomes AMS, Marinho MU, de Melo GS, Kasabji F, An TL, Stefani CM, Guimarães MCM, Andrade CAS, Clin Oral Investig 2024;28(1):76 (doi:10.1007/s00784-023-05458-5)
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.