Tratar a boca seca só com saliva artificial e não investigar a causa
Pedir biópsia de glândula salivar menor sem solicitar o escore de foco no laudo
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Xerostomia é sintoma e tem muitas causas — medicação é a mais comum, e há verbete específico sobre isso. Este recorte é o do momento em que a boca seca deixa de ser explicada e passa a levantar suspeita de doença autoimune
O gatilho prático da suspeita é a combinação: secura bucal E ocular persistentes, sem medicação que explique, especialmente em mulher de meia-idade, muitas vezes com queixa articular associada
Os critérios de classificação ACR/EULAR de 2016 para síndrome de Sjögren primária foram feitos para pessoas com sinais e/ou sintomas sugestivos da doença, e somam PESOS de cinco itens
Peso 3 cada: positividade de anticorpo anti-SSA/Ro; e sialadenite linfocítica focal com escore de foco maior ou igual a 1 foco por 4 mm² na biópsia de glândula salivar menor
Peso 1 cada: escore de coloração ocular maior ou igual a 5 (ou van Bijsterveld maior ou igual a 4); teste de Schirmer menor ou igual a 5 mm em 5 minutos; e fluxo salivar não estimulado menor ou igual a 0,1 mL por minuto
Classifica-se como Sjögren primária quem soma 4 ou mais pontos. Na coorte final de validação, sensibilidade de 96% (IC95% 92%-98%) e especificidade de 95% (IC95% 92%-97%) contra o julgamento de especialistas
Duas leituras que evitam erro na cadeira: são critérios de CLASSIFICAÇÃO, desenhados sobretudo para seleção em ensaios clínicos, e não substituem o diagnóstico clínico feito pelo reumatologista; e boca seca isolada, sem os itens pontuados, não classifica ninguém
Repare em quanto da pontuação passa pela odontologia: dos cinco itens, dois são medidos ou colhidos pelo cirurgião-dentista — o fluxo salivar não estimulado e a biópsia de glândula salivar menor com leitura do escore de foco
Medir fluxo salivar não estimulado é procedimento simples e barato, e é um dado que fecha ponto no critério — vale incorporar à rotina em quem tem queixa de secura
A biópsia de glândula salivar menor, quando indicada, é ato odontológico dentro da competência do cirurgião-dentista, mas o pedido precisa solicitar explicitamente o ESCORE DE FOCO, senão o laudo volta sem o dado que interessa
A conduta odontológica da hipossalivação em si não muda: risco altíssimo de cárie, sobretudo radicular, candidíase de repetição, dificuldade com prótese e necessidade de plano preventivo intensificado
Sjögren aumenta o risco de linfoma, e aumento de volume persistente ou assimétrico de glândula salivar maior é achado que exige avaliação com prioridade — não é 'a glândula da doença'
Quem fecha o diagnóstico, investiga o envolvimento sistêmico e trata a doença é a reumatologia; o oftalmologista conduz o componente ocular. O dentista entra com medida, biópsia, cuidado bucal e vigilância — e é uma participação grande
Conduta inicial
1Caracterizar a secura: tempo, gravidade, sintoma ocular associado, dificuldade de mastigar e falar, e impacto no uso de prótese.
2Revisar todas as medicações em uso, porque a causa medicamentosa é a mais comum e precisa ser afastada ou considerada com o médico assistente.
3Medir o fluxo salivar não estimulado e registrar o valor — é dado clínico e é um dos itens pontuados no critério.
4Encaminhar à reumatologia quando a suspeita se mantiver, e à oftalmologia para o componente ocular.
5Quando a biópsia de glândula salivar menor for indicada, solicitar explicitamente o escore de foco no pedido.
6Instituir plano preventivo intensificado — flúor conforme o risco, controle de biofilme, orientação dietética e retorno curto.
7Manter vigilância sobre volume das glândulas salivares maiores a cada retorno.
Exames
Sialometria de fluxo salivar não estimulado, com registro do valor
Inspeção e palpação das glândulas salivares maiores
Biópsia de glândula salivar menor com solicitação do escore de foco, quando indicada
Avaliação oftalmológica com os testes de superfície ocular, pela oftalmologia
Sorologia e investigação sistêmica conduzidas pela reumatologia
Controle de atividade de cárie em intervalo curto
Prescrição-modelo
Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — o diagnóstico e o tratamento sistêmico da síndrome de Sjögren são conduzidos pela reumatologia. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Dieta
Hidratação frequente e redução de açúcares livres, pelo risco de cárie ___
Evitar álcool e cafeína em excesso quando piorarem a secura ___
Medicamentos
Medidas tópicas de alívio da secura conforme avaliação individual ___
Flúor em concentração adequada ao risco, ver verbetes de flúor ___
Revisão de medicações xerostomizantes com o médico assistente ___
Recomendações
Fluxo salivar não estimulado medido e registrado: ___ mL/min
Encaminhamento à reumatologia realizado em ___
Encaminhamento oftalmológico realizado em ___
Escore de foco solicitado no pedido de biópsia ___
Plano preventivo intensificado instituído ___
Vigilância de glândulas salivares maiores a cada retorno ___
Exames
Reavaliação de atividade de cárie em ___
Retorno para reavaliação da secura em ___
Referências
[1]2016 American College of Rheumatology/European League Against Rheumatism Classification Criteria for Primary Sjögren's Syndrome: A Consensus and Data-Driven Methodology Involving Three International Patient Cohorts, Shiboski CH, Shiboski SC, Seror R, Criswell LA, Labetoulle M, Lietman TM, Rasmussen A, Scofield H, Vitali C, Bowman SJ, Mariette X, Arthritis Rheumatol 2017;69(1):35-45 (doi:10.1002/art.39859)
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.