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Úlcera que parece câncer e não é — granuloma ulcerativo traumático com eosinofilia estromal (TUGSE)
Úlcera solitária na língua, de base endurecida, que não cicatriza. Como conduzir quando a aparência sugere malignidade?
Red flags — sinais de gravidade
Úlcera oral que não cicatriza em duas semanas — investigação, independentemente de haver trauma plausível
Base endurecida, bordas evertidas, crescimento rápido ou lesão fixa a planos profundos
Adenomegalia cervical associada
Fator de risco para carcinoma — tabaco, álcool — em paciente com úlcera persistente
Lesão que persiste depois de removida a causa traumática identificada
Deixar de rastrear sífilis, HIV e Epstein-Barr nesses casos, como a própria fonte recomenda
Indicar cirurgia ampla antes do laudo histopatológico e imuno-histoquímico
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
TUGSE — granuloma ulcerativo traumático com eosinofilia estromal — é uma condição RARA e AUTOLIMITADA da mucosa oral, que se apresenta como úlcera isolada, podendo ser assintomática ou cursar com dor leve a intensa, e que na maioria dos casos acomete a LÍNGUA
O problema clínico não é a doença em si — é a semelhança: a lesão pode imitar carcinoma de células escamosas, distúrbio linfoproliferativo CD30 positivo, e doenças infecciosas como sífilis primária, tuberculose e úlcera mucocutânea por vírus Epstein-Barr
No caso relatado, a lesão em plano bucal retromolar inferior media cerca de 4 × 3 cm, com base endurecida e ulceração central superficial de 2 × 1 cm, e o aspecto era indicativo de processo maligno. O paciente relatava aumento de volume havia 1 ano, com crescimento rápido nos últimos dias
Histologicamente, as células dominantes são linfócitos, histiócitos e eosinófilos. O diagnóstico no caso se fechou pelo fenótipo — sobretudo AUSÊNCIA de expressão de CD30, fenótipo T preservado e ausência de Epstein-Barr —, somado à apresentação clínica e à morfologia
Ou seja: o que separa TUGSE de linfoproliferação é imuno-histoquímica, e não olho clínico. Isso muda o que se escreve no pedido de exame
Recomendação explícita dos autores, e é a mensagem central: a BIÓPSIA É OBRIGATÓRIA e deve ser combinada com exame clínico minucioso
Segunda recomendação, que costuma ser esquecida: rastreamento para doenças infecciosas — principalmente sífilis, Epstein-Barr e HIV — deve ser feito ROTINEIRAMENTE nesses casos. Há verbete específico sobre sífilis com manifestação oral
Na maioria dos casos as lesões resolvem espontaneamente, dispensando outras ações além do acompanhamento clínico. No caso descrito, não houve recorrência da ulceração 26 meses após o diagnóstico
A patogênese segue em debate; eventos traumáticos locais e uma resposta imune locotípica foram sugeridos como fatores contribuintes principais
Consequência prática de consultório: identificar e remover a causa traumática quando ela existir (aresta cortante, prótese mal adaptada, dente fraturado) é parte da conduta — mas remover o trauma não substitui a biópsia quando a úlcera não cicatriza
A regra das duas semanas continua valendo, e este verbete é justamente o exemplo de por que ela existe: úlcera que não cicatriza em duas semanas vai para investigação, mesmo quando há um trauma plausível para culpar
O erro que este verbete quer evitar tem duas faces opostas: tratar como trauma banal uma lesão que precisava de biópsia, e submeter a cirurgia ampla uma lesão que se resolveria sozinha depois do diagnóstico correto
Conduta inicial
1Descrever a lesão objetivamente: localização, tamanho, base, bordas, tempo de evolução e sintomas.
2Procurar e remover a causa traumática, quando houver, registrando o que foi encontrado.
3Encaminhar para biópsia — obrigatória quando a úlcera não cicatriza —, combinada com exame clínico minucioso.
4Solicitar avaliação imuno-histoquímica no pedido, porque a diferenciação de linfoproliferação CD30 positiva depende dela.
5Rastrear doenças infecciosas, principalmente sífilis, Epstein-Barr e HIV.
6Não indicar cirurgia ampla antes do laudo.
7Manter acompanhamento clínico após o diagnóstico, já que a maioria das lesões regride sozinha.
Exames
Biópsia incisional com exame histopatológico — obrigatória
Avaliação imuno-histoquímica, incluindo CD30 e pesquisa de Epstein-Barr, conforme o serviço
Sorologias para sífilis e HIV, conforme o rastreamento recomendado
Palpação de cadeias cervicais
Acompanhamento clínico da regressão da lesão
Prescrição-modelo
Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — o diagnóstico depende de laudo histopatológico e imuno-histoquímico. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Dieta
Adequação de consistência e temperatura enquanto a lesão for dolorosa ___
Evitar alimentos ácidos, condimentados e crocantes ___
Medicamentos
Analgesia conforme avaliação individual ___
Não iniciar corticoide antes do diagnóstico histopatológico ___
Recomendações
Causa traumática procurada e, se identificada, removida — com registro ___
Biópsia encaminhada em ___
Imuno-histoquímica solicitada no pedido ___
Rastreamento de sífilis, HIV e Epstein-Barr solicitado ___
Acompanhamento clínico agendado para ___
Exames
Resultado histopatológico e imuno-histoquímico em ___
Sorologias em ___
Reavaliação clínica em ___
Referências
[1]Traumatic ulcerative granuloma with stromal eosinophilia - clinical case report, literature review, and differential diagnosis, Benitez B, Mülli J, Tzankov A, Kunz C, World J Surg Oncol 2019;17(1):184 (doi:10.1186/s12957-019-1736-z)
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.