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Doença do enxerto contra hospedeiro crônica na boca — a boca é dos órgãos mais atingidos, e às vezes o primeiro sinal visível
Paciente transplantado de medula com lesões brancas rendilhadas, boca seca e abertura limitada. O que é isso e qual é o meu papel?
Red flags — sinais de gravidade
Lesão de mucosa que muda de caráter, endurece ou ulcera em paciente com doença do enxerto contra hospedeiro — suspeita de transformação maligna
Redução de ingesta oral por dor de mucosa — repercussão nutricional, comunicação com a equipe
Limitação progressiva de abertura bucal
Hipossalivação com cárie de progressão rápida
Candidíase recorrente no paciente transplantado
Procedimento invasivo sem alinhamento com a equipe de transplante
Paciente que saiu do acompanhamento odontológico após o transplante — a vigilância é de longo prazo
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
A doença do enxerto contra hospedeiro crônica é complicação de longo prazo em quem recebeu transplante alogênico de células hematopoiéticas, com manifestações inflamatórias e fibróticas em vários sistemas
A boca é um dos órgãos mais frequentemente afetados depois do transplante, com frequência relatada de 45% a 83% — e a manifestação oral pode ser o primeiro sinal visível da doença
As manifestações orais descritas são lesões liquenoides de mucosa, disfunção de glândula salivar e limitação da abertura bucal, essa última por fibrose
O diagnóstico de gravidade se apoia em lesões de mucosa com sintoma de sensibilidade e dor e em redução da ingesta oral — e a literatura aponta dificuldade diagnóstica por definições subjetivas e baixa especificidade
A doença é descrita em fases biológicas: inflamação aguda; inflamação crônica com desregulação imune; e cicatrização fibrótica aberrante — e o paciente não percorre necessariamente essas fases em ordem cronológica
Ao longo do tempo, o quadro é associado a AUMENTO da taxa de transformação maligna — o que torna a vigilância de mucosa parte permanente do acompanhamento, e não um item opcional
Revisão que sintetiza patogênese, diagnóstico e tratamento atual descreve o componente oral como manifestações de mucosa, disfunção de glândula salivar e fibrose, e discute terapias sistêmicas emergentes conduzidas pela equipe de transplante
Na cadeira, a soma boca seca + lesão liquenoide + abertura limitada em paciente transplantado é a tríade que deve fazer a hipótese aparecer
As três manifestações têm consequência odontológica direta: hipossalivação eleva risco de cárie e de candidíase, lesão de mucosa dói e limita a alimentação, e a limitação de abertura dificulta o próprio atendimento e a higiene
O papel do dentista é identificar, comunicar à equipe de transplante, tratar o que é odontológico e manter vigilância de mucosa ao longo dos anos
O tratamento sistêmico da doença é conduzido pela equipe de transplante e hematologia, não pelo consultório
Manejo de hipossalivação, prevenção intensificada de cárie e cuidado de mucosa são as frentes em que o consultório efetivamente muda o desfecho do paciente
Lesão liquenoide nesse contexto não é líquen plano idiopático nem reação de contato a material restaurador — o contexto clínico é que separa, e cada um tem verbete próprio
Conduta inicial
1Levantar a história de transplante alogênico e o tempo decorrido, sempre que houver lesão liquenoide ou boca seca sem explicação.
2Descrever e registrar as lesões de mucosa, com foto e medida, para comparação ao longo do tempo.
3Comunicar o achado à equipe de transplante, especialmente quando ele puder ser o primeiro sinal.
4Tratar o que é odontológico: prevenção intensificada de cárie, manejo de hipossalivação e cuidado de mucosa.
5Manter vigilância periódica de mucosa, pelo risco de transformação maligna descrito na literatura.
6Alinhar qualquer procedimento invasivo com a equipe responsável.
7Não conduzir, no consultório, o tratamento sistêmico da doença.
Exames
Exame completo de mucosa com registro fotográfico e medida
Medida da abertura bucal máxima, registrada para acompanhamento
Avaliação de fluxo salivar e de risco de cárie
Biópsia quando houver mudança de caráter da lesão, definida com o serviço de referência
Reavaliação periódica de mucosa de longo prazo
Prescrição-modelo
Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — o tratamento sistêmico é conduzido pela equipe de transplante. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Dieta
Consistência e temperatura adaptadas em vigência de lesão dolorosa ___
Hidratação frequente na vigência de hipossalivação ___
Medicamentos
Dentifrício fluoretado em concentração adequada ao risco ___
Medidas para hipossalivação conforme avaliação individual ___
Recomendações
História de transplante alogênico registrada ___
Lesões de mucosa fotografadas e medidas ___
Abertura bucal máxima registrada ___
Comunicação à equipe de transplante realizada em ___
Vigilância periódica de mucosa agendada ___
Exames
Reavaliação de mucosa em ___
Reavaliação de risco de cárie e de fluxo salivar em ___
Referências
[1]Perspectives on oral chronic graft-versus-host disease from immunobiology to morbid diagnoses, Tollemar V, Garming Legert K, Sugars RV, Frontiers in Immunology 2023;14:1151493 (doi:10.3389/fimmu.2023.1151493)
[2]Oral Chronic Graft-Versus-Host Disease: Pathogenesis, Diagnosis, Current Treatment, and Emerging Therapies, Nguyen JT, Jessri M, Costa-da-Silva AC, Sharma R, Mays JW, Treister NS, International Journal of Molecular Sciences 2024;25(19):10411 (doi:10.3390/ijms251910411)
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.