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Desgaste interproximal (IPR) em ortodontia — cerca de 0,3 mm por superfície, sem aumento de cárie nos estudos, e a evidência é fraca

O ortodontista indicou desgaste interproximal para resolver o apinhamento. Isso enfraquece o dente ou aumenta o risco de cárie depois?

Red flags — sinais de gravidade

  • Apresentar o IPR como comprovadamente seguro — a evidência disponível é de qualidade baixa a muito baixa
  • Desgaste acima do que a literatura disponível descreve (média de 0,3 mm por superfície nos estudos incluídos) sem justificativa registrada no plano — a revisão descreve o que foi feito, não estabeleceu teto de segurança
  • IPR indicado em paciente com alto risco de cárie e sem plano preventivo reforçado
  • Superfície desgastada deixada sem polimento e sem acompanhamento
  • Sensibilidade persistente após o procedimento — avaliar, não normalizar
  • Apinhamento grave tratado só com desgaste, sem rediscutir o plano ortodôntico
  • Paciente que não foi informado de que houve remoção irreversível de esmalte
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Revisão sistemática (PROSPERO CRD420251007607) avaliou desfechos clínicos do desgaste interproximal na dentição permanente de crianças e adolescentes de 8 a 17 anos, com foco em integridade do esmalte, saúde periodontal e mudança dimensional
  • Busca de 1970 a outubro de 2024; dez estudos entraram — dois de coorte, um caso-controle e SETE relatos de caso —, somando 61 participantes com idade média de 13,4 ± 1,71 anos. Esse é o tamanho real da base de evidência
  • Indicações registradas: apinhamento dentário (57,4%), remodelação de forma dentária (42,6%) e discrepância entre tamanho de dente e tamanho de arco (3,3%); aparelho fixo foi usado em 72,1% dos casos
  • Distribuição: anteriores inferiores foram os mais tratados (67,2%), seguidos de anteriores superiores (49,2%), posteriores inferiores (37,5%) e posteriores superiores (29,5%)
  • A quantidade média removida foi de 0,3 mm POR SUPERFÍCIE — número útil para conferir se o que está sendo proposto no caso está dentro do que foi estudado
  • Resultado: não houve diferença significativa entre grupos com e sem IPR quanto a esmalte e periodonto; as dimensões de arco pós-tratamento permaneceram estáveis, com recidiva mínima em anteriores inferiores
  • Uma segunda revisão sistemática, com oito estudos clínicos e controle, encontrou o mesmo sentido: sem desmineralização do esmalte, sem aumento de incidência de cárie, sem alteração periodontal e sem sensibilidade dentária após o IPR
  • Essa segunda revisão também registra que, considerando a duração do tratamento ortodôntico, o IPR resultou em técnica mais rápida que extrações dentárias
  • E aqui vem o limite que precisa ser dito junto: nessa segunda revisão, a qualidade geral dos estudos foi avaliada entre BAIXA e MUITO BAIXA pelo GRADE; os observacionais tiveram baixo risco de viés, o ensaio não randomizado teve viés crítico e os randomizados levantaram algumas preocupações
  • Na primeira revisão, sete dos dez estudos eram relatos de caso, e o seguimento variou de 3 a 15 anos, com média de 5,71 anos e mediana de 3,67 — poucos casos acompanhados por muito tempo
  • A conclusão honesta dos dois conjuntos: o IPR parece um recurso viável para apinhamento leve a moderado, sem efeito negativo demonstrado, e são necessários ensaios randomizados maiores e com seguimento longo para afirmação robusta
  • Ausência de efeito negativo DEMONSTRADO, com evidência de qualidade baixa a muito baixa, não é o mesmo que segurança demonstrada — e essa distinção é o que o paciente precisa ouvir no consentimento
  • Quem decide indicar o IPR é o ortodontista dentro do plano do caso; o dentista generalista encontra o paciente depois, e o que cabe a ele é reconhecer a superfície desgastada, manter a prevenção e não atribuir a ela qualquer achado novo sem avaliar
  • A decisão entre desgastar e extrair pré-molar tem verbete próprio no Akut e não se resolve por esse número isolado

Conduta inicial

  1. 1Registrar quanto foi removido, em que superfícies e com que técnica — é o que permite conferir depois.
  2. 2Informar o paciente de que a remoção de esmalte é irreversível e de que a evidência de segurança, embora favorável, é de qualidade baixa a muito baixa.
  3. 3Reforçar prevenção nas superfícies tratadas, especialmente em paciente com risco de cárie já elevado.
  4. 4Acompanhar clinicamente e por radiografia interproximal conforme indicação, sem transformar isso em rotina automática.
  5. 5Avaliar sensibilidade relatada em vez de atribuí-la ao procedimento sem exame.
  6. 6Manter a decisão entre desgaste e extração dentro do raciocínio ortodôntico do caso, que é mais amplo que este número.

Exames

  • Registro da quantidade removida por superfície e da técnica utilizada
  • Avaliação periodontal das áreas tratadas
  • Radiografia interproximal conforme indicação individual
  • Avaliação de sensibilidade antes e depois
  • Acompanhamento de estabilidade do alinhamento e de recidiva em anteriores inferiores

Prescrição-modelo

Modelo de rascunho para o profissional adaptar e confirmar — indicação, quantidade e técnica de desgaste são decisão do profissional responsável pelo caso. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Medicamentos

  • Dentifrício fluoretado, concentração conforme risco ___
  • Dessensibilizante, se houver sensibilidade ___

Recomendações

  • Quantidade removida por superfície registrada ___
  • Polimento das superfícies tratadas ___
  • Consentimento com menção à remoção irreversível de esmalte ___
  • Prevenção reforçada nas superfícies tratadas ___

Exames

  • Controle clínico em ___
  • Radiografia interproximal de controle em ___

Referências

  1. [1]Clinical outcomes of interproximal enamel reduction in orthodontic treatment of children and adolescents: a systematic review, Khoury-Absawi M, Nasrallah F, Srouji S, Einy S, European Archives of Paediatric Dentistry 2025;26(6):1045-1055 (doi:10.1007/s40368-025-01081-y)
  2. [2]Effects of interproximal enamel reduction techniques used for orthodontics: A systematic review, Gómez-Aguirre JN, Argueta-Figueroa L, Castro-Gutiérrez MEM, Torres-Rosas R, Orthodontics & Craniofacial Research 2022;25(3):304-319 (doi:10.1111/ocr.12555)

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do profissional responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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