Abordagem inicial da criança grave — triângulo de avaliação pediátrica e ABCDE
Chegou uma criança em estado grave/instável. Por onde eu começo a avaliação e o que não posso deixar de checar nos primeiros segundos?
Red flags — sinais de gravidade
Aparência alterada (tônus, interatividade, consolabilidade, olhar, fala/choro) — é o melhor preditor isolado de gravidade em pediatria, mais sensível que sinais vitais isolados
Esforço respiratório aumentado (batimento de asa de nariz, retrações, gemência, taquipneia para a idade, estridor/sibilância audível)
Cianose central ou palidez/mosqueamento de pele — sinal de má perfusão
Bradicardia em criança grave é sinal pré-terminal — quase sempre de origem hipóxica, não primariamente cardíaca
Alteração aguda de consciência ou postura anormal (decorticação/descerebração)
Erro que mata: usar parâmetros de adulto (FC, FR, PA) sem ajustar para a faixa etária — hipotensão em criança é sinal tardio de choque, não precoce
Erro que mata: não estimar peso antes de calcular dose de medicação ou volume de fluido em emergência
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Triângulo de Avaliação Pediátrica (TAP) em menos de 1 minuto, antes de tocar no paciente: aparência, esforço respiratório, circulação da pele
Classificar a impressão inicial: estável, desconforto respiratório, insuficiência respiratória, choque, falência cardiopulmonar ou disfunção do SNC
ABCDE pediátrico completo após o TAP, com parâmetros e equipamento ajustados para idade/peso
Estimar peso (fita métrica de emergência tipo Broselow ou idade x fórmula) antes de qualquer cálculo de dose/fluido
Glicemia capilar precoce em toda criança grave ou com alteração de consciência
Temperatura — hipotermia e febre alta são ambas sinais de alerta em lactentes
Reavaliação contínua do TAP/ABCDE a cada intervenção
Conduta inicial
1TAP à distância (antes de tocar o paciente): aparência, esforço respiratório, circulação da pele.
2Monitorização imediata: oximetria, FC, FR, PA não invasiva com manguito adequado, temperatura.
3Via aérea (A): permeabilidade, posicionamento, aspiração se necessário, considerar via aérea avançada se Glasgow baixo ou exaustão respiratória. Não indicar via aérea avançada (intubação) precocemente "por precaução": se a ventilação com bolsa-máscara está sendo eficaz (melhora de saturação, expansão torácica adequada), manter esse suporte e reavaliar — intubar sem necessidade clara expõe a criança a risco maior que o benefício e contraria o padrão PALS de reservar via aérea avançada para quando a via aérea básica/bolsa-máscara não é suficiente.
4Respiração (B): frequência respiratória para a idade, padrão, saturação, oxigênio suplementar se hipóxia.
5Circulação (C): FC, pulsos centrais e periféricos, tempo de enchimento capilar, cor/temperatura da pele, acesso venoso (ou intraósseo se difícil).
6Disfunção neurológica (D): nível de consciência (AVDI/Glasgow pediátrico), pupilas, glicemia capilar imediata.
7Exposição (E): despir completamente, procurar lesões/petéquias/sinais de trauma, controlar hipotermia.
8Reclassificar continuamente: cada intervenção deve ser seguida de reavaliação do TAP/ABCDE.
9Acionar equipe de reanimação pediátrica precocemente se qualquer componente do TAP estiver gravemente alterado.
Exames
Glicemia capilar — sempre, precocemente
Oximetria contínua e monitorização cardíaca
Gasometria se sinais de choque ou insuficiência respiratória
Exames direcionados pela hipótese diagnóstica após estabilização (não atrasar estabilização para exames)
Prescrição-modelo
Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.
Soro
Cristaloide isotônico em bólus calculado por mL/kg, conforme sinais de choque e protocolo local
Medicamentos
Glicose IV imediata se hipoglicemia confirmada no passo D do ABCDE: solução glicosada 10% 5 mL/kg (lactentes e pré-escolares, padrão PALS/OMS — 0,5 g/kg) ou SG 25% 2 mL/kg (escolares/adolescentes), repetir glicemia capilar em 15 min após
Atropina IV/IO: se bradicardia com repercussão hemodinâmica não revertida pela oxigenação e ventilação — dose por peso conforme PALS, ação imediata; bradicardia em criança é hipóxia até prova em contrário, otimizar via aérea primeiro
Adrenalina IV/IO: se choque refratário a volume ou PCR iminente — dose por peso conforme protocolo PALS; não substituir expansão volêmica antes de avaliar responsividade
Recomendações
Oxigênio suplementar se hipóxia ou desconforto respiratório significativo
Acesso intraósseo se acesso venoso periférico não obtido rapidamente em criança grave
Manter normotermia
Reavaliação seriada do TAP/ABCDE após cada intervenção
Exames
Glicemia capilar seriada
Gasometria de controle conforme evolução
Referências
[1]Pediatric Assessment Triangle, American Academy of Pediatrics (AAP) — Pediatric Education for Prehospital Professionals (PEPP), 2020
[2]APLS: The Pediatric Emergency Medicine Resource, American Academy of Pediatrics (AAP) / American College of Emergency Physicians (ACEP), 6ª edição
[3]Pediatric Advanced Life Support (PALS) Provider Manual, American Heart Association (AHA), 2020
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.