Convulsão febril e estado de mal epiléptico na criança
Criança teve uma crise convulsiva associada a febre. É uma convulsão febril simples ou preciso investigar mais? E se a crise não para, qual a sequência de tratamento do estado de mal epiléptico?
Red flags — sinais de gravidade
Crise focal, duração maior que 15 minutos, recorrência na mesma doença febril, ou idade fora da faixa típica — complexa
Sinais meníngeos, fontanela tensa, letargia prolongada, petéquias — suspeita de infecção do SNC
Crise que não cessa espontaneamente em ~5 minutos — estado de mal epiléptico
Hipoglicemia como causa ou fator agravante
Erro que mata: atrasar o benzodiazepínico em crise prolongada por incerteza diagnóstica — toda crise que não cessa em ~5 minutos deve ser tratada como estado de mal epiléptico
Erro que mata: não verificar glicemia capilar antes ou durante o manejo da crise
Erro que mata: não proteger via aérea/posicionar adequadamente a criança durante a crise
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Diferenciar convulsão febril simples (generalizada, <15 min, sem recorrência em 24h, criança previamente saudável, 6 meses–5 anos) de complexa
ABCDE e glicemia capilar imediata em toda criança convulsionando
Buscar foco infeccioso da febre, incluindo avaliação para sinais de infecção do SNC
Convulsão febril simples não exige rotineiramente neuroimagem, EEG ou punção lombar apenas pelo evento
Se crise persistente além de ~5 minutos: tratar como estado de mal epiléptico, com benzodiazepínico de primeira linha
Sequência escalonada se crise não responde: segunda linha IV e depois terceira linha/anestesia em estado refratário
Orientação cuidadosa aos pais sobre benignidade e risco de recorrência
Conduta inicial
1Proteger a criança durante a crise, garantir via aérea e checar respiração/circulação.
2Glicemia capilar imediata — corrigir hipoglicemia se presente.
3Cronometrar a duração da crise.
4Se crise persistente além de ~5 minutos: benzodiazepínico de primeira linha, dose por peso — os 5 minutos já definem estado de mal epiléptico nessa faixa e exigem ação imediata.
5Se persiste após primeira/segunda dose: escalonar para anticonvulsivante de segunda linha IV, dose por peso.
6Se refratária: estado de mal epiléptico refratário — UTI, possível anestesia geral/intubação e EEG contínuo.
7Após cessação da crise: avaliar e tratar a causa da febre, investigar sinais de infecção do SNC se suspeita.
8Convulsão febril simples isolada: não são necessários rotineiramente neuroimagem, EEG ou punção lombar apenas pelo evento.
9Orientar a família sobre a natureza benigna e risco de recorrência.
Exames
Glicemia capilar — sempre, imediatamente
Investigação do foco febril conforme quadro clínico
Punção lombar considerada se sinais de infecção do SNC, lactente jovem, vacinação incompleta ou quadro atípico
Neuroimagem e EEG não são rotineiros na convulsão febril simples
Eletrólitos e cálcio/magnésio se suspeita de causa metabólica
Prescrição-modelo
Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.
Medicamentos
Benzodiazepínico (diazepam, midazolam ou lorazepam, via conforme acesso) como primeira linha em crise prolongada, dose por peso, repetível conforme protocolo
Anticonvulsivante de segunda linha IV (fenitoína, levetiracetam ou ácido valproico), dose por peso, se refratária ao benzodiazepínico
Correção de hipoglicemia se identificada, conforme peso e protocolo
Antitérmico para conforto e tratamento da febre de base
Tratamento dirigido à causa da febre, conforme foco identificado
Recomendações
Posicionamento seguro durante a crise, proteção contra trauma
Monitorização contínua durante e após tratamento do estado de mal epiléptico
Orientação familiar sobre convulsão febril simples e sinais de alarme
Referências
[1]Clinical Practice Guideline — Neurodiagnostic Evaluation of the Child with a Simple Febrile Seizure, American Academy of Pediatrics (AAP), 2011
[2]Guideline: Treatment of Convulsive Status Epilepticus in Children and Adults, American Epilepsy Society (AES), 2016
[3]Pediatric Advanced Life Support (PALS) Guidelines, American Heart Association (AHA), 2020
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.