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Cetoacidose diabética pediátrica — risco de edema cerebral

Criança ou adolescente com hiperglicemia, acidose e cetose. O que muda em relação ao adulto e como conduzir sem aumentar risco de edema cerebral?

Red flags — sinais de gravidade

  • Rebaixamento, cefaleia intensa, vômitos recorrentes, irritabilidade, bradicardia, hipertensão ou alteração pupilar — suspeitar de edema cerebral/lesão cerebral relacionada à DKA
  • Choque, má perfusão ou desidratação grave — expansão cuidadosa e reavaliação frequente
  • Potássio baixo ou normal-baixo na chegada — déficit corporal importante; insulina pode precipitar hipocalemia grave
  • Queda rápida demais da glicemia ou do sódio corrigido durante tratamento
  • Erro que mata: usar protocolo adulto com bolus de insulina e correção rápida
  • Erro que mata: dar bicarbonato para acidose da DKA sem indicação extrema — associa-se a maior risco de lesão cerebral
  • Erro que mata: esperar TC para tratar edema cerebral clinicamente suspeito
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Confirmar DKA: glicemia geralmente >200 mg/dL, pH venoso <7,3 ou bicarbonato <15 mEq/L, cetonemia/cetonúria significativa
  • Avaliar gravidade por pH/bicarbonato, perfusão, nível de consciência e desidratação — não só pela glicemia
  • Pesar ou estimar peso antes de qualquer dose; monitorizar ECG se potássio alterado
  • Começar com cristaloide isotônico; insulina só após a primeira hora de fluido e se K >3,0 mmol/L
  • Não fazer bolus de insulina em DKA pediátrica
  • Adicionar potássio ao soro quando K <5 mmol/L e houver diurese recente documentada
  • Adicionar dextrose quando glicemia cair para cerca de 250-300 mg/dL, mantendo insulina até fechar acidose/cetose
  • Reavaliar neurologicamente com frequência; se suspeita de edema cerebral, tratar antes de imagem

Conduta inicial

  1. 1ABCDE pediátrico, monitorização cardiorrespiratória, glicemia capilar, acesso venoso/IO se necessário e estimativa de peso.
  2. 2Coletar gasometria venosa, eletrólitos com sódio corrigido, potássio, ureia/creatinina, beta-hidroxibutirato ou cetonúria, osmolaridade calculada, hemograma e investigação de gatilho conforme história.
  3. 3Reposição inicial com cristaloide isotônico, em geral 10 mL/kg se hipovolemia; repetir com cautela se choque, sempre reavaliando perfusão e estado neurológico.
  4. 4Após a primeira hora de fluido, iniciar insulina regular IV contínua 0,05-0,1 U/kg/h se K >3,0 mmol/L; não fazer bolus.
  5. 5Se K <=3,0 mmol/L, repor potássio e adiar insulina até segurança mínima; se K <5 mmol/L e houver diurese, adicionar potássio ao fluido conforme protocolo.
  6. 6Quando a glicemia cair para cerca de 250-300 mg/dL, adicionar dextrose ao soro e manter insulina para resolver cetose/acidose, não para normalizar rapidamente a glicemia.
  7. 7Evitar bicarbonato, exceto parada/periparada, hipercalemia ameaçadora ou acidose extrema com instabilidade conforme protocolo e especialista.
  8. 8Suspeita de edema cerebral: cabeceira 30°, cabeça em linha média, reduzir estímulo, manter fluido isotônico, considerar reduzir taxa se perfusão permitir, fazer salina hipertônica 3% 5 mL/kg em 10-15 min (máx. 250 mL) ou manitol 0,5-1 g/kg em 15-20 min (máx. 100 g), e acionar UTI pediátrica imediatamente.
  9. 9Transição para insulina subcutânea somente com acidose/cetose resolvida, aceitação oral e sobreposição adequada entre insulina SC e infusão IV.

Exames

  • Glicemia horária durante insulinoterapia
  • Gasometria venosa e eletrólitos a cada 2h no início, com sódio corrigido e ânion gap
  • Potássio seriado; ECG se hipo/hipercalemia ou DKA grave
  • Beta-hidroxibutirato sérico quando disponível; cetonúria pode piorar aparentemente durante melhora bioquímica
  • Ureia, creatinina, fósforo e magnésio conforme gravidade
  • Culturas, radiografia ou outros exames apenas se gatilho infeccioso/diagnóstico diferencial for plausível

Prescrição-modelo

Ajustar sempre por peso, potássio, função renal, grau de desidratação e protocolo pediátrico local antes de prescrever. DKA pediátrica não deve seguir automaticamente protocolo adulto.

Dieta

  • Jejum na fase aguda se vômitos, rebaixamento ou risco de procedimento; liberar via oral quando acidose melhorar e náuseas cessarem

Soro

  • Cristaloide isotônico 10 mL/kg se hipovolemia; repetir apenas se choque/má perfusão persistente, com reavaliação clínica
  • Fluido de manutenção/deficit com solução isotônica e potássio conforme K e diurese; considerar protocolo de duas bolsas para ajustar dextrose
  • Adicionar dextrose (SG 5-10% conforme necessidade) quando glicemia atingir cerca de 250-300 mg/dL para manter insulina até fechar cetose

Medicamentos

  • Insulina regular IV contínua 0,05-0,1 U/kg/h após 1h de fluido e K >3,0 mmol/L; não fazer bolus
  • Potássio no soro, frequentemente 40 mmol/L, se K <5 mmol/L e diurese recente documentada; segurar/repor conforme K e ECG
  • Salina hipertônica 3% 5 mL/kg IV em 10-15 min (máx. 250 mL) se edema cerebral suspeito, ou manitol 0,5-1 g/kg IV em 15-20 min (máx. 100 g)
  • Bicarbonato: evitar de rotina; reservar para parada/periparada, hipercalemia ameaçadora ou acidose extrema com especialista/protocolo

Recomendações

  • Monitorização neurológica frequente e registro seriado de Glasgow/AVDI, pupilas, cefaleia e vômitos
  • Controle rigoroso de balanço hídrico e diurese
  • Acionar endocrinologia/pediatria e UTI pediátrica em DKA moderada/grave, alteração neurológica ou distúrbio eletrolítico importante

Exames

  • Glicemia horária
  • Gasometria venosa e eletrólitos seriados
  • Potássio e ECG conforme risco

Referências

  1. [1]Current recommendations for management of paediatric diabetic ketoacidosis, Canadian Paediatric Society, 2023
  2. [2]Pediatric Diabetic Ketoacidosis, StatPearls/NCBI Bookshelf, atualização 2023
  3. [3]ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Diabetic ketoacidosis and hyperglycemic hyperosmolar state, ISPAD, 2022

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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