Maus-tratos / violência infantil — obrigação do plantonista
Suspeitei de maus-tratos ou violência infantil no plantão. O que devo fazer, o que documentar e quem precisa ser acionado?
Red flags — sinais de gravidade
História incompatível com a lesão, muda ao longo do atendimento ou não combina com o desenvolvimento da criança
Atraso injustificado para procurar atendimento
Equimose em lactente que não engatinha/anda, lesões em diferentes estágios ou marcas de objeto/mordida/queimadura por imersão
Lesões em orelhas, pescoço, tronco, dorso, nádegas, genitais, face interna de coxas ou padrão de contenção
Fraturas múltiplas, costelas, metáfises, escápula, esterno ou qualquer fratura sem mecanismo plausível em não deambulador
Trauma craniano sem mecanismo convincente, vômitos, convulsão, alteração neurológica ou hemorragia retiniana
Sinais de violência sexual: relato espontâneo, dor/sangramento genital ou anal, IST, gravidez, comportamento sexual incompatível com idade
Negligência grave: desnutrição, abandono de tratamento, intoxicações repetidas, acidentes recorrentes por falta de supervisão
Erro que mata: liberar a criança para o mesmo ambiente inseguro porque não há prova definitiva no PS
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Suspeita já exige proteção e comunicação — o plantonista não precisa provar violência no PS
Estabilizar primeiro: ABCDE, analgesia, tratamento das lesões e avaliação de risco imediato
Ouvir com perguntas abertas, sem interrogatório repetido, acusatório ou sugestivo
Não deixar a criança exposta ao possível agressor se houver risco; envolver equipe multiprofissional cedo
Documentar versões, horários, exame físico completo e lesões com detalhe objetivo
Notificar violência interpessoal/autoprovocada conforme SINAN/Viva e comunicar Conselho Tutelar nos casos suspeitos ou confirmados
Não dar alta se retorno ao ambiente representar risco imediato sem plano de proteção articulado
Conduta inicial
1Atender em local seguro e reservado; estabilizar clinicamente antes da abordagem social/documental.
2Colher história com perguntas abertas e registrar falas relevantes entre aspas, identificando quem relatou cada versão.
3Examinar da cabeça aos pés, incluindo cavidade oral, pele, dorso, região anogenital quando indicado, estado nutricional e desenvolvimento compatível com o mecanismo narrado.
4Evitar confrontar o cuidador suspeito durante o atendimento; isso pode aumentar risco para a criança e equipe.
5Explicar limites de sigilo em tom calmo: diante de suspeita, a equipe precisa acionar a rede de proteção.
6Acionar pediatria, serviço social, psicologia/equipe de proteção do hospital e chefia conforme fluxo local.
7Preencher notificação compulsória de violência conforme SINAN/Viva e comunicar Conselho Tutelar ou autoridade competente; registrar data, horário e pessoa/órgão contatado.
8Se não houver segurança para alta, manter observação/internação protetiva enquanto a rede define proteção; Conselho Tutelar não substitui cuidado médico em curso.
9Em suspeita de violência sexual recente, preservar vestígios conforme protocolo, evitar banho/troca quando possível e acionar serviço de referência/IML conforme fluxo local.
Exames
Prontuário detalhado com mapa corporal; fotos conforme protocolo institucional, com identificação, data/hora e guarda segura
Radiografias direcionadas; em menores de 2 anos com suspeita de violência física, considerar inventário ósseo conforme protocolo
TC/RM de crânio se sinais neurológicos, suspeita de trauma craniano abusivo ou lactente de alto risco
Avaliação oftalmológica se suspeita de trauma craniano abusivo
Hemograma e coagulograma se equimoses/sangramento para avaliar diferencial e gravidade
TGO/TGP, amilase/lipase, urina tipo I e imagem abdominal se suspeita de trauma abdominal oculto
Toxicologia se rebaixamento, sedação inexplicada ou intoxicações repetidas
Violência sexual: testes para IST, gravidez quando aplicável, e coleta/profilaxias conforme tempo de exposição e protocolo local
Prescrição-modelo
A prescrição é de suporte clínico e profilaxias quando indicadas; a prioridade é segurança, documentação objetiva e rede de proteção.
Soro
Hidratação EV conforme estado clínico se desidratação, choque, trauma ou necessidade de internação
Medicamentos
Analgesia por peso conforme lesão e dor, evitando sedação desnecessária que atrapalhe reavaliação neurológica
Profilaxia pós-exposição a HIV/IST/HBV e contracepção de emergência em violência sexual conforme idade, puberdade, tempo de exposição e protocolo do serviço
Antibiótico apenas se lesão infectada, mordedura, ferida contaminada ou profilaxia específica indicada por protocolo
Recomendações
Não confrontar possível agressor sem plano de segurança
Registrar notificação SINAN/Viva e comunicação ao Conselho Tutelar
Garantir plano de alta seguro; se inseguro, observação/internação protetiva até articulação da rede
Exames
Mapa corporal/fotos conforme protocolo
Imagem e laboratoriais conforme lesões
Exames de IST/gravidez se violência sexual
Referências
[1]Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei 8.069/1990, arts. 13 e 245
[2]Linha de cuidado para a atenção integral à saúde de crianças, adolescentes e suas famílias em situação de violências, Ministério da Saúde, 2010
[3]Viva: instrutivo de notificação de violência interpessoal e autoprovocada, Ministério da Saúde, 2016
[4]Guia de atuação frente a maus-tratos na infância e adolescência, Sociedade Brasileira de Pediatria
[5]The Evaluation of Suspected Child Physical Abuse, American Academy of Pediatrics, 2015
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.