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Síndrome nefrótica na criança — edema, proteinúria maciça, corticoterapia e complicações (PBE, trombose)

Criança que amanhece com olho inchado e vai enchendo de edema, urina espumosa — é síndrome nefrótica? Já começo corticoide?

Red flags — sinais de gravidade

  • Peritonite bacteriana espontânea (febre, dor abdominal, descompressão dolorosa, ascite): principal infecção grave — hemocultura/cultura do líquido e antibiótico com cobertura para pneumococo, sem atrasar.
  • Trombose (TVP, TEP, trombose de veia renal, seio venoso cerebral): dispneia/dor torácica, dor de membro, déficit neurológico — emergência, o nefrótico é pró-trombótico.
  • Choque hipovolêmico por depleção intravascular, às vezes precipitado por diurético agressivo: taquicardia, hipotensão, extremidades frias.
  • Celulite/erisipela extensa ou sepse: infecção de pele sobre o edema pode disseminar rápido.
  • Lesão renal aguda, HAS grave ou hematúria macro: sugere que não é lesão mínima simples — envolver nefro e considerar biópsia.
  • Corticoterapia iniciada sem rastrear/tratar infecção ativa (ex.: TB, estrongiloidíase em área endêmica): risco de agravar infecção.
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Tétrade: proteinúria maciça, hipoalbuminemia, edema e hiperlipidemia — confirmar proteinúria significativa (relação proteína/creatinina urinária ou proteinúria de 24h).
  • Edema: começa periorbitário matinal, evolui para membros, ascite, derrame, anasarca — avaliar extensão e repercussão.
  • Idade e apresentação: pré-escolar (1-10 anos), sem hematúria macro, sem HAS importante e sem lesão renal favorece lesão mínima corticossensível.
  • PA e função renal: HAS significativa, hematúria macroscópica ou creatinina alterada apontam para causas menos típicas.
  • Sinais de complicação infecciosa: febre, dor abdominal, sinais de peritonite — o nefrótico é imunossuprimido funcional (perde imunoglobulinas).
  • Sinais de trombose: dor/edema assimétrico de membro, dor torácica/dispneia, sinais neurológicos — estado de hipercoagulabilidade.
  • Volume intravascular: apesar do edema, pode estar hipovolêmico (dor abdominal, taquicardia, extremidades frias) — cuidado ao diureticar.
  • História de recaídas/uso prévio de corticoide — muda a classificação (corticossensível/dependente/resistente) e a conduta.

Conduta inicial

  1. 1Confirmar o diagnóstico com proteinúria (relação P/C urinária ou 24h), albumina sérica e perfil lipídico; avaliar função renal, PA e sedimento urinário.
  2. 2Corticoterapia é a base no primeiro episódio típico da criança: prednisona/prednisolona 2 mg/kg/dia (ou 60 mg/m²/dia, máx ~60 mg/dia) — seguir o esquema do protocolo (fase diária seguida de dias alternados, com desmame).
  3. 3Definições (KDIGO 2025): corticossensível = remissão em até 4 semanas; 'respondedor tardio' = resposta parcial à 4ª semana — KDIGO 2025 permite estender até 6 semanas antes de reclassificar como resistente; corticodependente = 2 recaídas consecutivas durante o tratamento (dose plena ou desmame) ou em até 14 dias após parar; corticorresistente = sem remissão completa até a semana 6 (KDIGO 2025) — encaminhar à nefro/biópsia.
  4. 4Manejo do edema: restrição de sódio e ajuste hídrico; diurético (furosemida) com cautela e só com volume intravascular avaliado — em hipovolemia, considerar albumina antes/junto ao diurético.
  5. 5Profilaxia/atenção às infecções: alto índice de suspeita para PBE; manter esquema vacinal (pneumocócica, varicela quando possível), atenção ao contato com varicela.
  6. 6Tromboprofilaxia conforme risco (mobilização, evitar hemoconcentração e cateteres desnecessários; anticoagulação em casos selecionados de alto risco) — discutir com nefro/hemato.
  7. 7Rastrear infecções antes/junto ao corticoide conforme contexto (ex.: PPD/IGRA, ivermectina empírica para estrongiloides em área endêmica se indicado).
  8. 8Orientar a família sobre monitorização domiciliar da proteinúria (fita) e reconhecimento de recaída e de sinais de alarme.

Exames

  • Proteinúria: relação proteína/creatinina em amostra ou proteinúria de 24h; fita urinária para acompanhamento.
  • Albumina sérica, proteínas totais e perfil lipídico (colesterol/triglicerídeos).
  • Ureia, creatinina, eletrólitos e hemograma; avaliar hemoconcentração.
  • Urina I/sedimento: presença de hematúria/cilindros ajuda a caracterizar o quadro.
  • Investigação de infecção quando suspeita: hemocultura, análise do líquido ascítico se suspeita de PBE.
  • Sorologias/rastreio pré-imunossupressão conforme contexto; biópsia renal reservada a apresentação atípica, corticorresistência ou faixa etária fora do usual.

Prescrição-modelo

Modelo de apoio, em rascunho, com campos em aberto ( ___ ) para o residente confirmar dose, via, peso, função renal e alergias antes de assinar. Não é prescrição finalizada.

Dieta

  • Dieta hipossódica; oferta proteica e calórica adequada à idade (sem sobrecarga proteica) ___
  • Ajuste hídrico conforme edema, diurese e volemia ___

Soro

  • Albumina humana ___ g/kg EV em casos selecionados de hipovolemia sintomática/edema refratário, geralmente seguida de furosemida — sob monitorização ___

Medicamentos

  • Prednisona/prednisolona 2 mg/kg/dia (ou 60 mg/m²/dia, máx ~60 mg/dia) conforme protocolo, com esquema de desmame (confirmar peso/superfície ___)
  • Furosemida ___ mg/kg/dose com cautela (avaliar volemia antes) ___
  • Antibiótico se PBE/infecção grave: cobertura para pneumococo (ex.: cefotaxima/ceftriaxona) ___ mg/kg/dia ___
  • Anticoagulação/tromboprofilaxia em casos de alto risco conforme nefro/hemato ___
  • Suplementação (ex.: vitamina D/cálcio) e proteção gástrica conforme corticoterapia prolongada ___

Recomendações

  • Peso diário, PA, balanço hídrico e monitorização da proteinúria por fita em casa
  • Orientar sinais de alarme: febre, dor abdominal, dispneia/dor torácica, dor ou inchaço de perna, redução da urina
  • Manter vacinação em dia; atenção especial ao contato com varicela durante imunossupressão
  • Não interromper o corticoide por conta própria; explicar recaídas e seguimento com nefro pediátrica ___

Exames

  • Relação proteína/creatinina urinária ou proteinúria de 24h; albumina e perfil lipídico ___
  • Ureia, creatinina, eletrólitos e hemograma ___
  • Análise do líquido ascítico/hemocultura se suspeita de PBE; rastreio pré-imunossupressão conforme contexto ___

Referências

  1. [1]Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome Nefrótica Primária em Crianças e Adolescentes, CONITEC/Ministério da Saúde (Brasil), 2021
  2. [2]KDIGO 2021 Clinical Practice Guideline for the Management of Glomerular Diseases, KDIGO (Kidney Disease: Improving Global Outcomes), 2021
  3. [3]Rotina de Nefrologia Pediátrica — Síndrome Nefrótica, UFG/CIAR (Universidade Federal de Goiás), 2020
  4. [4]Nephrotic Syndrome in Children, Medscape (emedicine.medscape.com), 2024

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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