Chegou um paciente grave/instável na sala de emergência e eu não sei ainda o diagnóstico. Por onde eu começo, na ordem certa?
Red flags — sinais de gravidade
Hemorragia externa exsanguinante (ex.: amputação traumática, ferimento arterial) — controlar (compressão direta/torniquete) antes mesmo de avançar para a via aérea (protocolo xABCDE)
Via aérea ameaçada (estridor, rebaixamento de consciência com Glasgow baixo, queimadura de vias aéreas) — não esperar piorar para garantir via aérea
Hipotensão ou taquicardia desproporcional ao quadro aparente
Alteração aguda de consciência sem causa óbvia — sempre tratar hipoglicemia como possibilidade até prova em contrário
Erro comum que mata: avançar para "D" (exame neurológico detalhado, TC, etc.) sem ter garantido "X", "A", "B" e "C" antes — a sequência existe porque hemorragia exsanguinante e via aérea matam mais rápido que tudo o resto
Erro comum que mata: não repetir o ABCDE após qualquer intervenção ou mudança do quadro — reavaliação é contínua, não um exame único
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
X — hemorragia exsanguinante externa (compressão direta/torniquete) controlada ANTES de A, se presente — trauma com sangramento maciço mata mais rápido que obstrução de via aérea
A — via aérea (com proteção de coluna cervical se trauma)
B — respiração/ventilação (oximetria, frequência respiratória, ausculta)
C — circulação (PA, FC, perfusão, acesso venoso, controle de hemorragia visível)
D — neurológico (nível de consciência, pupilas, glicemia capilar)
E — exposição/ambiente (despir, procurar lesões ocultas, evitar hipotermia)
Glicemia capilar feita em TODO paciente com alteração de consciência — nunca pular esse passo
Monitorização contínua (monitor cardíaco, oximetria, PA) instalada antes de seguir para investigação detalhada
Conduta inicial
1Abordagem simultânea com a equipe, mas raciocínio sempre na sequência X-A-B-C-D-E — cada letra só é considerada "resolvida" para seguir adiante quando estabilizada ou quando uma intervenção foi iniciada.
2X (hemorragia exsanguinante): se houver sangramento externo maciço evidente (ex.: amputação, ferimento arterial), controlar por compressão direta ou torniquete ANTES de avançar para a via aérea — mudança do ATLS 11ª edição (2025), que passou de ABCDE para xABCDE.
3A (via aérea): avaliar permeabilidade (paciente fala normalmente? há ruído de via aérea?). Se trauma, imobilizar coluna cervical. Se obstrução ou risco iminente, manobras manuais, cânula orofaríngea/nasofaríngea, aspiração, e considerar via aérea definitiva precoce se não houver melhora.
4B (respiração): oximetria de pulso, frequência respiratória, expansibilidade torácica, ausculta pulmonar bilateral, palpação (enfisema, desvio de traqueia). Oxigênio suplementar se hipoxemia. Identificar e tratar imediatamente pneumotórax hipertensivo se suspeito (não esperar imagem).
5C (circulação): avaliar pulso, PA, tempo de enchimento capilar, sinais de choque (pele fria, sudorese, rebaixamento). Obter dois acessos venosos calibrosos, colher exames na punção. Conter hemorragia externa visível (compressão direta). Se choque hemorrágico (trauma): priorizar hemoderivados precoces (proporção balanceada) e hipotensão permissiva, minimizando volume de cristaloide. Se hipoperfusão não hemorrágica (ex.: sepse, desidratação): cristaloide em bólus guiado por resposta clínica.
6D (neurológico): nível de consciência (escala de coma de Glasgow ou AVDI), tamanho e reatividade pupilar, sinais de lateralização. Checar glicemia capilar neste momento, sempre — hipoglicemia é causa reversível de rebaixamento e simula praticamente qualquer quadro neurológico agudo.
7E (exposição): despir completamente o paciente para procurar lesões, sangramentos ou sinais ocultos (picadas, petéquias, queimaduras), mantendo controle de temperatura (cobertores, fluidos aquecidos) — hipotermia agrava coagulopatia e choque.
8Reavaliar o ABCDE completo após qualquer intervenção, mudança de monitorização ou piora clínica — é um ciclo, não uma lista única.
9Só depois de A-B-C-D-E estabilizados (ou em estabilização ativa) seguir para história dirigida, exame físico detalhado e investigação diagnóstica específica.
Exames
Glicemia capilar — obrigatória em todo paciente com qualquer alteração de consciência, independente da hipótese diagnóstica inicial
Monitorização contínua: oximetria de pulso, monitor cardíaco, PA não invasiva
ECG de 12 derivações — triagem rápida para causa cardíaca, especialmente se dor torácica, dispneia, síncope ou instabilidade sem causa clara
Gasometria (arterial ou venosa) — avalia oxigenação, ventilação, perfusão (lactato) e distúrbio acidobásico de forma rápida
Lactato sérico — marcador de hipoperfusão tecidual, útil mesmo antes de hipotensão franca
Exames complementares dirigidos pela hipótese gerada no próprio ABCDE (ex.: TC de crânio se déficit focal, angioTC se suspeita de dissecção/TEP) — não pedir "pacote genérico" sem raciocínio clínico
Prescrição-modelo
Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.
Soro
Se hipoperfusão não hemorrágica: cristaloide (preferir solução balanceada, se disponível, a salina 0,9%) em bólus, volume guiado por resposta clínica
Se choque hemorrágico (trauma): priorizar hemoderivados precoces conforme protocolo institucional de transfusão maciça, com hipotensão permissiva até controle da hemorragia — minimizar cristaloide
Medicamentos
Oxigênio suplementar (cateter nasal, máscara ou dispositivo de alto fluxo conforme gravidade) titulado para meta de saturação adequada ao contexto clínico
Glicose hipertônica IV se glicemia capilar baixa confirmada (ver verbete de hipoglicemia para conduta detalhada)
Analgesia conforme intensidade da dor, sem atrasar a estabilização das letras A-B-C
Referências
[1]American College of Surgeons Committee on Trauma — Advanced Trauma Life Support (ATLS) Student Course Manual, 11ª edição, 2025 (sequência primária xABCDE, com controle de hemorragia exsanguinante antes da via aérea)
[2]American Heart Association — Guidelines for CPR and ECC, 2025 (suporte avançado de vida)
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.