Paciente em parada cardiorrespiratória no PS. Como conduzir a ressuscitação de forma sistemática, do reconhecimento ao pós-ROSC?
Red flags — sinais de gravidade
Interromper compressões por mais que o mínimo necessário (checagem de ritmo, choque, via aérea avançada) — interrupção prolongada é um dos principais erros que reduzem sobrevida
Compressões de profundidade ou frequência inadequadas, ou sem permitir retorno completo do tórax — qualidade da RCP é o principal determinante de desfecho, mais do que qualquer droga
Não reconhecer e tratar causa reversível (5H/5T) — parada que não responde a medidas padrão quase sempre tem causa reversível não tratada
Atraso na desfibrilação em ritmo chocável — cada minuto de atraso reduz sobrevida
Hiperventilação durante via aérea avançada (aumenta pressão intratorácica, reduz retorno venoso e débito cardíaco gerado pelas compressões)
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Reconhecer PCR (irresponsivo, sem respiração normal ou gasping, sem pulso central palpável em até 10 segundos)
Iniciar RCP de alta qualidade imediatamente (compressões antes de qualquer outra coisa)
Monitorizar e identificar o ritmo o mais rápido possível (desfibrilador/monitor)
Definir se ritmo é chocável (FV/TV sem pulso) ou não chocável (assistolia/AESP)
Via aérea e ventilação compatíveis com o nível de treinamento da equipe, sem interromper compressões por tempo prolongado
Acesso venoso/intraósseo obtido sem interromper RCP
Pensar ativamente nos 5H e 5T durante toda a parada
Definir responsável por cada papel (compressão, via aérea, acesso, medicação, líder) e trocar compressor a cada 2 minutos
Conduta inicial
1Confirmar PCR: irresponsivo, sem respiração normal (ou apenas gasping), sem pulso central detectável rapidamente — não gastar mais que ~10 segundos checando pulso.
2Iniciar RCP imediatamente: compressões torácicas de alta qualidade (frequência e profundidade adequadas, permitindo retorno completo do tórax, minimizando interrupções), alternando compressor a cada 2 minutos para evitar fadiga.
3Conectar monitor/desfibrilador o mais rápido possível e identificar o ritmo.
4Se ritmo chocável (FV ou TV sem pulso): desfibrilar imediatamente com a energia seguindo o protocolo de escalonamento do fabricante do desfibrilador (não necessariamente a energia máxima do aparelho), retomar compressões imediatamente após o choque (sem checar pulso/ritmo antes de retomar), reavaliar ritmo a cada 2 minutos.
5Se ritmo não chocável (assistolia ou AESP): manter RCP contínua, administrar adrenalina o mais precocemente possível, reavaliar ritmo a cada 2 minutos, sem indicação de choque.
6Garantir via aérea e ventilação adequadas conforme disponibilidade/treinamento (bolsa-máscara com boa técnica é aceitável; via aérea avançada quando disponível, sem prolongar interrupção de compressões para isso).
7Obter acesso venoso (ou intraósseo se IV não for rapidamente disponível) sem interromper compressões.
8Buscar e tratar ativamente as causas reversíveis (5H e 5T) durante toda a ressuscitação: 5H — Hipovolemia, Hipóxia, Hidrogênio (acidose), Hipo/Hipercalemia, Hipotermia; 5T — Tensão no tórax (pneumotórax hipertensivo), Tamponamento cardíaco, Toxinas (intoxicação), Trombose coronariana (IAM), Trombose pulmonar (TEP maciço).
9Se retorno da circulação espontânea (ROSC): iniciar imediatamente cuidados pós-PCR — via aérea/ventilação com meta de normoxia e normocapnia (SpO2 90–98%), manutenção de PAM ≥65 mmHg (vasopressor se necessário), ECG de 12 derivações, controle direcionado de temperatura (32–37,5°C por pelo menos 36h — única intervenção pós-ROSC com benefício neurológico comprovado), tratar a causa identificada e encaminhar para UTI.
10Considerar interrupção dos esforços quando não houver ROSC após RCP de alta qualidade prolongada, ritmo persistentemente não chocável sem causa reversível tratável identificada, e ausência de fatores que justifiquem prolongar (ex.: hipotermia, intoxicação, gestante) — decisão sempre conjunta com o líder da equipe e considerando contexto clínico.
Exames
Glicemia capilar — sempre, é rápida e pode identificar causa reversível
Gasometria (durante ou imediatamente após RCP) — avalia acidose, oxigenação, potássio
ECG de 12 derivações pós-ROSC — identificar IAM com supra de ST como causa
Ecocardiograma à beira-leito (point-of-care), se disponível e sem interromper RCP — pode sugerir tamponamento, sobrecarga de VD (TEP) ou hipovolemia
Investigação dirigida à causa suspeita após ROSC (angioTC se TEP, cateterismo se IAM, etc.)
Prescrição-modelo
Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.
Medicamentos
Adrenalina IV/IO em bolus, repetida a cada 3–5 minutos durante a RCP conforme protocolo de ACLS, o mais precoce possível em ritmo não chocável e após o(s) primeiro(s) choque(s) em ritmo chocável refratário
Amiodarona (ou alternativa conforme protocolo local) IV/IO em FV/TV sem pulso refratária a choques
Bicarbonato de sódio considerado apenas em situações específicas (acidose grave preexistente, intoxicação por tricíclicos/bloqueador de canal de sódio; indicação em hipercalemia tem evidência mais fraca), não de rotina
Sulfato de magnésio se torsades de pointes
Pós-ROSC: vasopressor (ex.: noradrenalina) titulado por PAM se hipotensão; sedação/analgesia se via aérea avançada mantida
Referências
[1]American Heart Association — Guidelines for CPR and ECC (Adult Advanced Cardiovascular Life Support), 2025
[2]International Liaison Committee on Resuscitation (ILCOR) — Consensus on Science with Treatment Recommendations (CoSTR), versão mais recente disponível
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.