plantaoprescreverestudar

Anafilaxia — reconhecimento e tratamento

Paciente com suspeita de reação alérgica grave/anafilaxia. Qual é o tratamento de primeira linha e por quanto tempo preciso observar depois?

Red flags — sinais de gravidade

  • Estridor, edema de via aérea superior, rouquidão progressiva — risco de obstrução total de via aérea
  • Hipotensão, taquicardia, alteração de consciência — choque anafilático
  • Broncoespasmo grave associado
  • Progressão rápida dos sintomas em minutos
  • Erro que mata: tratar anafilaxia com anti-histamínico e/ou corticoide como primeira linha, atrasando ou substituindo a adrenalina — esses fármacos não revertem o choque nem o broncoespasmo grave com a rapidez necessária
  • Erro que mata: dar alta ao paciente imediatamente após melhora sem período de observação, sem considerar a possibilidade de reação bifásica horas depois
  • Erro que mata: hesitar em repetir a adrenalina IM por medo de efeitos adversos quando a resposta à primeira dose foi insuficiente
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Reconhecer anafilaxia (não exige urticária — pode haver apenas comprometimento respiratório ou hemodinâmico após exposição a alérgeno)
  • Adrenalina intramuscular IMEDIATA como primeira linha — não substituir por anti-histamínico ou corticoide
  • Remover/interromper o agente desencadeante, se identificável
  • Posicionar o paciente adequadamente (decúbito com elevação de membros inferiores se hipotenso; sentado se desconforto respiratório predominante, evitando posição em pé súbita)
  • Monitorizar e repetir adrenalina IM se necessário
  • Observação pós-tratamento prolongada pelo risco de reação bifásica

Conduta inicial

  1. 1Reconhecer anafilaxia: quadro agudo com envolvimento de pele/mucosas E comprometimento respiratório e/ou circulatório após exposição a alérgeno (ou suspeita), OU hipotensão isolada após exposição a alérgeno conhecido — não é obrigatório haver urticária/angioedema para o diagnóstico.
  2. 2Administrar adrenalina intramuscular imediatamente — é o tratamento de primeira linha, sem substituto, e deve ser feito antes de qualquer outra medicação.
  3. 3Remover o agente causador se ainda em contato (ex.: interromper infusão de medicamento, remover ferrão de inseto).
  4. 4Posicionar o paciente: decúbito dorsal com elevação de membros inferiores se hipotensão (evitar posição sentada/ereta nesse caso, risco de colapso); posição sentada se desconforto respiratório predominante sem hipotensão; gestantes em decúbito lateral.
  5. 5Oxigênio suplementar, monitorização contínua, acesso venoso calibroso, reposição volêmica com cristaloide em bólus se hipotensão.
  6. 6Reavaliar em poucos minutos — se resposta inadequada (persistência de hipotensão, broncoespasmo ou comprometimento de via aérea), repetir a adrenalina IM (pode ser necessário mais de uma dose) e considerar adrenalina em infusão contínua IV em ambiente monitorizado para casos refratários.
  7. 7Medicações adjuvantes (anti-histamínico, corticoide, broncodilatador inalatório se broncoespasmo) podem ser usadas como tratamento complementar, nunca como substituto da adrenalina e nunca antes dela.
  8. 8Manter observação prolongada após estabilização pelo risco de reação bifásica (recorrência dos sintomas horas após resolução inicial, sem nova exposição ao alérgeno) — tempo de observação conforme gravidade do episódio e protocolo local, sendo mais prolongado em reações graves, refratárias ou que exigiram múltiplas doses de adrenalina.
  9. 9Orientar e prescrever adrenalina autoinjetável (quando disponível) e referenciar para investigação alergológica ambulatorial na alta.

Exames

  • Monitorização contínua (oximetria, PA, FC) — não há exame laboratorial obrigatório para o diagnóstico, que é clínico
  • Triptase sérica (se disponível), colhida no momento agudo e repetida depois, pode auxiliar confirmação retrospectiva em casos de dúvida diagnóstica — não deve atrasar o tratamento
  • Exames de suporte conforme gravidade (gasometria se comprometimento respiratório importante, ECG se idoso/cardiopata pelo risco de evento cardíaco associado ao próprio quadro ou à adrenalina)

Prescrição-modelo

Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.

Soro

  • Cristaloide IV em bólus se hipotensão

Medicamentos

  • Adrenalina intramuscular (face anterolateral da coxa), 0,01 mg/kg de solução 1:1000 (máx. 0,5 mg no adulto, 0,3 mg na criança), repetível a cada 5–15 minutos conforme resposta clínica — primeira linha, sempre; ajustar por protocolo local se necessário
  • Adrenalina em infusão contínua IV em ambiente monitorizado para casos refratários a múltiplas doses IM, conforme protocolo institucional
  • Anti-histamínico (ex.: difenidramina ou equivalente) como adjuvante para sintomas cutâneos, nunca substituindo a adrenalina
  • Corticoide sistêmico (ex.: metilprednisolona ou hidrocortisona IV) como adjuvante para sintomas cutâneos/broncoespasmo persistente — sem evidência confiável de que previna reação bifásica, sem efeito imediato no choque
  • Broncodilatador inalatório se broncoespasmo associado

Referências

  1. [1]World Allergy Organization — Anaphylaxis Guidance 2020
  2. [2]AAAAI/ACAAI Joint Task Force — Anaphylaxis: A 2023 Practice Parameter Update

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

Criar conta

Quer receber os próximos verbetes por e-mail? Sem spam, cancela quando quiser.

Ver todos os verbetes