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Convulsão e estado de mal epiléptico

Paciente chegou convulsionando ou em pós-crise. Como conduzir se a crise persiste, e quando pensar em causa secundária tratável?

Red flags — sinais de gravidade

  • Crise convulsiva contínua ou crises repetidas sem recuperação completa da consciência entre elas — define estado de mal epiléptico, é emergência neurológica
  • Hipoglicemia não corrigida — causa reversível de convulsão recorrente
  • Febre associada — pensar em meningite/encefalite, especialmente se rigidez de nuca ou alteração de consciência persistente
  • Déficit focal pós-ictal que não resolve no tempo esperado — pensar em lesão estrutural (paralisia de Todd é diagnóstico de exclusão, não assumir sem investigar na primeira ocorrência)
  • Uso de anticonvulsivante irregular ou abandono de medicação — causa comum de recorrência, mas não dispensa avaliar outras causas se quadro atípico
  • Erro que mata: não tratar a crise persistente com benzodiazepínico por demora em "esperar passar"
  • Erro que mata: não checar glicemia capilar antes de assumir que é "só uma crise epiléptica conhecida"
  • Depressão respiratória cumulativa por doses repetidas de benzodiazepínico (especialmente após 2ª dose ou associação com outros depressores do SNC) — monitorizar via aérea, oxigenação e nível de consciência continuamente, e ter suporte ventilatório disponível ao escalonar doses
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Proteger via aérea e posicionar em decúbito lateral, sem forçar objetos na boca
  • Glicemia capilar imediata — obrigatória em toda convulsão
  • Cronometrar a duração da crise
  • Benzodiazepínico se crise persistente (não esperar a crise "passar sozinha" além do tempo aceitável)
  • Se crise persistir após benzodiazepínico, escalonar para droga de segunda linha
  • Investigar causa secundária (metabólica, estrutural, infecciosa, tóxica) em toda primeira crise ou crise atípica

Conduta inicial

  1. 1Proteger a via aérea: posicionar em decúbito lateral, aspirar secreções se necessário, não tentar conter os movimentos nem introduzir objetos na boca. Oxigênio suplementar.
  2. 2Glicemia capilar imediata — corrigir hipoglicemia se presente.
  3. 3Cronometrar a duração da crise desde o início (informação relatada ou observada).
  4. 45 minutos de atividade convulsiva contínua (ou crises repetidas sem recuperação da consciência entre elas) já definem estado de mal epiléptico — isso não é um ponto para "esperar completar", é o limiar que exige ação imediata: administrar benzodiazepínico sem demora (via IV se acesso disponível; via intramuscular, retal ou bucal/intranasal se acesso não disponível) — não atrasar por estar tentando obter acesso venoso a qualquer custo, e não aguardar os 5 minutos se a crise já está claramente estabelecida e prolongando-se.
  5. 5Se a crise não cessar após a primeira dose de benzodiazepínico, repetir conforme protocolo (em geral permite-se uma segunda dose) e, se ainda persistir, escalonar para droga de segunda linha (ex.: levetiracetam, fenitoína/fosfenitoína ou ácido valproico IV, conforme disponibilidade e perfil do paciente) — define estado de mal epiléptico estabelecido/refratário ao benzodiazepínico.
  6. 6Se a crise persistir mesmo após a segunda linha, considerar estado de mal epiléptico refratário, com necessidade de via aérea avançada, sedação contínua (ex.: midazolam, propofol ou barbitúrico em infusão) e monitorização em UTI, idealmente com eletroencefalograma contínuo.
  7. 7Investigar causa secundária em toda primeira crise, crise atípica para o paciente, ou estado de mal epiléptico: causas metabólicas (glicemia, sódio, cálcio, função renal/hepática), infecciosas (febre, rigidez de nuca, considerar punção lombar se suspeita de meningite/encefalite e sem contraindicação), estruturais (TC/RM de crânio se déficit focal novo, primeira crise, trauma ou suspeita de lesão), tóxicas (uso de substâncias, abstinência alcoólica) e relacionadas à adesão/níveis de anticonvulsivante em paciente já diagnosticado com epilepsia.
  8. 8Período pós-ictal: reavaliar nível de consciência e déficits seriadamente — confusão pós-ictal típica deve melhorar progressivamente; se não melhorar, reconsiderar estado de mal epiléptico não convulsivo (crise elétrica persistente sem manifestação motora evidente) e considerar eletroencefalograma.

Exames

  • Glicemia capilar — sempre, imediatamente
  • Eletrólitos (sódio, cálcio, magnésio), função renal e hepática
  • Gasometria — avaliar acidose associada à atividade convulsiva prolongada
  • Nível sérico de anticonvulsivante, se paciente já em uso crônico e suspeita de subdose/abandono
  • TC de crânio (e RM conforme disponibilidade/indicação) se primeira crise, déficit focal novo, trauma, febre ou crise atípica
  • Punção lombar se suspeita de meningite/encefalite, após excluir contraindicação (lesão expansiva, hipertensão intracraniana)
  • Eletroencefalograma se dúvida sobre estado de mal epiléptico não convulsivo ou para investigação etiológica

Prescrição-modelo

Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.

Medicamentos

  • Benzodiazepínico de primeira linha: diazepam IV/retal ou midazolam IM/IV/intranasal/bucal, em dose ajustada por peso — lorazepam IV é opção citada na literatura internacional, mas não tem apresentação parenteral registrada no Brasil (RENAME/ANVISA); diazepam e midazolam são as opções práticas nacionais
  • Segunda linha se crise persistente: levetiracetam IV, fenitoína/fosfenitoína IV (com monitorização cardíaca durante a infusão) ou ácido valproico IV, conforme protocolo institucional e perfil do paciente
  • Glicose hipertônica IV se hipoglicemia confirmada
  • Tiamina IV antes ou junto da glicose se suspeita de desnutrição/etilismo crônico (risco de encefalopatia de Wernicke)
  • Sedação contínua (midazolam, propofol ou barbitúrico em infusão) e via aérea avançada se estado de mal epiléptico refratário

Referências

  1. [1]American Epilepsy Society — Evidence-Based Guideline: Treatment of Convulsive Status Epilepticus in Children and Adults, 2016
  2. [2]Neurocritical Care Society — Guidelines for the Evaluation and Management of Status Epilepticus, 2012
  3. [3]Kapur J et al. — Randomized Trial of Three Anticonvulsant Medications for Status Epilepticus (ESETT), N Engl J Med 2019 (base de evidência para equivalência entre levetiracetam, fosfenitoína e ácido valproico na 2ª linha)

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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