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Hipoglicemia — reconhecimento e tratamento

Paciente com suspeita de hipoglicemia (rebaixamento de consciência, sudorese, confusão). Como tratar imediatamente e o que fazer se usa sulfonilureia?

Red flags — sinais de gravidade

  • Rebaixamento de consciência ou convulsão por hipoglicemia — tratar como emergência, via EV se disponível
  • Hipoglicemia em paciente usando sulfonilureia (ex.: glibenclamida) — meia-vida longa, risco real de recorrência mesmo após correção inicial, exige observação prolongada e glicemias seriadas
  • Hipoglicemia recorrente apesar de tratamento adequado — pensar em causa não identificada (insulina em excesso intencional ou acidental, insuficiência adrenal, sepse, insuficiência hepática/renal)
  • Ausência de melhora do nível de consciência mesmo após normalização da glicemia — buscar outra causa concomitante para o rebaixamento (não assumir que toda a alteração era só hipoglicemia)
  • Erro que mata: não checar glicemia capilar em paciente com rebaixamento de consciência de causa não esclarecida, atrasando uma correção simples e rapidamente reversível
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Glicemia capilar imediata — antes ou simultaneamente a qualquer outra medida
  • Avaliar nível de consciência para decidir via de administração (oral vs. EV)
  • Tratar imediatamente, sem esperar confirmação laboratorial se já houver glicemia capilar baixa compatível com o quadro clínico
  • Glucagon se não houver acesso venoso disponível e paciente incapaz de via oral
  • Reavaliar glicemia após o tratamento (resposta esperada em minutos)
  • Atenção especial se uso de sulfonilureia — risco de hipoglicemia recorrente e prolongada, exige observação mais longa

Conduta inicial

  1. 1Glicemia capilar imediata em todo paciente com rebaixamento de consciência, confusão, sudorese, taquicardia ou qualquer quadro neurológico agudo inexplicado.
  2. 2Se paciente consciente e capaz de deglutir com segurança: oferecer carboidrato de absorção rápida por via oral (ex.: açúcar, suco, tabletes de glicose), reavaliando a glicemia em 15 minutos.
  3. 3Se paciente com rebaixamento de consciência, incapaz de via oral segura, ou convulsão: administrar glicose hipertônica por via intravenosa.
  4. 4Se não houver acesso venoso disponível (e a via oral não for segura): administrar glucagon por via intramuscular ou subcutânea — eleva a glicemia por mobilização de glicogênio hepático, sendo menos eficaz em paciente com depleção de glicogênio (ex.: desnutrição grave, etilismo crônico, jejum prolongado).
  5. 5Reavaliar a glicemia capilar 10–15 minutos após a intervenção — resposta inadequada deve levar a repetir o tratamento e investigar causa adicional.
  6. 6Após a correção inicial, oferecer uma refeição ou carboidrato de absorção mais lenta para evitar nova queda da glicemia, especialmente antes de considerar a alta.
  7. 7Atenção especial ao uso de sulfonilureia: pelo efeito prolongado dessa classe, o paciente tem risco real de hipoglicemia recorrente horas depois, mesmo já corrigida a glicemia inicial — manter em observação com glicemias seriadas por período mais longo do que em hipoglicemia por insulina de ação rápida isolada, e considerar internação se a recorrência se confirmar.
  8. 8Investigar e tratar a causa precipitante: ajuste de dose de insulina/hipoglicemiante oral, ingesta alimentar inadequada, exercício não compensado, interação medicamentosa, função renal/hepática, ou outra causa menos comum se hipoglicemia recorrente sem explicação clara.

Exames

  • Glicemia capilar — exame inicial e de reavaliação, repetido seriadamente
  • Glicemia venosa laboratorial para confirmação, se houver dúvida ou discrepância clínica
  • Função renal e hepática — relevantes tanto como causa quanto pelo impacto na duração do efeito de hipoglicemiantes
  • Investigação adicional (insulina, peptídeo C, cortisol) se hipoglicemia recorrente sem causa evidente, fora do contexto agudo do PS

Prescrição-modelo

Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.

Dieta

  • Carboidrato de absorção rápida por via oral, se paciente consciente e deglutição segura

Soro

  • Manutenção com solução glicosada IV contínua se hipoglicemia por sulfonilureia ou risco de recorrência, mantendo glicemias seriadas até estabilização

Medicamentos

  • Glicose hipertônica IV em bolus — solução glicosada 50% (30 mL diluídos em 100 mL de SF 0,9%, por acesso calibroso pelo risco de lesão tecidual em extravasamento) ou solução glicosada 10% como alternativa com menor risco de hiperglicemia rebote —, seguida de manutenção com solução glicosada conforme reavaliação, se rebaixamento de consciência ou via oral não segura
  • Glucagon IM/SC se ausência de acesso venoso e via oral não segura
  • Tiamina IV se suspeita de desnutrição/etilismo crônico (risco de encefalopatia de Wernicke) — administrar concomitante ou logo após a glicose, NUNCA atrasando a correção da hipoglicemia com risco de vida para esperar a tiamina primeiro

Referências

  1. [1]American Diabetes Association — Standards of Care in Diabetes—2026, cap. 6 (Glycemic Goals, Hypoglycemia, and Hyperglycemic Crises)
  2. [2]Endocrine Society — Evaluation and Management of Adult Hypoglycemic Disorders, 2009
  3. [3]Ministério da Saúde — Linhas de Cuidado, Diabetes Mellitus Tipo 2, módulo Hipoglicemia; Sociedade Brasileira de Diabetes — Orientações sobre Hipoglicemia, 2025

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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