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Cetoacidose diabética e estado hiperosmolar hiperglicêmico

Paciente diabético chegou com hiperglicemia importante, podendo ser cetoacidose ou estado hiperosmolar. Por onde começo o tratamento e por que não posso simplesmente "fazer insulina"?

Red flags — sinais de gravidade

  • Potássio sérico baixo não corrigido antes de iniciar insulina — risco de arritmia fatal por hipocalemia abrupta
  • Rebaixamento importante de consciência, especialmente no estado hiperosmolar (frequentemente mais profundo que na cetoacidose, pela osmolaridade muito elevada)
  • Instabilidade hemodinâmica por desidratação grave
  • Acidose grave (pH muito baixo) ou hipotensão refratária à hidratação inicial
  • Fator precipitante grave não identificado (ex.: infarto, sepse, AVC) — sempre investigar, não assumir que "esqueceu a insulina" é a única causa
  • Uso de inibidor de SGLT2 (ex.: dapagliflozina, empagliflozina) — pode causar cetoacidose com glicemia pouco elevada ou normal (euglicêmica); não descartar CAD só pela glicemia se houver cetose/acidose
  • Erro que mata: iniciar insulina sem checar o potássio — pode causar hipocalemia grave e parada cardíaca por arritmia
  • Erro que mata: corrigir a glicemia rápido demais no estado hiperosmolar/cetoacidose, sem atenção à queda de osmolaridade, com risco de edema cerebral (especialmente relevante em crianças/adolescentes, mas a velocidade de correção deve ser controlada em qualquer idade)
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Confirmar o diagnóstico (glicemia elevada — ou próxima do normal em uso de inibidor de SGLT2, ver cetoacidose euglicêmica —, beta-hidroxibutirato elevado/cetonúria e acidose na cetoacidose; glicemia muito elevada com osmolaridade alta e pouca ou nenhuma cetose no estado hiperosmolar)
  • Hidratação venosa é o primeiro passo, antes ou junto do início de qualquer outra terapia
  • Checar o potássio sérico ANTES de iniciar insulina — insulina pode precipitar hipocalemia grave e arritmia se o potássio já estiver baixo/limítrofe
  • Repor potássio se necessário antes ou concomitante ao início da insulina
  • Investigar ativamente o fator precipitante (infecção é a causa mais comum)
  • Monitorizar glicemia, potássio e estado clínico de forma seriada durante todo o tratamento

Conduta inicial

  1. 1Confirmar o quadro: glicemia capilar/laboratorial (pode estar pouco elevada ou quase normal em cetoacidose euglicêmica, associada a uso de inibidor de SGLT2 — não descartar CAD só pela glicemia baixa se houver cetose/acidose), gasometria (acidose metabólica), beta-hidroxibutirato quantitativo (preferencial, se disponível) ou cetonúria, e cálculo da osmolaridade efetiva — cetoacidose tipicamente com acidose significativa e cetose proeminente; estado hiperosmolar tipicamente com glicemia muito mais elevada, osmolaridade muito alta e cetose ausente ou discreta, mais comum em diabetes tipo 2 e idosos.
  2. 2Hidratação venosa vigorosa com cristaloide como primeira medida — corrige a hipovolemia, melhora a perfusão e já começa a reduzir a glicemia por diluição e melhora da filtração renal, antes mesmo da insulina.
  3. 3Checar o potássio sérico antes de iniciar insulina. Se potássio baixo, repor potássio antes (ou junto, conforme protocolo) de iniciar a insulina — a insulina desloca potássio para o intracelular e pode precipitar hipocalemia grave se o nível já estiver reduzido ou no limite inferior. Se potássio muito elevado (raro, mas possível na acidose grave antes da reposição de volume/insulina), a insulina pode ser iniciada com monitorização mais próxima, sem reposição adicional de potássio até reavaliação.
  4. 4Iniciar insulina regular em infusão contínua IV (padrão para CAD moderada/grave e para EHH) somente após checagem do potássio, com meta de queda gradual e controlada da glicemia — não é objetivo "zerar" a glicemia rapidamente. Em CAD leve/moderada não complicada, insulina subcutânea em leito não-crítico é alternativa validada, evitando internação em UTI desnecessária.
  5. 5Reposição de potássio na fluidoterapia de manutenção conforme dosagens seriadas, mesmo que o valor inicial estivesse normal, pois tende a cair durante o tratamento.
  6. 6Considerar reposição de bicarbonato apenas em acidose extremamente grave conforme protocolo local — não é rotina na maioria dos casos.
  7. 7Identificar e tratar o fator precipitante ativamente — infecção é a causa mais comum (buscar foco), mas também considerar má adesão a insulina, infarto, AVC, pancreatite, uso de certas medicações e, em diabetes tipo 1, descompensação por doença intercorrente.
  8. 8Transição de insulina IV para subcutânea somente após resolução da acidose/cetose (cetoacidose) ou melhora clínica e da osmolaridade com glicemia controlada (estado hiperosmolar), com sobreposição adequada entre as vias para evitar rebote hiperglicêmico/cetose.
  9. 9Monitorização seriada: glicemia capilar, eletrólitos (especialmente potássio), gasometria/anion gap e estado neurológico, em intervalos frequentes durante a fase aguda.

Exames

  • Glicemia capilar seriada
  • Gasometria (arterial ou venosa) e anion gap
  • Eletrólitos completos, com ênfase em potássio seriado — exame mais crítico para guiar a segurança da insulinoterapia
  • Beta-hidroxibutirato quantitativo (preferencial, se disponível) ou cetonúria
  • Osmolaridade sérica (calculada ou medida)
  • Função renal
  • Investigação do fator precipitante: hemograma, exame de urina, radiografia de tórax, ECG, culturas conforme suspeita clínica de foco infeccioso, marcadores de IAM se indicado

Prescrição-modelo

Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.

Soro

  • Cristaloide IV (solução fisiológica 0,9% ou solução balanceada) em volume e velocidade ajustados ao grau de desidratação e à resposta hemodinâmica
  • Reposição de potássio (cloreto de potássio) adicionada à fluidoterapia conforme nível sérico seriado, antes ou simultaneamente ao início da insulina se potássio baixo/limítrofe
  • Reposição de fósforo e magnésio conforme dosagem, se indicado

Medicamentos

  • Insulina regular em infusão contínua IV, em dose titulada por glicemia capilar seriada, iniciada apenas após avaliação do potássio
  • Antibioticoterapia empírica se foco infeccioso identificado/suspeito como fator precipitante

Referências

  1. [1]American Diabetes Association / EASD / JBDS / AACE / DTS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes: A Consensus Report, 2024 (Diabetes Care 2024;47(8):1257-1275)
  2. [2]Sociedade Brasileira de Diabetes — Diagnóstico e Tratamento da Cetoacidose Diabética (2023) e Manejo da Síndrome Hiperglicêmica Hiperosmolar (2025)

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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