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Crise hipertensiva — urgência vs. emergência

Paciente chegou com PA muito elevada. Como diferenciar se é só uma urgência hipertensiva ou se já é uma emergência com lesão de órgão-alvo, e por que não posso simplesmente "baixar a pressão"?

Red flags — sinais de gravidade

  • Dor torácica ou dorsal sugestiva de dissecção de aorta — meta de PA e frequência cardíaca específicas e controle rigoroso e rápido, diferente da maioria das outras emergências hipertensivas
  • Déficit neurológico focal, cefaleia intensa, alteração de consciência — pensar em AVC (isquêmico ou hemorrágico) ou encefalopatia hipertensiva; atenção especial pois no AVC isquêmico a meta de PA costuma ser mais permissiva, ao contrário de outras emergências (ver verbete de AVC agudo)
  • Dispneia com estertores, ortopneia — edema agudo de pulmão por crise hipertensiva
  • Dor torácica isquêmica associada — síndrome coronariana aguda hipertensiva
  • Alterações visuais, cefaleia, convulsão em gestante — pensar em pré-eclâmpsia grave/eclâmpsia, conduta específica
  • Cefaleia em crise, sudorese, palpitações e PA muito lábil/paroxística — pensar em crise de feocromocitoma (também exceção à regra dos 25%, com controle específico e cautela com betabloqueio isolado)
  • Lesão renal aguda associada
  • Erro que mata: reduzir a PA de forma rápida e agressiva em urgência hipertensiva (sem lesão de órgão-alvo) — pode causar hipoperfusão cerebral, renal ou coronariana sem benefício comprovado
  • Erro que mata: reduzir a PAM em mais de ~25% na primeira hora em emergência hipertensiva geral (fora das exceções de dissecção de aorta, AVC e eclâmpsia) — "regra dos 25%" como parâmetro de segurança contra queda abrupta
  • Erro que mata: tratar toda PA elevada da mesma forma, sem buscar ativamente sinais de lesão de órgão-alvo que mudariam completamente a conduta e a urgência do tratamento
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Medir a PA novamente, com técnica adequada, antes de qualquer decisão (erro de medida é comum)
  • Buscar ativamente sinais/sintomas de lesão aguda de órgão-alvo (não basta o valor da PA)
  • Diferenciar urgência hipertensiva — PA muito elevada, sem lesão aguda de órgão-alvo (as diretrizes AHA 2024/2025 preferem chamá-la de "hipertensão assintomática muito elevada" / "hipertensão severa", reservando o termo urgência ao uso histórico) — de emergência hipertensiva (PA elevada COM lesão aguda de órgão-alvo)
  • Não reduzir a PA de forma agressiva/rápida sem indicação específica — risco de hipoperfusão de órgãos já adaptados a PA cronicamente elevada
  • Definir via de tratamento (oral ambulatorial vs. IV monitorizado em emergência) conforme a classificação

Conduta inicial

  1. 1Confirmar a medida da PA com técnica adequada (manguito de tamanho correto, paciente em repouso, repetir a medida) — valores isolados mal aferidos geram condutas desnecessárias.
  2. 2Avaliar sintomas e buscar ativamente sinais de lesão aguda de órgão-alvo: exame neurológico (déficit focal, confusão, cefaleia intensa), cardiovascular (dor torácica, dispneia, sinais de congestão, assimetria de pulsos), renal (diurese, função renal), exame de fundo de olho se disponível (papiledema, hemorragias), e em gestantes, sinais de pré-eclâmpsia/eclâmpsia.
  3. 3Classificar: urgência hipertensiva — PA muito elevada, sem evidência de lesão aguda de órgão-alvo em curso; emergência hipertensiva — PA elevada associada a lesão aguda de órgão-alvo (encefalopatia hipertensiva, AVC, síndrome coronariana aguda, edema agudo de pulmão, dissecção de aorta, lesão renal aguda, eclâmpsia, entre outras).
  4. 4Se urgência hipertensiva: tratamento com anti-hipertensivo oral, com redução gradual da PA ao longo de horas a dias (não em minutos), reavaliação ambulatorial ou em observação breve, sem necessidade de internação na maioria dos casos — o objetivo não é "zerar" a PA na sala de emergência.
  5. 5Se emergência hipertensiva: internação (frequentemente em UTI), anti-hipertensivo IV titulável e em infusão contínua, com meta de redução da PA específica para a condição associada (a velocidade e o alvo variam conforme o órgão-alvo afetado): dissecção de aorta — redução rápida (PAS-alvo < 120 mmHg em ~20 min) e controle rigoroso de frequência cardíaca (60–80 bpm); AVC isquêmico — abordagem geralmente mais permissiva, salvo se candidato à trombólise (ver verbete de AVC agudo); AVC hemorrágico — alvo de PAS ~130–140 mmHg (meta intensiva, com alvo absoluto de PA, não uma redução por percentual como a regra dos 25%); crise de feocromocitoma — controle específico, evitando betabloqueio isolado sem alfabloqueio prévio; edema agudo de pulmão, síndrome coronariana aguda, encefalopatia hipertensiva e demais emergências hipertensivas gerais — regra dos 25%: reduzir a PAM em no máximo ~25% na primeira hora, depois em direção a < 160/100 mmHg nas 2–6h seguintes e à normalização (130–140 mmHg) em 24–48h, com reavaliação clínica contínua; exceção feita à dissecção de aorta, AVC, eclâmpsia e feocromocitoma, que têm metas próprias, já descritas acima.
  6. 6Identificar e tratar a causa ou o fator agravante quando aplicável (dor não controlada, ansiedade, abandono de tratamento anti-hipertensivo crônico, uso de substâncias simpaticomiméticas).
  7. 7Reavaliação contínua da resposta ao tratamento e do estado do órgão-alvo afetado, ajustando a velocidade de infusão conforme a meta específica da condição, não por um valor fixo único de PA para todos os quadros. Como parâmetro geral de segurança nas emergências hipertensivas que não tenham meta específica mais agressiva (dissecção de aorta, AVC, eclâmpsia): não reduzir a PAM em mais de ~25% na primeira hora ("regra dos 25%"), para evitar hipoperfusão de órgãos adaptados à PA cronicamente elevada.

Exames

  • ECG — avaliar isquemia, sobrecarga
  • Função renal e eletrólitos
  • Exame de urina (proteinúria, hematúria) — relevante especialmente em suspeita renal ou pré-eclâmpsia
  • Radiografia de tórax — sinais de congestão, alargamento de mediastino se suspeita de dissecção
  • Angiotomografia de aorta se suspeita de dissecção
  • TC de crânio se déficit neurológico ou cefaleia intensa
  • Troponina se dor torácica ou suspeita de síndrome coronariana
  • Fundo de olho, se disponível, em suspeita de emergência hipertensiva sem outra causa clara de lesão de órgão-alvo já identificada

Prescrição-modelo

Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.

Medicamentos

  • Urgência hipertensiva: anti-hipertensivo oral (ex.: classes já em uso pelo paciente, ou inibidor de enzima conversora de angiotensina, bloqueador de canal de cálcio, conforme perfil), com reavaliação em horas, sem infusão IV
  • Emergência hipertensiva: anti-hipertensivo IV titulável em infusão contínua (ex.: nicardipina ou labetalol — preferidos por serem mais tituláveis; nitroprussiato de sódio ainda é opção amplamente disponível no Brasil, mas com risco de toxicidade por cianeto/tiocianato em infusão prolongada ou alta dose e contraindicado na gestação), conforme disponibilidade local e contraindicações de cada classe, com monitorização contínua de PA e ajuste conforme meta específica da condição associada
  • Dissecção de aorta: associação de betabloqueador IV (controle de frequência cardíaca) com vasodilatador IV, evitando vasodilatador isolado sem controle de frequência cardíaca (pode aumentar a força de cisalhamento aórtica)
  • Analgesia adequada quando dor for fator contribuinte para a elevação da PA

Referências

  1. [1]American Heart Association — Scientific Statement on the Management of Elevated Blood Pressure in the Acute Care Setting, 2024
  2. [2]2025 AHA/ACC/multisociety guideline for the prevention, detection, evaluation and management of high blood pressure in adults
  3. [3]Sociedade Brasileira de Cardiologia — diretrizes de hipertensão arterial

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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