Como indicar e realizar a passagem de sonda nasogástrica?
Red flags — sinais de gravidade
Rebaixamento de consciência, via aérea desprotegida ou reflexo de tosse/vômito ausente ANTES da inserção — contraindicação relativa explícita à passagem nasal sem via aérea garantida; risco aumentado de mau posicionamento traqueal/pulmonar e de aspiração, exige avaliação de proteção de via aérea antes de proceder
Trauma facial grave, rinorreia clara, equimose periorbital bilateral ("olhos de guaxinim") ou sinal de Battle — suspeitar de fratura de base de crânio; via nasal contraindicada, preferir via orogástrica
Tosse, engasgo ou dificuldade respiratória durante a passagem — suspeitar de posicionamento em via aérea, retirar e reposicionar
Resistência importante à progressão — não forçar, reavaliar trajeto
Conteúdo aspirado com aspecto/pH não compatível com gástrico, ou ausência de confirmação radiológica antes de iniciar dieta — risco de pneumonia aspirativa por sonda mal posicionada; NUNCA liberar dieta/medicação com base apenas em ausculta epigástrica, sobretudo em paciente com rebaixamento de consciência ou reflexo de tosse ausente — administrar dieta/medicação por sonda mal posicionada não detectada é classificado como Never Event (evento sentinela evitável) pela NHS England
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Confirmar indicação (descompressão, dieta enteral, lavagem, administração de medicação)
Avaliar nível de consciência e reflexo de tosse/proteção de via aérea ANTES de inserir — rebaixamento de consciência, via aérea desprotegida ou reflexo de tosse ausente são contraindicação relativa à via nasal sem via aérea garantida; reavaliar indicação/via e necessidade de proteção prévia
Avaliar trauma facial grave ou suspeita de fratura de base de crânio antes de optar pela via nasal
Escolher calibre adequado à indicação (descompressão vs. dieta)
Medir comprimento estimado antes da inserção (nariz–lóbulo da orelha–apêndice xifoide)
Confirmar posicionamento por radiografia antes de liberar dieta/medicação — obrigatório (não apenas recomendado) em paciente com rebaixamento de consciência, reflexo de tosse ausente ou qualquer dúvida sobre trajeto; ausculta epigástrica isolada NÃO confirma posicionamento
Conduta inicial
1Indicações: descompressão gástrica (obstrução intestinal, íleo, pré-operatório selecionado), administração de dieta enteral em paciente sem condição de via oral, administração de medicação quando via oral não é viável, lavagem gástrica em situações específicas, controle de débito em sangramento digestivo alto.
2Contraindicações/cuidados: rebaixamento de nível de consciência, via aérea desprotegida ou reflexo de tosse/vômito ausente — contraindicação relativa explícita à passagem por via nasal antes da inserção; nesses casos avaliar necessidade de proteção de via aérea (ex.: intubação) antes ou durante o procedimento, pelo risco de mau posicionamento e aspiração; trauma facial grave ou suspeita de fratura de base de crânio contraindicam a via nasal — preferir via orogástrica nesses casos; varizes esofágicas conhecidas (cuidado redobrado, evitar trauma de mucosa); obstrução ou estenose esofágica (neoplasia, corpo estranho) — contraindicação; ingestão recente de cáustico ou suspeita de lesão esofágica — evitar a passagem às cegas pelo risco de perfuração/falso trajeto, avaliar endoscopia/especialista; obstrução de via aérea superior; cirurgia nasal/esofágica recente.
3Materiais necessários: sonda do calibre adequado à indicação, lubrificante hidrossolúvel, seringa de 20–60 mL, copo com água (se paciente cooperativo e via oral segura para deglutir), fita/fixador, estetoscópio, fonte de aspiração se indicação de descompressão.
4Técnica passo a passo: medir o trajeto estimado (da ponta do nariz ao lóbulo da orelha e até o apêndice xifoide), lubrificar a sonda, introduzir pela narina (ou pela boca, se via orogástrica) direcionando posteriormente, pedir para o paciente deglutir/oferecer pequenos sorvos de água conforme a sonda avança pela orofaringe, progredir até a marca estimada, parar e reavaliar se houver tosse ou desconforto respiratório importante.
5Confirmação de sucesso/posicionamento: testar o aspirado com fita de pH é o método auxiliar de 1ª linha à beira-leito — pH ≤ 5,5 sugere posição gástrica (NHS); já a ausculta de ruído hidroaéreo ("whoosh test") NÃO deve ser usada isoladamente (pode ser falsamente positiva mesmo com a sonda em via aérea/pulmão). A radiografia de abdome/tórax confirmando a ponta da sonda no estômago é OBRIGATÓRIA antes de liberar dieta ou medicação quando não se obtém aspirado, quando o pH é > 5,5 (inclusive por uso de IBP ou dieta contínua, que elevam o pH), em paciente com rebaixamento de consciência ou reflexo de tosse ausente, ou em qualquer dúvida sobre o trajeto — nesse subgrupo é exigência categórica, não apenas "o método mais seguro" entre opções equivalentes.
6Cuidados pós-procedimento: fixação adequada sem tracionar a narina, registro do comprimento externo, manter cabeceira elevada durante uso para dieta, checar posicionamento periodicamente e sempre que houver dúvida (tosse, vômito, mudança de fixação).
Exames
Radiografia de abdome ou tórax: confirmação do posicionamento da ponta da sonda antes de iniciar dieta/medicação — obrigatória, não opcional, em paciente com nível de consciência reduzido, reflexo de tosse ausente, via aérea protegida artificialmente ou qualquer dúvida sobre o trajeto; ausculta epigástrica isolada não substitui esse exame
Prescrição-modelo
Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.
Medicamentos
Lubrificante hidrossolúvel/anestésico tópico nasal, se disponível e indicado, para reduzir desconforto da passagem
Recomendações
Não há indicação rotineira de antibioticoprofilaxia para a passagem de sonda nasogástrica
Referências
[1]NHS Improvement/NPSA — Nasogastric tube misplacement: continuing risk of death and severe harm (NPSA/2011/PSA002; NHS/PSA/RE/2016/006) e NHS England — Never Events list (confirmação de posicionamento por pH/RX antes da 1ª administração)
[2]ASPEN — NOVEL Project: Nasogastric Tube Placement and Verification (competency model para adultos; recomendações pediátricas em documento específico)
[3]ATLS — Advanced Trauma Life Support (manejo de trauma facial/crânio na escolha da via de sondagem)
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável. Procedimento deve ser realizado por profissional habilitado/sob supervisão adequada.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.