Como indicar e realizar a sutura de ferida no pronto-socorro?
Red flags — sinais de gravidade
Ferida com tempo prolongado desde a lesão ou alta contaminação — maior risco de infecção, considerar fechamento primário tardio ou cuidados diferenciados em vez de sutura imediata
Sinais de lesão de estrutura profunda (déficit motor/sensitivo distal, sangramento pulsátil, perda de função) — avaliação especializada antes de suturar
Suspeita de corpo estranho retido não visualizado ao exame — considerar exploração ou imagem antes do fechamento
Mordedura (animal ou humana) — manejo diferenciado de profilaxia antibiótica e, se aplicável, antirrábica
Ferida com sinais já presentes de infecção (eritema, secreção purulenta, calor local) — não suturar sobre infecção ativa
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Avaliar tempo desde a lesão (referência ~6–8h, até 12–24h em face/couro cabeludo) e grau de contaminação da ferida
Investigar presença de corpo estranho e avaliar lesão de estruturas profundas (tendão, nervo, vaso)
Confirmar status vacinal antitetânico e necessidade de profilaxia
Escolher técnica de sutura adequada ao local e à tensão da ferida
Definir orientação de retirada de pontos conforme a região anatômica
Orientar sinais de alarme de infecção antes da alta
Conduta inicial
1Indicações: ferida traumática limpa ou minimamente contaminada, com tempo desde a lesão compatível com fechamento primário — referência geral de até 6–8h da lesão para a maioria das feridas (podendo se estender até 12–24h em face/couro cabeludo, por melhor vascularização, e exigindo maior cautela em extremidades/mãos/feridas muito contaminadas), sempre individualizado pelo grau de contaminação e mecanismo —, sem sinais de infecção estabelecida, sem lesão profunda que exija reparo especializado prioritário.
2Contraindicações/cuidados: ferida muito contaminada, com tempo prolongado desde a lesão, mordedura (maior risco infeccioso, decisão individualizada sobre suturar ou deixar aberta), sinais de infecção já instalada, suspeita de lesão de tendão/nervo/vaso (avaliação especializada antes do fechamento simples da pele), corpo estranho retido não removido.
3Materiais necessários: antissépticos, anestésico local, fio de sutura (calibre e tipo conforme a região), porta-agulha, pinça, tesoura, gaze, soro para irrigação abundante da ferida, material de curativo.
4Avaliação da ferida: tempo desde a lesão, mecanismo (corte limpo, esmagamento, mordedura, perfurocortante), grau de contaminação, presença de corpo estranho, avaliação de função motora/sensitiva e vascularização distal à lesão, irrigação abundante com soro antes de decidir pelo fechamento.
5Anestesia local: infiltração local ao redor da ferida ou bloqueio de campo/de nervo periférico conforme a região, respeitando dose máxima conforme peso.
6Técnicas básicas: sutura simples interrompida para a maioria das feridas de pele; ponto de Donati (ou Donati modificado) para bordas com maior tensão ou necessidade de eversão; sutura intradérmica contínua para resultado estético em feridas de baixa tensão e bordas bem aproximadas.
7Confirmação de sucesso: bordas bem aproximadas sem espaços mortos, hemostasia adequada, ausência de tensão excessiva nos pontos, função distal preservada.
8Cuidados pós-procedimento: curativo conforme protocolo, orientação de higiene da ferida, retorno se sinais de infecção, orientação clara da data de retirada de pontos.
9Mordedura (animal/humana) — além do cuidado da ferida, lavar imediatamente com água e sabão e avaliar profilaxia antirrábica pelo protocolo MS/PNI: classificar o acidente em LEVE (mordedura/arranhadura única e superficial em tronco/membros, exceto mãos, pés, polpa digital, face, cabeça e pescoço; lambedura de pele com lesão superficial) ou GRAVE (ferimento profundo, múltiplo ou extenso; em cabeça, face, pescoço, mãos, polpa digital ou planta do pé; lambedura de mucosa/pele lesada; qualquer contato com morcego ou animal silvestre); avaliar o animal agressor (cão/gato sadio passível de observação por 10 dias vs. suspeito/doente/desaparecido/silvestre). Conforme classificação e animal, indicar observação, esquema de vacina antirrábica (D0/D3/D7/D14) e/ou soro antirrábico (IGHAR 20 UI/kg ou SAR 40 UI/kg, infiltrado nas portas de entrada), e notificar a vigilância epidemiológica.
Exames
Radiografia simples, se suspeita de corpo estranho radiopaco (vidro, metal) ou fratura associada
Não há exame de rotina para ferida simples sem sinais de alarme
Prescrição-modelo
Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.
Medicamentos
Anestesia local infiltrativa ou bloqueio (ex.: lidocaína com ou sem vasoconstritor, conforme a região), dose conforme peso e limite tóxico — a orientação clássica de evitar vasoconstritor em extremidades terminais (dedos, orelha, nariz, pênis) vem sendo revista: séries grandes não associaram lidocaína+epinefrina comercial a necrose digital em pacientes sem doença vascular, e a fentolamina reverte vasoconstrição prolongada; manter cautela e seguir protocolo local, evitando em vasculopatia/isquemia prévia
Profilaxia antitetânica (CDC / MS-PNI): ferida limpa e superficial — vacina (dT/dTpa) apenas se esquema incompleto (< 3 doses ou desconhecido) ou última dose há ≥ 10 anos, sem imunoglobulina; ferida de risco (contaminada, profunda, mordedura, esmagamento, perfurante, corpo estranho, tecido desvitalizado) — vacina se < 3 doses/desconhecido ou última dose há ≥ 5 anos, associando imunoglobulina antitetânica (IGHAT 250 UI IM; ou SAT 5.000 UI se IGHAT indisponível) quando o esquema for < 3 doses ou desconhecido; se vacina e imunoglobulina forem indicadas juntas, aplicar em seringas e sítios diferentes
Antibioticoprofilaxia sistêmica não é rotina para ferida limpa simples — considerar em feridas muito contaminadas, mordeduras, lesão em paciente imunossuprimido ou ferida com corpo estranho não totalmente removido, conforme protocolo local; em mordedura, quando indicada, a primeira escolha é amoxicilina-clavulanato (cobre Pasteurella, anaeróbios e flora oral), tipicamente por 3–5 dias, com alternativas em alérgicos conforme protocolo
Analgesia oral para o período pós-sutura, conforme intensidade da dor esperada
Referências
[1]CDC — Clinical Guidance for Wound Management to Prevent Tetanus (atualizado 2024)
[2]ATLS — Advanced Trauma Life Support (avaliação inicial de ferida traumática)
[3]Ministério da Saúde — calendário e protocolo de profilaxia antitetânica
[4]Ministério da Saúde / PNI — Normas Técnicas de Profilaxia da Raiva Humana (classificação do acidente, esquema vacinal e soro antirrábico)
[5]TelessaúdeRS-UFRGS / BVS APS — antibioticoprofilaxia em mordeduras (amoxicilina-clavulanato)
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável. Procedimento deve ser realizado por profissional habilitado/sob supervisão adequada.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.