Alta do pronto-socorro — critérios seguros e documentação
Quais critérios garantem que a alta do pronto-socorro é segura, e o que precisa constar no termo de alta?
Red flags — sinais de gravidade
Alta dada com sinal vital ainda alterado "porque o paciente quer ir para casa"
Resultado de exame relevante ainda pendente, sem plano explícito de quem cobra e o que fazer com o resultado
Dor não controlada com a medicação que será usada em casa
Ausência de suporte social/capacidade de retorno em caso de piora (paciente sozinho, sem meio de retornar)
Quadro com red flag específica do diagnóstico ainda não excluída (ex.: dor abdominal sem causa definida, cefaleia com características de alarme)
Idoso com polifarmácia, fragilidade ou risco de queda recebendo alta sem ajuste/reconciliação da medicação habitual
Sinais de risco psiquiátrico/suicida, ou suspeita de violência doméstica, não triados ou não encaminhados antes da alta
Alta dada antes de cumprir o tempo mínimo de observação esperado após procedimento/sedação/medicação (ex.: paciente ainda sonolento, sob efeito de sedativo/opioide, ou sem tempo suficiente para monitorar reação alérgica/efeito adverso)
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Sinais vitais estáveis e compatíveis com o basal do paciente
Dor controlada com analgesia oral/via compatível com uso domiciliar
Tolerância de dieta e deambulação compatíveis com o quadro (quando aplicável)
Ausência de red flags pendentes de investigação ou de resposta a tratamento
Exames críticos já revisados (nenhum resultado relevante ainda pendente sem plano definido)
Orientações de sinais de alarme para retorno explicadas e registradas
Retorno ambulatorial ou reavaliação agendado, quando indicado
Medicação de alta prescrita de forma clara (nome, dose, via, intervalo, duração)
Reconciliação medicamentosa feita (medicações de uso domiciliar mantidas, suspensas ou ajustadas, e interações com a medicação de alta verificadas)
Tempo mínimo de observação pós-procedimento/pós-medicação respeitado antes da liberação
Triagem de populações de maior risco na alta (idosos, polifarmácia, risco psiquiátrico/suicida, suspeita de violência doméstica) feita e, se positiva, plano específico definido
Paciente/acompanhante demonstrou entendimento das orientações
Conduta inicial
1Reavaliar sinais vitais imediatamente antes da alta — devem estar estáveis e, idealmente, próximos do basal do paciente.
2Confirmar controle adequado da dor com a medicação que será prescrita para casa (testar resposta à via oral antes de liberar, quando possível).
3Avaliar tolerância de dieta oral e capacidade de deambulação compatíveis com o diagnóstico e a idade do paciente, quando isso for relevante para a segurança da alta.
4Revisar se há red flag do quadro inicial ainda não afastada; se houver qualquer dúvida diagnóstica relevante, reavaliar antes de liberar.
5Confirmar que todos os exames críticos já têm resultado revisado; se algum exame ainda está pendente, definir explicitamente quem cobra o resultado e qual a conduta a depender do achado.
6Orientar verbalmente e por escrito: diagnóstico (ou hipótese), sinais de alarme específicos que justificam retorno imediato ao PS, cuidados gerais (repouso, dieta, curativo, restrição de atividade se aplicável).
7Definir e registrar retorno ambulatorial/reavaliação quando indicado (especialidade, prazo sugerido).
8Prescrever a medicação de alta de forma completa e legível (nome, dose, via, intervalo, duração do tratamento).
9Preencher o termo de alta/relatório de atendimento com: diagnóstico, resumo do atendimento, orientações dadas, medicação prescrita, sinais de alarme para retorno e encaminhamento/retorno agendado.
10Confirmar que o paciente ou acompanhante entendeu as orientações (pedir para repetir os principais sinais de alarme, se possível).
11Fazer reconciliação medicamentosa: revisar a medicação de uso domiciliar habitual, decidir explicitamente o que será mantido, suspenso ou ajustado, e checar interação com a medicação de alta recém-prescrita.
12Respeitar tempo mínimo de observação após procedimento, sedação ou administração de medicação potencialmente sedativa/com risco de reação adversa (ex.: período de observação após analgesia opioide, sedação para procedimento, antibiótico/medicação nova com risco alérgico) antes de liberar — o intervalo varia conforme a droga/procedimento e deve seguir o protocolo local; o gatilho de liberação após sedação é o retorno ao estado de consciência basal com sinais vitais estáveis (ex.: escore de Aldrete modificado), não apenas o tempo decorrido.
13Triar ativamente populações de maior risco na alta — idosos (especialmente com polifarmácia, fragilidade ou risco de queda), risco psiquiátrico/suicida (avaliar ideação, plano, intenção e acesso a meios letais) e suspeita de violência doméstica (entrevistar em privacidade, longe do acompanhante, com checagem de letalidade) — e, se identificado, acionar o fluxo específico (avaliação psiquiátrica; notificação compulsória e rede de proteção — violência contra a mulher: Lei 10.778/2003, alterada pela Lei 13.931/2019, que obriga comunicação à autoridade policial em até 24h; violência autoprovocada/tentativa de suicídio: Lei 13.819/2019; demais violências, inclusive contra homem/idoso/criança: notificação SINAN; ajuste de plano de cuidado) antes de liberar.
Exames
Revisar todos os exames solicitados durante o atendimento antes de liberar; nenhum resultado crítico deve ficar pendente sem plano de seguimento definido
Não solicitar exames novos apenas para "garantir" a alta sem indicação clínica — mas também não liberar com exame pendente sem critério claro
Prescrição-modelo
Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.
Medicamentos
Analgesia oral compatível com a intensidade da dor já testada antes da alta
Demais medicações de alta conforme o diagnóstico (ex.: antibiótico oral, antiemético), com nome, dose, via, intervalo e duração explícitos
Recomendações
Evitar prescrever medicação injetável/via não disponível em domicílio sem necessidade clara
Sinais de alarme para retorno, orientações de cuidado geral e retorno ambulatorial registrados
Triagem de populações de maior risco (idoso/polifarmácia, risco psiquiátrico/suicida, suspeita de violência doméstica) registrada, com plano específico se positiva
Referências
[1]ACEP — Policy Statement: Safe Discharge from the Emergency Department, 2019 (define a alta como decisão clínica do emergencista; não enumera critérios — não existe diretriz nacional de critérios de alta do PS, os itens deste verbete seguem prática consagrada)
[3]Resolução CFM nº 2.174/2017 — ato anestésico; critérios de alta da recuperação pós-anestésica (Aldrete/retorno ao basal)
[4]Lei nº 10.778/2003, alterada pela Lei nº 13.931/2019 — notificação compulsória de violência contra a mulher e comunicação à autoridade policial em até 24h
[5]Lei nº 13.819/2019 — notificação compulsória de violência autoprovocada (automutilação/tentativa de suicídio)
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.