Trauma cervical, torácico, abdominal e pélvico — exame secundário dirigido por região
Politraumatizado já estabilizado no ABCDE. Como conduzo o exame secundário dirigido por região (coluna cervical, tórax, abdome, pelve) e quando cada achado muda a conduta?
Red flags — sinais de gravidade
Déficit neurológico focal ou dor em linha média cervical: manter imobilização, não liberar coluna sem imagem
Tórax instável (retalho costal) ou enfisema subcutâneo maciço: risco de lesão pulmonar/via aérea associada
Turgência jugular + bulhas abafadas + hipotensão (tríade de Beck): suspeitar de tamponamento cardíaco — a tríade completa é pouco sensível e tardia; sua ausência não exclui, o eFAST é o exame de escolha
Fratura pélvica instável com choque: hemorragia retroperitoneal — não repetir manobra de compressão pélvica, estabilizar com cinta/lençol e acionar cirurgia/radiologia intervencionista
Sangue no meato uretral, hematoma perineal/escrotal ou próstata não palpável: suspeitar de lesão uretral, não passar sonda vesical antes de uretrografia retrógrada
Abdome com defesa progressiva ou instabilidade hemodinâmica sem outra causa evidente: reavaliar FAST e considerar laparotomia
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Confirmar que o ABCDE primário está concluído e o paciente estabilizado antes de aprofundar o exame secundário
Coluna cervical: manter colar até exame completo; palpar linha média em busca de dor, degrau ósseo ou crepitação; avaliar déficit motor/sensitivo e nível
Tórax: inspeção (assimetria, afundamento, ferimentos), palpação de arcos costais e clavículas, ausculta bilateral, percussão (macicez vs. timpanismo)
Abdome: inspeção de equimoses (cinto de segurança, Cullen, Grey-Turner), palpação de defesa/dor, FAST à beira-leito
Pelve: inspeção de assimetria/encurtamento de membro, NÃO comprimir asas ilíacas repetidamente se já houver suspeita de instabilidade (risco de deslocar coágulo) — uma manobra suave é suficiente
Toque retal e exame de períneo se suspeita de trauma pélvico ou lesão uretral associada
Reavaliação seriada — lesões podem não estar evidentes no primeiro exame
Conduta inicial
1Só iniciar o exame secundário regional após ABCDE completo e paciente estabilizado (ou em paralelo, se houver equipe suficiente, sem atrasar reanimação).
2Coluna cervical: manter colar cervical até exclusão clínica por NEXUS (5 critérios de baixo risco: sem dor em linha média, sem déficit neurológico, alerta, sem intoxicação, sem lesão distratora) OU Canadian C-spine Rule (atenção: Canadian exige TC de coluna para pacientes ≥65 anos, independentemente de outros critérios) — ou por imagem (TC de coluna cervical) se critério clínico não puder ser aplicado.
3Tórax: procurar retalho costal, enfisema subcutâneo, ferimentos penetrantes, sinais de tamponamento (tríade de Beck) — qualquer instabilidade hemodinâmica com tórax alterado pode ser PTX hipertensivo ou hemotórax maciço (ver verbetes específicos) ou tamponamento cardíaco.
4Abdome: FAST à beira-leito; se instável e FAST positivo, laparotomia de urgência; se estável, TC de abdome/pelve com contraste para definir conduta (ver verbete de trauma abdominal para detalhamento).
5Pelve: se suspeita de fratura instável (mecanismo de alto impacto, dor, assimetria, choque sem outra fonte), estabilizar com cinta pélvica/lençol ao nível dos trocânteres (sem supertensionar, sobretudo em padrões de compressão lateral) antes de qualquer mobilização, evitar manobras repetidas de estresse pélvico, acionar ortopedia e considerar, conforme disponibilidade e resposta, packing pré-peritoneal, REBOA zona III (uso experimental — o único RCT disponível, UK-REBOA Trial, JAMA 2023, foi interrompido precocemente: mortalidade 54% vs 42% com REBOA; probabilidade estimada de 86,9% de que REBOA aumenta mortalidade — não usar fora de centro especializado com protocolo prospectivo aprovado) e/ou angioembolização se sangramento arterial na TC.
6Toque retal e exame perineal quando houver suspeita de trauma pélvico, penetrante de reto ou lesão uretral — não atrasar reanimação para isso.
7Documentar achados negativos também — a ausência de sinais no primeiro exame não exclui lesão, reavaliar em poucas horas.
Exames
TC de coluna cervical: mecanismo de alto impacto, incapacidade de avaliação clínica confiável (rebaixamento, intoxicação, distração) ou dor/déficit ao exame
TC de tórax com contraste: dúvida diagnóstica após Rx/USG ou mecanismo de alto impacto
FAST (USG à beira-leito): triagem inicial de líquido livre em abdome, tórax e pericárdio
TC de abdome e pelve com contraste: paciente estável para definir extensão de lesões abdominais e pélvicas
Rx de pelve: triagem rápida em politraumatizado instável antes de TC, se disponível no fluxo de reanimação
Prescrição-modelo
Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.
Dieta
Jejum até definição diagnóstica
Soro
Cristaloide aquecido conforme estado volêmico; sangue precocemente se sinais de choque hemorrágico
Medicamentos
Analgesia conforme escala de dor — não atrasar por medo de mascarar exame, reavaliar clinicamente
Ácido tranexâmico EV se <3h do trauma e choque hemorrágico (1 g EV em 10 min, seguido de 1 g em 8 h), conforme protocolo
Recomendações
Manter colar cervical e cinta pélvica até liberação formal
Reavaliação seriada do exame secundário
Exames
Hemograma, coagulograma, tipagem e provas cruzadas
Gasometria arterial com lactato
Referências
[1]ATLS — Advanced Trauma Life Support, 11ª edição (2025) — nomenclatura xABCDE (controle de hemorragia exsanguinante antes da via aérea)
[2]EAST — Practice Management Guideline: Hemorrhage in Pelvic Fracture (Cullinane et al., 2011)
[3]WSES — Pelvic Trauma Guidelines (World Journal of Emergency Surgery, 2017; DOI 10.1186/s13017-017-0117-6)
[4]WSES-AAST Guidelines on thoracic trauma, World Journal of Emergency Surgery, 2025 (DOI 10.1186/s13017-025-00651-1)
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.