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Intoxicação por paracetamol — nomograma e N-acetilcisteína

Paciente chega com relato de ingestão de paracetamol em dose supraterapêutica. Quando tratar com N-acetilcisteína e como usar o nomograma de Rumack-Matthew?

Red flags — sinais de gravidade

  • Dosar paracetamol antes de 4h e descartar intoxicação com nível baixo (ainda em absorção)
  • Aguardar alteração de enzimas hepáticas para iniciar NAC — tratamento é preventivo, não espera dano estabelecido
  • Ingestão escalonada ou crônica em uso de nomograma de dose única (não se aplica)
  • Atraso no início da NAC além de 8h da ingestão — eficácia cai progressivamente
  • Paciente assintomático nas primeiras horas sendo liberado sem histórico de horário/dose confiável
  • Não reconhecer hepatotoxicidade tardia (pico de TGO/TGP em 72-96h)
  • Ingestão maciça (>500 mg/kg) com necrose hepática fulminante de instalação precoce
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Definir horário exato da ingestão — nomograma só é válido a partir de 4h pós-ingestão de dose única aguda
  • Estimar dose ingerida (mg/kg) — risco relevante acima de 150 mg/kg ou 10g em adulto
  • Colher paracetamol sérico com 4h (ou o mais próximo possível) e plotar no nomograma de Rumack-Matthew
  • Pedir TGO/TGP, bilirrubinas, INR, função renal, gasometria e lactato de base
  • Diferenciar ingestão aguda única de ingestão escalonada/crônica — nomograma não se aplica a esta última
  • Investigar coingestão (álcool, outros analgésicos, benzodiazepínicos)
  • Reavaliar necessidade de NAC mesmo com história vaga ou horário incerto — na dúvida, tratar

Conduta inicial

  1. 1Ingestão aguda única, horário conhecido, dosagem com 4h: plotar no nomograma de Rumack-Matthew — linha de tratamento a partir de 150 mcg/mL em 4h (ou 200 mcg/mL na linha de referência clássica, usar a linha de tratamento local do serviço).
  2. 2Acima da linha de tratamento: iniciar N-acetilcisteína (NAC) o quanto antes.
  3. 3NAC oral (protocolo clássico 72h): ataque 140 mg/kg VO, depois 70 mg/kg VO 4/4h por 17 doses.
  4. 4NAC endovenosa (protocolo mais usado): ataque 150 mg/kg em 200mL SG5% em 1h, manutenção 50 mg/kg em 500mL SG5% em 4h, depois 100 mg/kg em 1000mL SG5% em 16h.
  5. 5Horário de ingestão desconhecido, incerto ou ingestão escalonada/crônica com sintomas ou risco: não esperar nomograma — iniciar NAC empiricamente.
  6. 6Apresentação além de 24h com sinais de lesão hepática (TGP elevada, INR alargado): manter/iniciar NAC independente do nível sérico — benefício mesmo tardio.
  7. 7Considerar carvão ativado 1g/kg VO se ingestão há menos de 1-2h e via aérea protegida.
  8. 8Falência hepática fulminante: acionar centro de transplante precocemente (critérios de King's College).

Exames

  • Paracetamol sérico (nível quantitativo) com 4h da ingestão — repetir se dúvida sobre absorção
  • TGO/TGP, bilirrubinas, fosfatase alcalina
  • INR/TAP — melhor marcador precoce de gravidade hepática
  • Função renal, eletrólitos, glicemia
  • Gasometria arterial e lactato — acidose metabólica é sinal de gravidade
  • Beta-HCG em mulheres em idade fértil
  • Rastreio de coingestão se suspeita (salicilato, etanol)

Prescrição-modelo

Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.

Dieta

  • Jejum se via oral não segura ou vômitos importantes
  • Dieta livre após estabilização

Soro

  • SG5% como veículo da NAC conforme protocolo (1h / 4h / 16h)
  • Hidratação EV de manutenção

Medicamentos

  • N-acetilcisteína EV: 150 mg/kg em 1h, 50 mg/kg em 4h, 100 mg/kg em 16h (protocolo padrão)
  • Antiemético (ondansetrona) se náusea/vômitos limitando NAC oral ou tolerância
  • Carvão ativado 1g/kg VO se ingestão recente (<1-2h) e via aérea protegida

Recomendações

  • Monitorizar reação anafilactoide à NAC (rash, broncoespasmo) principalmente na fase de ataque
  • Reavaliar função hepática e coagulograma diariamente até normalização
  • Interconsulta psiquiátrica se tentativa de autoextermínio

Exames

  • TGO/TGP, INR e função renal seriados a cada 24h
  • Paracetamol sérico de controle se dúvida diagnóstica

Referências

  1. [1]American College of Medical Toxicology / American Academy of Clinical Toxicology — Consensus Statement on the Management of Acetaminophen Poisoning, 2023
  2. [2]Rumack BH, Matthew H. Acetaminophen poisoning and toxicity. Pediatrics, 1975 (nomograma original de Rumack-Matthew)

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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