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Intoxicações exógenas — síndromes toxicológicas gerais (tricíclicos, benzodiazepínicos, opioides, estimulantes)

Paciente com rebaixamento de consciência ou agitação de causa não esclarecida, suspeita de intoxicação exógena. Como reconhecer a síndrome toxicológica e conduzir?

Red flags — sinais de gravidade

  • QRS alargado (>100ms) em intoxicação por tricíclico sem tratamento com bicarbonato de sódio
  • Flumazenil em paciente com uso crônico de benzodiazepínico ou coingestão com tricíclico — risco de convulsão refratária
  • Naloxona em dose alta de bolus em usuário crônico de opioide — síndrome de abstinência aguda grave
  • Não monitorizar QT prolongado em intoxicação por estimulantes ou antipsicóticos associados
  • Agitação por estimulantes tratada só com contenção física sem sedação química — risco de rabdomiólise e hipertermia
  • Alta hospitalar precoce sem observação de síndrome de abstinência ou toxicidade tardia (liberação de depósito, formulação de liberação prolongada)
  • Não repetir ECG seriado em intoxicação por tricíclicos — QRS pode alargar horas depois
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • ABCDE primeiro — via aérea, ventilação e circulação antes de qualquer investigação toxicológica
  • Reconhecer o toxidrome pelo padrão de sinais vitais, pupilas, pele e neurológico
  • Perguntar/buscar frascos, receitas, histórico psiquiátrico, tentativa de autoextermínio prévia
  • ECG em toda suspeita de tricíclico — QRS alargado é a chave
  • Glicemia capilar sempre — hipoglicemia mimetiza rebaixamento por intoxicação
  • Considerar coingestão — raramente é uma substância isolada
  • Avaliar necessidade de antídoto específico (naloxona, flumazenil, bicarbonato) com critério, não automaticamente
  • Acionar o CIATox / Disque-Intoxicação 0800 722 6001 para apoio à decisão toxicológica quando houver dúvida de conduta, antídoto ou substância
  • Definir necessidade de descontaminação (carvão ativado) conforme tempo e substância

Conduta inicial

  1. 1Estabilização ABCDE: proteger via aérea se Glasgow ≤8, O2 suplementar, acesso venoso calibroso, monitorização contínua.
  2. 2Toxidrome anticolinérgico/tricíclico: taquicardia, midríase, pele seca, retenção urinária, QRS alargado — bicarbonato de sódio 1-2 mEq/kg EV em bolus se QRS >100ms ou arritmia, titulando para pH 7,50-7,55 e reavaliando o estreitamento do QRS.
  3. 3Toxidrome sedativo-hipnótico (benzodiazepínicos): rebaixamento, hipotonia, pupilas geralmente normais (a miose puntiforme é do toxidrome opioide, não do BZD), sinais vitais preservados — suporte ventilatório, flumazenil reservado para casos selecionados sem risco de convulsão.
  4. 4Toxidrome opioide: miose puntiforme, bradipneia, rebaixamento — naloxona com alvo de restaurar a ventilação, não o nível de consciência; no dependente crônico iniciar baixo (0,04-0,1mg EV) e titular a cada 2-3min, 0,4-2mg EV/IM/IN no não-dependente; repetir/infundir conforme a meia-vida curta do antídoto.
  5. 5Toxidrome simpaticomimético (cocaína, anfetaminas): agitação, midríase, taquicardia, hipertermia, hipertensão — benzodiazepínico como base; não usar betabloqueador não-seletivo isolado como primeira linha (a controvérsia do 'alfa sem oposição' é hoje considerada em grande parte teórica; se necessário controle pressórico, preferir vasodilatador).
  6. 6Descontaminação com carvão ativado 1g/kg VO — o tempo útil é específico por fármaco/formulação (CTRC 2025), não uma regra fixa de 1 hora: maior benefício quanto mais precoce, mas a janela se estende em toxinas de absorção prolongada (ex.: carbamazepina, fenobarbital, salicilatos, teofilina, valproato, verapamil, formulações de liberação prolongada, anticolinérgicos); sempre com via aérea protegida; não intubar apenas para administrar carvão.
  7. 7Investigar e corrigir hipoglicemia, hipóxia e distúrbios hidroeletrolíticos concomitantes.
  8. 8Reavaliação clínica e ECG seriados — muitos quadros evoluem nas primeiras horas de observação.

Exames

  • ECG seriado — QRS, QT, arritmias
  • Glicemia capilar imediata
  • Gasometria arterial e lactato
  • Função renal, eletrólitos, CPK (risco de rabdomiólise em agitação/estimulantes)
  • Rastreio toxicológico de urina se disponível (baixa sensibilidade e especificidade — não deve guiar conduta isoladamente)
  • Paracetamol e salicilato séricos em toda tentativa de autoextermínio (coingestão silenciosa é comum)
  • Beta-HCG em mulheres em idade fértil

Prescrição-modelo

Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.

Dieta

  • Jejum até avaliação de nível de consciência e proteção de via aérea

Soro

  • Hidratação EV conforme estado volêmico e função renal

Medicamentos

  • Bicarbonato de sódio 8,4% 1-2 mEq/kg EV em bolus se QRS alargado por tricíclico
  • Naloxona em toxidrome opioide — 0,4-2mg EV/IM/IN no não-dependente; iniciar 0,04-0,1mg EV e titular a cada 2-3min no dependente crônico
  • Benzodiazepínico (diazepam ou midazolam) para agitação por estimulantes ou abstinência
  • Flumazenil apenas em cenário selecionado (sem uso crônico de BZD, sem coingestão de pró-convulsivante)

Recomendações

  • Monitorização cardíaca contínua e ECG seriado nas intoxicações por tricíclico ou estimulante
  • Reavaliar nível de consciência e padrão respiratório a cada 15-30min na fase aguda
  • Interconsulta psiquiátrica em toda tentativa de autoextermínio antes da alta

Exames

  • ECG de controle após medidas específicas
  • Eletrólitos e função renal de controle

Referências

  1. [1]Goldfrank's Toxicologic Emergencies, 12ª edição (2024)
  2. [2]2023 AHA Focused Update on the Management of Patients With Cardiac Arrest or Life-Threatening Toxicity Due to Poisoning (Circulation 2023;148:e149-e184; DOI 10.1161/CIR.0000000000001161)
  3. [3]Clinical Toxicology Recommendations Collaborative (CTRC) — recomendações sobre carvão ativado na sobredose oral aguda (Clinical Toxicology, 2025)

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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