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Grandes queimados — avaliação inicial e reposição volêmica

Paciente vítima de queimadura extensa. Como avaliar a superfície corporal queimada e calcular a reposição volêmica inicial?

Red flags — sinais de gravidade

  • Atrasar intubação em suspeita de lesão inalatória — edema de via aérea evolui rápido e pode inviabilizar via aérea difícil depois
  • Superestimar ou subestimar SCQ — muda diretamente o volume de reposição e desfecho
  • Reposição volêmica calculada da hora de chegada ao invés da hora da queimadura
  • Uso de gelo para resfriar a queimadura — piora lesão tecidual e hipotermia
  • Não reconhecer síndrome compartimental em queimadura circunferencial — risco de isquemia de membro
  • Não suspeitar de intoxicação por CO/cianeto em vítima de incêndio em ambiente fechado com rebaixamento de consciência
  • Queimadura elétrica tratada como queimadura térmica simples — dano interno pode ser desproporcional à lesão de pele visível, monitorizar arritmia e rabdomiólise
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • ABCDE de trauma primeiro — queimadura de via aérea/inalação é a prioridade que mata mais rápido que a lesão cutânea
  • Estimar superfície corporal queimada (SCQ) — regra dos nove (adulto) ou palma da mão do paciente (~1% SCQ)
  • Classificar profundidade: 1º grau (não entra no cálculo de SCQ para reposição), 2º grau superficial/profundo, 3º grau
  • Suspeitar de lesão de via aérea por inalação: queimadura facial, fuligem em narinas/orofaringe, rouquidão, escarro carbonáceo, história de ambiente fechado
  • Calcular reposição volêmica pela fórmula de Parkland a partir do momento da queimadura, não da chegada ao PS
  • Remover roupas e joias, interromper o processo de queimadura (água corrente, nunca gelo)
  • Investigar intoxicação por monóxido de carbono e cianeto em queimadura em ambiente fechado
  • Avaliar necessidade de escarotomia em queimadura circunferencial de tórax/membros

Conduta inicial

  1. 1ABCDE: proteger via aérea precocemente se sinais de lesão inalatória (não esperar estridor instalado), O2 100% suplementar, 2 acessos venosos calibrosos (preferir área não queimada).
  2. 2Interromper o processo de queimadura: remover roupas/joias, irrigar com água corrente em temperatura ambiente por 10-20min (não gelo).
  3. 3Estimar SCQ pela regra dos nove ou tabela de Lund-Browder (mais precisa, principalmente em criança).
  4. 4Reposição volêmica — fórmula de Parkland: 4 mL x peso (kg) x %SCQ de Ringer Lactato nas primeiras 24h, metade nas primeiras 8h contadas a partir da hora da queimadura, metade nas 16h seguintes.
  5. 5Guiar reposição pelo débito urinário-alvo: 0,5 mL/kg/h em adulto, 1 mL/kg/h em criança — ajustar infusão conforme resposta, não só pela fórmula.
  6. 6Analgesia potente precoce (opioide EV) — dor de queimadura é intensa e subtratada.
  7. 7Avaliar queimadura circunferencial de tórax (restrição ventilatória) ou membros (síndrome compartimental) — escarotomia se indicada.
  8. 8Curativo local com cobertura estéril, manter normotermia (queimado grande perde calor rápido).

Exames

  • Gasometria arterial com carboxi-hemoglobina se suspeita de intoxicação por CO
  • Lactato — marcador de perfusão e gravidade, útil também para triagem de intoxicação por cianeto
  • Função renal, eletrólitos, CPK (rabdomiólise em queimadura elétrica)
  • Hemograma, coagulograma
  • ECG em queimadura elétrica (risco de arritmia)
  • Raio-X de tórax se suspeita de lesão inalatória ou trauma associado

Prescrição-modelo

Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.

Dieta

  • Jejum inicial se grande queimado ou necessidade de via aérea
  • Suporte nutricional precoce (enteral) após estabilização — hipermetabolismo do grande queimado

Soro

  • Ringer Lactato conforme fórmula de Parkland, ajustado por débito urinário
  • Reavaliação volêmica horária nas primeiras 24h

Medicamentos

  • Analgesia potente (opioide EV, ex. morfina ou fentanil) titulada por dor
  • Profilaxia antitetânica conforme situação vacinal
  • Antibiótico tópico ou sistêmico apenas se sinais de infecção — não é rotina profilática

Recomendações

  • Sondagem vesical de demora para monitorizar débito urinário horário
  • Manter normotermia — cobertores, ambiente aquecido
  • Avaliação precoce de cirurgia plástica/queimados para desbridamento e enxertia

Exames

  • Função renal e eletrólitos de controle a cada 12-24h
  • Gasometria de controle se instabilidade

Referências

  1. [1]American Burn Association — Advanced Burn Life Support (ABLS) Course Manual
  2. [2]ATLS — Advanced Trauma Life Support, 10ª edição, capítulo de queimaduras
  3. [3]Sociedade Brasileira de Queimaduras — Consenso Nacional de Normatização de Atendimento ao Queimado (CNNAQ)

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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