Paciente com temperatura central baixa após exposição ao frio ou imersão. Como classificar a gravidade e reaquecer com segurança?
Red flags — sinais de gravidade
Manuseio brusco do paciente hipotérmico grave — risco de fibrilação ventricular refratária
Declarar óbito em PCR + hipotermia grave sem reaquecer antes de encerrar esforços (exceto lesões incompatíveis com vida)
RCP com compressões em paciente com pulso presente mas muito lento (pode levar minutos para detectar) — confirmar ausência de pulso por tempo suficiente
Reaquecimento ativo de superfície agressivo em hipotermia grave sem reaquecimento central concomitante — risco de afterdrop e colapso circulatório
Não considerar desfibrilação ineficaz abaixo de 30°C — miocárdio hipotérmico responde mal, pode precisar reaquecer até limiar antes de repetir choques
Não investigar causa subjacente (álcool, hipoglicemia, sepse) atribuindo tudo à exposição ao frio
Retirar roupas molhadas sem secar e isolar adequadamente, perpetuando perda de calor
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Medir temperatura central real (esofágica ou retal) — termômetro de pele/axilar subestima em hipotermia
Classificar por estágio (Swiss staging): leve (32-35°C, tremula, consciente), moderada (28-32°C, rebaixamento, sem tremor), grave (<28°C, risco de PCR)
Manusear o paciente com extremo cuidado — movimentação brusca pode precipitar fibrilação ventricular no coração hipotérmico
Verificar pulso por até 60 segundos antes de iniciar RCP — bradicardia extrema pode ser confundida com PCR
Remover roupas molhadas e isolar do frio/vento imediatamente
Investigar causa associada (intoxicação, trauma, hipoglicemia, sepse, hipotireoidismo) — hipotermia raramente é isolada em paciente de rua/idoso
Reaquecer de forma gradual e monitorizada — reaquecimento rápido tem risco de choque de reaquecimento (afterdrop)
Lembrar do princípio 'ninguém está morto até estar quente e morto' — não interromper reanimação só pela hipotermia grave
Conduta inicial
1Manuseio cuidadoso e mínimo — mover o paciente delicadamente, monitorização cardíaca contínua desde o primeiro contato.
2Remover roupas molhadas, secar a pele, isolar com cobertores/mantas térmicas, ambiente aquecido.
3Hipotermia leve (32-35°C, consciente, tremula): reaquecimento passivo externo (cobertores) + reaquecimento ativo externo (mantas térmicas, bolsas de água morna em áreas de troca de calor — axilas, virilha, pescoço).
4Hipotermia moderada (28-32°C): reaquecimento ativo externo + fluidos EV aquecidos (38-42°C), cuidado redobrado com manuseio.
5Hipotermia grave (<28°C) ou instabilidade: reaquecimento ativo interno (fluidos aquecidos, O2 umidificado aquecido, se disponível métodos extracorpóreos/ECMO em centro de referência).
6PCR em hipotermia grave: RCP contínua, desfibrilação conforme protocolo (pode ser refratária abaixo de 30°C — seguir reaquecendo e repetindo), considerar ECMO/circulação extracorpórea como ponte se disponível.
7Verificar e corrigir hipoglicemia — comum em hipotermia, especialmente em desnutridos/etilistas.
8Monitorização contínua de temperatura central durante todo o reaquecimento — evitar reaquecimento excessivo/rápido demais.
Exames
Temperatura central contínua (esofágica ou retal)
Glicemia capilar
Eletrólitos, função renal — distúrbios comuns (hipercalemia é sinal de mau prognóstico em hipotermia grave)
Gasometria arterial (interpretar com cautela — valores não são corrigidos rotineiramente pela temperatura na maioria dos serviços)
ECG — procurar onda de Osborn (onda J), arritmias
Coagulograma — coagulopatia induzida pelo frio
Rastreio toxicológico e etilometria se suspeita
Prescrição-modelo
Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.
Dieta
Jejum até estabilização e avaliação de nível de consciência
Soro
Fluidos EV aquecidos (38-42°C) conforme estado volêmico — evitar Ringer Lactato em hipotermia grave com disfunção hepática (metabolismo do lactato prejudicado), preferir SF 0,9%
Medicamentos
Correção de hipoglicemia se identificada (glicose hipertônica EV)
Analgesia conforme necessidade, com cautela em doses (metabolismo hepático lentificado pelo frio)
Recomendações
Reaquecimento gradual — meta de 0,5-2°C/hora, evitar reaquecimento excessivamente rápido
Monitorização cardíaca contínua durante todo o reaquecimento pelo risco de arritmia
Investigar e tratar causa associada (exposição ambiental, intoxicação, endocrinopatia, trauma)
Exames
Temperatura central e eletrólitos seriados durante o reaquecimento
ECG de controle
Referências
[1]Wilderness Medical Society — Clinical Practice Guidelines for the Out-of-Hospital Evaluation and Treatment of Accidental Hypothermia: 2019 Update
[2]European Resuscitation Council Guidelines — cardiac arrest in special circumstances (hypothermia)
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.