Paciente com dor suprapúbica, incapacidade de urinar e bexiga distendida. Como conduzo a retenção urinária aguda?
Red flags — sinais de gravidade
Sondagem vesical forçada em suspeita de lesão uretral (sangue no meato, trauma pélvico) — pode criar falsa via, avaliar urologia antes
Retenção urinária associada a sintomas neurológicos (anestesia em sela, déficit motor) não investigada como possível síndrome da cauda equina
Drenagem maciça rápida sem monitorização — risco de hipotensão e hematúria ex-vacuo por descompressão súbita
Retenção com febre/sinais de infecção tratada só com sondagem sem cobertura antibiótica quando indicada
Não investigar causa de base e apenas aliviar a retenção sem definir seguimento (retenção recorrente sem plano)
Função renal alterada por retenção prolongada não investigada
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Confirmar diagnóstico: dor/desconforto suprapúbico, incapacidade de urinar, globo vesical palpável/percutível, ou bladder scan com volume elevado
Investigar causa: hiperplasia prostática benigna (causa mais comum em homens), obstrução por cálculo/coágulo, uso de medicações (anticolinérgicos, opioides), pós-operatório, causa neurológica (bexiga neurogênica)
Investigar suspeita de lesão uretral antes de tentar sondagem — sangue no meato, trauma pélvico/perineal, próstata não palpável ou elevada ao toque retal (ver verbete de sondagem vesical)
Avaliar sinais de infecção associada (febre, dor, urina turva) — retenção com infecção é mais grave
Considerar causa neurológica (síndrome da cauda equina, lesão medular) se houver outros sinais associados — não tratar isoladamente como problema urológico simples
Definir volume drenado inicial — drenagem maciça (>1L) tem risco de hematúria ex-vacuo e hipotensão pós-descompressão
Conduta inicial
1Confirmar ausência de contraindicação à sondagem (sinais de lesão uretral) antes de proceder — ver verbete de sondagem vesical de demora.
2Sondagem vesical de alívio/demora para descompressão — se lesão uretral suspeita, avaliação urológica antes de tentar a passagem (considerar punção suprapúbica).
3Drenagem controlada: se volume inicial muito elevado (>1L), monitorizar sinais vitais pela possibilidade de hipotensão pós-descompressão; clampeamento intermitente não tem evidência robusta de benefício e não deve atrasar o alívio.
4Investigar e tratar causa de base: revisar medicações em uso (suspender anticolinérgicos/opioides se possível), avaliar hiperplasia prostática, considerar causa neurológica se sinais associados.
5Antibiótico se sinais de infecção urinária associada.
6Analgesia conforme necessidade.
7Encaminhamento urológico para investigação e definição de conduta definitiva: em suspeita de HPB, iniciar alfabloqueador e manter sonda por pelo menos 48h antes de tentar a retirada (trial without catheter), tentativa geralmente entre 2-7 dias — retirar sonda antes disso reduz a taxa de sucesso.
Exames
Bladder scan (USG vesical) para confirmar volume retido antes/depois da sondagem
Função renal e eletrólitos: avaliar repercussão de obstrução prolongada
Urina tipo I e urocultura se suspeita de infecção
PSA não deve ser solicitado na fase aguda de retenção (elevação transitória inespecífica)
Prescrição-modelo
Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever.
Dieta
Dieta livre conforme tolerância
Soro
Hidratação venosa se poliúria pós-obstrutiva significativa após a drenagem
Medicamentos
Alfabloqueador (tansulosina) para facilitar teste de retirada da sonda em suspeita de HPB, conforme protocolo
Antibiótico se sinais de infecção urinária associada
Analgesia conforme necessidade
Recomendações
Monitorizar débito urinário nas horas seguintes à descompressão — poliúria pós-obstrutiva pode ocorrer
Manter sonda por pelo menos 48h com alfabloqueador antes de tentar retirada (TWOC), geralmente entre 2-7 dias
Encaminhamento urológico para investigação da causa e definição de conduta definitiva
Exames
Função renal de controle após descompressão
Bladder scan de controle antes de nova tentativa de retirada de sonda
Referências
[1]American Urological Association — Management of Lower Urinary Tract Symptoms Attributed to Benign Prostatic Hyperplasia (BPH) Guideline
[2]European Association of Urology — Guidelines on Non-neurogenic Male LUTS
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.