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Risco de suicídio no PS: avaliação e agitação associada
Paciente chegou por tentativa de suicídio ou com ideação ativa — como estruturar a avaliação de risco, quando pedir internação involuntária e o que usar se estiver agitado?
Red flags — sinais de gravidade
Ideação ativa com plano estruturado e meios disponíveis
Tentativa de suicídio em curso ou muito recente (agora ou nas últimas horas)
Agitação grave/não colaborativo com risco a si ou à equipe
Recusa total de contato/avaliação em paciente com alto risco aparente — não liberar sozinho
Intoxicação exógena associada (avaliar gravidade clínica antes de tudo)
Histórico de tentativa prévia grave + crise atual não resolvida
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Perguntar direto sobre ideação, plano, intenção e acesso a meios letais (arma, medicação em casa) — pergunta direta não aumenta risco e é a base da avaliação
Levantar tentativa prévia — é um dos preditores mais fortes de nova tentativa/óbito
Aplicar C-SSRS (ou escala equivalente do serviço) como triagem inicial — nenhuma escala isolada substitui avaliação clínica completa (ACEP 2017, nível C)
Checar estressores agudos, uso de álcool/substâncias, impulsividade, transtorno mental agudo e fatores de proteção (rede de apoio, vínculos)
Buscar informação de terceiros (família, quem trouxe o paciente) sempre que possível
Confirmar remoção de meios letais no ambiente (objetos cortantes, medicações) antes de qualquer coisa
Acionar avaliação psiquiátrica presencial — a escala orienta, não decide
Conduta inicial
1Garantir segurança física: retirar objetos cortantes, medicações e demais meios letais do alcance; decidir observação contínua ou 1:1 caso a caso com a equipe, revisando regularmente — a diretriz não recomenda decidir por estratificação/escore de risco (NICE NG225, 2022).
2Tentar de-escalonamento verbal antes de qualquer medicação, mesmo com agitação (Project BETA, AAEP 2012).
3Avaliar ideação/plano/intenção/meios com pergunta direta + C-SSRS como apoio de triagem — não usar isolada para decidir alta (ACEP 2017, nível C).
4Orientar restrição de acesso a meios letais em casa (armas, excesso de medicação) antes da alta, quando aplicável.
5Se agitação leve-moderada e colaborativo: lorazepam VO (Project BETA, AAEP 2012).
6Se agitação grave/não colaborativo: haloperidol IM associado a lorazepam IM (a associação reduz efeitos extrapiramidais: 20% com haloperidol isolado vs 6% associado) — alternativas: olanzapina IM (não associar a benzodiazepínico IM, risco de depressão respiratória/hipotensão) ou ziprasidona IM (Project BETA, AAEP 2012).
7Acionar psiquiatria de plantão para avaliação e definição de internação (voluntária ou involuntária, conforme Lei nº 10.216/2001, quando há transtorno mental associado a risco relevante e recursos extra-hospitalares insuficientes).
8Se internação involuntária: lembrar do prazo legal de comunicação ao Ministério Público em até 72h — é exigência de procedimento, não critério de risco.
9Notificação compulsória imediata de tentativa de suicídio ao SINAN (Portaria MS nº 1.271/2014) — exigência administrativa distinta da comunicação ao Ministério Público, aplica-se a toda tentativa atendida, não só à internação involuntária.
10Antes da alta (se indicada pela psiquiatria): considerar safety planning estruturado + follow-up telefônico pós-alta (ED-SAFE, JAMA Psychiatry 2017).
Exames
Glicemia capilar
Triagem toxicológica se suspeita de intoxicação associada
ECG se for usar haloperidol (risco de prolongamento de QT) ou se houver suspeita de intoxicação por cardiotóxico
Exames de rotina NÃO são recomendados apenas por sintoma psiquiátrico agudo isolado (ACEP 2017, nível C) — pedir conforme quadro clínico associado
Prescrição-modelo
Ajustar toda dose por peso, função renal/hepática, alergia, gestação e protocolo local antes de prescrever — isto é ponto de partida, não receita fechada.
Dieta
Conforme quadro clínico associado (jejum se intoxicação/instabilidade, dieta livre se estável)
Soro
Conforme necessidade clínica associada (ex.: hidratação em intoxicação) — sem indicação específica pelo quadro psiquiátrico isolado
Haloperidol 5 mg IM + lorazepam 2 mg IM — agitação grave/não colaborativo; associação reduz efeitos extrapiramidais (Project BETA/AAEP, 2012)
Olanzapina 10 mg IM — alternativa à associação acima; NÃO associar a benzodiazepínico IM (risco de depressão respiratória/hipotensão) (Project BETA/AAEP, 2012)
Ziprasidona 10-20 mg IM — alternativa (Project BETA/AAEP, 2012)
Haloperidol IV (uso off-label, via não aprovada em bula): limitar a 5-10 mg/dia com ECG contínuo pelo risco de QT longo (Project BETA/AAEP, 2012)
Recomendações
Observação contínua ou 1:1 decidida caso a caso com a equipe (não por escore/estratificação de risco), ambiente sem meios letais ao alcance
Reavaliar causa da agitação (intoxicação, delirium) antes de medicar — etiologia muda a escolha do fármaco
Acionar psiquiatria de plantão para toda ideação ativa/tentativa/plano estruturado
Exames
Glicemia capilar
Triagem toxicológica se suspeita de intoxicação associada
ECG antes/durante uso de haloperidol pelo risco de QT longo
Referências
[1]Nazarian DJ et al., Clinical Policy: Critical Issues in the Diagnosis and Management of the Adult Psychiatric Patient in the Emergency Department, American College of Emergency Physicians (ACEP), Annals of Emergency Medicine, 2017
[2]Posner K et al., The Columbia-Suicide Severity Rating Scale: initial validity and internal consistency findings, American Journal of Psychiatry, 2011
[3]Hunter AA et al., The practice of lethal means restriction counseling in US emergency departments to reduce suicide risk: a systematic review, Injury Epidemiology, 2021
[4]Miller IW et al. (ED-SAFE Investigators), Suicide Prevention in an Emergency Department Population: The ED-SAFE Study, JAMA Psychiatry, 2017
[5]Wilson MP, Pepper D, Currier GW, Holloman GH Jr, Feifel D, The Psychopharmacology of Agitation: Consensus Statement of Project BETA, American Association for Emergency Psychiatry, Western Journal of Emergency Medicine, 2012
[6]Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001 (Brasil) — base legal para internação psiquiátrica involuntária
[7]NICE, Self-harm: assessment, management and preventing recurrence, NG225, National Institute for Health and Care Excellence (Reino Unido), 2022
[8]Associação Brasileira de Psiquiatria, Comissão de Emergências Psiquiátricas, Diretrizes da ABP para o manejo do comportamento suicida, Debates em Psiquiatria, 2024
[9]Portaria nº 1.271, de 6 de junho de 2014, Ministério da Saúde (Brasil) — lista de notificação compulsória, inclui tentativa de suicídio (SINAN)
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.