Queimadura química ocular — irrigação, pH e conduta tópica
Paciente chegou com respingo de produto químico (ácido ou álcali) no olho — como conduzir a irrigação, o teste de pH e o tratamento tópico inicial?
Red flags — sinais de gravidade
pH que não neutraliza apesar de irrigação prolongada — pensar em partícula sólida retida no fórnice
Roper-Hall grau III (isquemia limbar 1/3–1/2, haze estromal) ou grau IV (isquemia >1/2, córnea opaca) — acionar oftalmo com urgência
Queimadura alcalina — penetra mais rápido e mais profundo que a por ácido
PIO elevada refratária ao tratamento tópico inicial
Sinais de afinamento/perfuração corneana iminente
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Identificar o agente (ácido x álcali) e horário do contato, sem atrasar a irrigação por isso
Testar pH no fórnice conjuntival com fita indicadora antes de iniciar e durante a irrigação
Aplicar anestésico tópico para facilitar exame/irrigação (proximetacaína/tetracaína)
Everter as pálpebras e revisar fórnices em busca de partículas sólidas retidas
Classificar gravidade pela Roper-Hall (córnea, isquemia limbar) após a irrigação inicial
Medir PIO após a irrigação e neutralização do pH
Conduta inicial
1Irrigação imediata e copiosa antes de qualquer outra medida — soro fisiológico 0,9% ou Ringer lactato, com anestésico tópico prévio e lente de Morgan/blefarostato se disponível; evita-se água por ser hipotônica e penetrar mais fundo na córnea.
2Everter pálpebras e remover partículas sólidas dos fórnices com cotonete; se o agente for cal/óxido de cálcio, embeber o cotonete em EDTA 1%.
3Medir pH do fórnice periodicamente durante a irrigação; manter irrigação até o pH ficar estável em faixa fisiológica (~7,0-7,4, próximo da faixa 7,0-7,2 usada pela AAO) por cerca de 30 minutos, reavaliando depois de parar — intervalos exatos de medição variam entre fontes secundárias, sem RCT dedicado definindo um protocolo único.
4Após pH neutralizado, exame oftalmológico completo e classificação por Roper-Hall.
5Se ácido fluorídrico, considerar irrigação/colírio com gluconato de cálcio 1%.
6Cicloplégico tópico para alívio do espasmo ciliar/dor — ciclopentolato 1% em grau I (leve); nos graus II-IV, preferir cicloplégico de ação mais longa (homatropina 2-5% ou escopolamina 0,25%), conforme gravidade Roper-Hall.
7Antibiótico tópico profilático enquanto houver defeito epitelial.
8Corticoide tópico é controverso — só se indicado por oftalmo, com tapering.
9Medir PIO; se elevada, hipotensor tópico fica a critério do oftalmo — a pesquisa não confirmou dose-padrão para esse contexto, então essa etapa lembra de acionar especialista em vez de fechar a dose.
10Não usar anestésico tópico para uso domiciliar/alta — risco de toxicidade endotelial e ulceração.
11Profilaxia antitetânica conforme protocolo local (fonte cita via IM, sem dose numérica confirmada).
12Reavaliação em 24h se lesão leve (grau I-II); internação e oftalmo urgente se grau III/IV.
Exames
Teste de pH ocular (fita indicadora no fórnice conjuntival)
Biomicroscopia/lâmpada de fenda com fluoresceína (extensão do defeito epitelial, isquemia limbar)
Tonometria (PIO) — considerar Tono-Pen se superfície corneana irregular
Classificação Roper-Hall registrada em prontuário
Prescrição-modelo
Confere peso, função renal, alergias e protocolo local antes de fechar qualquer dose — isto aqui é ponto de partida, não receita pronta.
Dieta
Sem restrição especial, salvo indicação por internação/procedimento associado
Soro
SF 0,9% ou Ringer lactato — uso para irrigação ocular copiosa, não via sistêmica
Dexametasona colírio 0,1% ou prednisolona acetato 1% — 1 gota, a cada 1-2h nas primeiras 1-2 semanas, com tapering; só se indicado por oftalmo
Gluconato de cálcio 1% tópico/irrigação — reservado a queimadura por ácido fluorídrico
EDTA 1% (embebido em cotonete) — remoção de partículas de óxido/cal
Recomendações
Irrigação copiosa é a medida que mais muda o prognóstico — não atrasar por outros exames
Não prescrever anestésico tópico para o paciente levar para casa
Reavaliação oftalmológica em 24h nos casos leves; urgente nos graus III/IV
Exames
pH ocular seriado
Biomicroscopia com fluoresceína
Tonometria (PIO)
Referências
[1]Solano JJ, Ocular Burns and Chemical Injuries, Medscape/eMedicine, atualizado em 09/mar/2023
[2]Bizrah M, Yusuf A, Ahmad S, An update on chemical eye burns, Eye (Lond), 2019;33(9):1362-1377
[3]Monaghan MT, Brogan K, Lockington D, Rotchford AP, Ramaesh K, Variability in measuring pH using litmus paper and the relevance in ocular chemical injury, Eye (Lond), 2019;34(11):2133-2134
[4]Soleimani M, Naderan M, Management Strategies of Ocular Chemical Burns: Current Perspectives, Clinical Ophthalmology, 2020;14:2687-2699
[5]Chau JPC, Lee DTF, Lo SHS, Eye irrigation for patients with ocular chemical burns: a systematic review, JBI Library Systematic Review, 2010;8(12):470-519
[6]Roper-Hall M, classificação de gravidade de queimadura ocular química, 1965 (sistema de gradação, não diretriz de sociedade)
[7]American Academy of Ophthalmology, EyeNet — Treating Acute Chemical Injuries of the Cornea (alvo de pH e cicloplegia por gravidade)
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.